Big Brother Corrupção

Publicação: 2013-12-08 00:00:00 | Comentários: 0
A+ A-
Luciano Ramos - procurador-geral do Ministério     Público de Contas/RN

A cidade apresenta suas armas/Meninos nos sinais, mendigos pelos cantos.
E o espanto está nos olhos de quem vê o grande monstro a se criar.
(Selvagem, Paralamas do Sucesso)

Com a sua percuciência, Santo Agostinho observou não ter o homem medo do pecado, mas sim a descoberta pelos outros de que ele havia pecado. Não obstante, séculos se passaram e já não sei se o teólogo do Século V teria hoje tanta certeza de que o homem tema a descoberta de seus pecados, ao menos concernente à corrupção e alguns acontecimentos recentes no Brasil.

  A espetacularização da vida e o anseio misto de consumismo e exibicionismo tem produzido algumas cenas nada memoráveis de autopromoção do corrompido, sobretudo com entrevistas em grandes meios de comunicação, cujas narrativas beiram a psicopatia de achacadores do dinheiro público.

Isto após os esquemas serem descobertos, pois muitas vezes são antecedidas por destemida exposição em redes sociais dos sinais de sua degradação moral, na proporção inversa da evolução patrimonial ilícita.

Do escândalo dos precatórios no Tribunal de Justiça do Rio Grande do Norte à máfia dos auditores fiscais na Prefeitura de São Paulo, dois de seus personagens centrais causaram ojeriza à muitos, em virtude da desfaçatez com que usufruíram às claras o produto de seus crimes praticados contra o Patrimônio Público: um com diárias em hotéis de luxo em Paris, outro com garotas de programa ao custo de R$ 5.000,00; um com sua Mercedes de asa de gaivota, outro com seu iate de 40 pés; entre outros mimos patrocinados por nossos impostos cobrados e desviados religiosamente.

Porém, a inversão de valores não parou por aí. Na visão deles não basta ser corrupto, tem que se vangloriar do malfeito em rede nacional, como se fosse digno passar a vida lesando os cofres públicos, com crimes que se incorporam ao estilo tortuoso de vida dos seus protagonistas, sem arrependimento e rasgando de vez a fantasia de falsos pudores que nunca tiveram.

Choca chegarmos a esse ponto, de tal maneira que aparentemente atingimos o quanto previsto por Rui Barbosa, onde a prosperidade das nulidades e desonras acabaria por nos levar a ter vergonha de ser honesto e rirmos da honra, desanimados, enfim, da virtude.

Então, cabe-nos perguntar, o dia do desânimo coletivo da virtude chegou? As imagens realmente balançam e fazem refletir sobre os caminhos de nossa sociedade, mas a centelha de esperança acaba por brotar no lodo deixado por estes crimes descobertos, ainda que tardiamente.

A indignação é o sentimento majoritário diante destes desmandos, e é esta flor que os órgãos responsáveis por combater a corrupção devem cultivar, juntamente com o destaque das ações virtuosas, sem as quais não se consegue construir uma nação, com a solidariedade coletiva que ela requer.

À degeneração de alguns indivíduos, há de contrapor-se o fortalecimento das Instituições, sob pena de a patologia social localizada espraiar-se endemicamente por toda a sociedade, deteriorando-a por completa.

Com esta mudança de foco, o quadro não se mostra tão desalentador, pois algumas portas convidativas à corrupção tem sido fechadas pela vigilante atuação de nossas principais Instituições – destaque para a Lei de Acesso à Informação, a vedação do nepotismo, a Lei de Improbidade Administrativa e a Lei de Responsabilidade Fiscal.

Com o fortalecimento destas armas e o aperfeiçoamento institucional cada vez mais conduzido por pessoas selecionadas pelo mérito demonstrado em concurso público – sem dever nada a ninguém – somado à exposição dos efeitos nefastos da corrupção, passaremos todos a temer e evitar este pecado por ser um mal em si mesmo, virtude reforçada pela imprescindível certeza da punição.

continuar lendo


Deixe seu comentário!

Comentários