Biólogo cria página para compartilhar informações sobre insetos

Publicação: 2019-08-04 00:00:00 | Comentários: 0
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Tádzio França
Repórter

Insetos são seres que dividem opiniões. O senso comum é de que são incômodos e perigosos. Mas, há insetos e insetos. Sob a lente da entomologia agrícola, a coisa muda de figura. Os insetos são analisados pela capacidade que têm de agir sobre a natureza – e principalmente de beneficiá-la. O biólogo Tiago Costa Lima, pernambucano de nascimento, mas criado e formado em Natal, transformou seu trabalho em um hobby que compartilha com os outros nas redes sociais: ele fotografa insetos e escreve textos informativos e bem humorados sobre eles. A ideia é disseminar informação de uma forma acessível e atraente.  

Abelha melífera (apis mellifera) , mais comum no sertão nordestino, tem uma relação de amor com a flor do manjericão
Abelha melífera (apis mellifera) , mais comum no sertão nordestino, tem uma relação de amor com a flor do manjericão

O perfil no Instagram 'Insetos do Sertão' (@insetosdosertao) exibe variadas amostras dos pequenos animais que Tiago Costa observa em seu dia a dia e também em seu trabalho de pesquisador na Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), em Petrolina (PE), sertão de Pernambuco. “Eu amo insetos desde que era criança. Eu criava um grilo no jardim dos meus pais. Foi um caminho natural estudar e trabalhar com entomologia”, diz, ressaltando que a página tem a intenção de aproveitar o alcance das redes sociais para difundir mais informações para variados públicos. E tem conseguido. 

Planeta inseto 
As fotos e vídeos postados na página falam de assuntos como atração irresistível entre o manjericão e as abelhas; sobre como a lagarta é insaciável e é a praga mais temida pelos produtores; a sutileza do “bicho de goiaba”, que na verdade é a mosca-da-fruta, cujas larvas consomem as frutas por dentro; os tripes, a principal praga da cebola; a mosca-mineradora, a praga mais comum entre as diversas hortaliças e plantas ornamentais, entre outras. Há espaço também para cenas curiosas como a de um percevejo saboreando uma acerola, e uma larva de mosca devorando um pulgão na folha de uma melancia. 

Tiago diz que estudos buscam formas não tóxicas de controle
Tiago diz que estudos buscam formas não tóxicas de controle

O biólogo ressalta que as informações do mundo acadêmico podem ser repassadas de forma divertida e menos sisuda que o habitual. “Eu quero que pessoas leigas também se interessem pelo material, não só gente do meio biológico ou agrícola. Há vários perfis semelhantes no Brasil e no mundo, de aproximar mais a linguagem da ciência das pessoas, e não apenas no círculo das pessoas que trabalham na área”, diz. 

Tiago mora e trabalha desde 2012 em Petrolina, e boa parte de seus registros são feitos no sertão pernambucano. Outras áreas do interior do Nordeste também passam pelas lentes – inclusive do RN, onde ainda mora sua família. Os tipos de insetos variam muito conforme o clima da região, da geografia, da ocupação. “Aqui na região de Petrolina/Juazeiro tem uma área de agricultura muito grande, então você acaba tendo muitos insetos associados a essa culturas. Mas se você vai a regiões de climas mais amenos, por exemplo no RN, em Martins, ou Garanhuns, em Pernambuco, ou nas chapadas da Bahia, com altitudes maiores, vai ter outros tipos de insetos”, explica. 

O sertão nordestino é amplo e diverso, e as diferenças são notáveis. Na análise da entomologia agrícola, há insetos que se apresentam como pragas, mas são a porcentagem mínima em sua totalidade. Boa parte deles são benéficos ao meio ambiente. “Temos os polinizadores, temos aqueles que são inimigos naturais e controlam outros insetos para que não se tornem pragas, temos os insetos decompositores, etc. Temos insetos atuando em diferentes áreas, e que trazem benefícios para manter a sustentabilidade no planeta”, diz. “Para mim, o maior exemplo de sucesso evolutivo nem são os humanos, mas os insetos. Eles dominam o mundo”, brinca. 

Relações tóxicas
Enquanto se acirra a polêmica sobre o número crescente de agrotóxicos aprovados e registrados pelo atual Ministério da Agricultura, Tiago acredita que  aprender o uso correto dessas substâncias é a única forma de minimizar seus impactos negativos sobre os insetos e seu meio ambiente. “É preciso orientar as pessoas. Saber quais inseticidas usar, o momento, a forma e a aplicação corretas, e até a proteção a ser usada na hora da aplicação”, diz. 

“Há vários cultivos que são dependentes de alguns agrotóxicos que não têm alternativa de controle, porém o trabalho deve ser feito para que esse seja utilizado da melhor forma possível, de acordo com os estudos”, explica o biólogo. Tiago ressalta que a entomologia agrícola atual também procura difundir diferentes formas de controle não químicos, com alternativas biológicas e naturais, fazendo com que isso chegue aos agricultores,  promovendo uma agricultura mais sustentável e de menor impacto para o meio ambiente. 

Mel amargo
As abelhas, insetos cuja função polinizadora (além de fabricação de mel), têm lugar de destaque no meio agrícola, têm apresentados números cada vez maiores e preocupantes de morte. As abelhas são as principais polinizadores da maioria dos ecossistemas do planeta. Tiago ressalta, mais uma vez, a utilização incorreta dos agrotóxicos e inseticidas nas atividades agrícolas. “Saber como, quais e quando usar são essenciais para que a gente busque não afetar esses polinizadores que são de extrema importância para toda humanidade”, afirma. O contato com agrotóxicos à base de neonicotinoides e de Fipronil (proibidos na Europa há mais de uma década) é considerado o problema mais evidente. 

Há varias culturas que são dependentes da abelha para sua reprodução. Tiago destaca que no Rio Grande do Norte, por exemplo, a cultura do melão é totalmente dependente da abelhas  'apis mellifera'. “Os produtores possuem colmeias que levam para os campos para fecundar a flor e a formação do fruto do meloeiro, é um exemplo clássico no RN, uma cultura bem representativa. Então há a necessidade de buscar manejos que tenham menor impacto pra tudo, como as abelhas e muitos outros insetos que são benéficos para todos, e não só a questão das pragas”, conclui. 

Onde:
O perfil no Instagram 'Insetos do Sertão' (@insetosdosertao) 


Colaborou: Cinthia Lopes






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