Bolsonaro empossa novo diretor da Polícia Federal

Publicação: 2020-05-05 00:00:00
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Brasília (AE) — Em uma estratégia de blindar uma eventual medida do Supremo Tribunal Federal, o presidente Jair Bolsonaro deu posse às pressas ao novo diretor-geral da Polícia Federal, Rolando Alexandre de Souza, na manhã de ontem. Sem divulgação antecipada nem convidados, a pequena cerimônia durou apenas 20 minutos no gabinete de Bolsonaro no Palácio do Planalto. Na semana passada, uma decisão do ministro Alexandre de Moraes impediu que Alexandre Ramagem, diretor-geral da Agência Brasileira de Investigação (ABIN), assumisse o comando da PF.

Créditos: Isac Nóbrega/PRPresidente Jair Bolsonaro empossa, no Palácio do Planalto, o novo diretor-geral da Polícia FederalPresidente Jair Bolsonaro empossa, no Palácio do Planalto, o novo diretor-geral da Polícia Federal


A posse de Rolando ocorreu às 10h, cerca de meia hora depois de a nomeação ter sido publicada em edição extra do Diário Oficial da União (DOU). A atualização da agenda do presidente só foi divulgada após o encerramento da cerimônia. Estiveram presentes sete ministros, entres os quais André Luiz Mendonça, da Justiça e Segurança Pública.

Alexandre Ramagem não esteve presente. Ao chefe da Abin, é atribuída a indicação de Rolando, considerado o seu braço direito, para o comando da PF. Como mostrou o Estado no sábado, a nomeação de Rolando é vista como uma alternativa do presidente para manter a influência de Ramagem, que é próximo à família Bolsonaro, na Polícia Federal.

Rolando, que é ex-secretário de Planejamento e Gestão da Abin, deixou o Palácio do Planalto por volta das 11h30 e não quis falar com a imprensa. Disse apenas que iria para a sede da Polícia Federal. “Assinei o termo de posse. Estou indo lá para a PF”, afirmou ao ser abordado por repórteres.

O presidente está preocupado, segundo o jornal o Estado de SP, com o avanço do inquérito das ‘Fake News’, que poderia atingir seus filhos e até mesmo servidores que atuam no chamado ‘gabinete do ódio’. A investigação já identificou empresários bolsonaristas que estariam financiando ataques contra ministros do Supremo nas redes sociais, conforme revelou o jornal O Estado de SP.

Há ainda outro inquérito aberto por determinação do ministro do STF, Alexandre de Moraes, para apurar ‘fatos em tese delituosos’ envolvendo a organização de atos antidemocráticos, após Bolsonaro participar de protesto em Brasília convocado nas redes sociais com mensagens contra o STF e o Congresso.

Outra apreensão do presidente é a apuração sobre o senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) que trata de um esquema de ‘rachadinha’ em seu antigo gabinete, na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro. O caso foi revelado pelo Estado.

Rolando estava na Superintendência da Polícia Federal em Alagoas até setembro do ano passado, quando assumiu a secretaria de Planejamento e Gestão da Abin a convite de Ramagem. Antes de ser vetado no comando da PF, o chefe da agência de inteligência já montava sua equipe na cúpula da instituição e levaria Rolando com ele.

Por sua vez, Ramagem foi segurança de Bolsonaro durante a campanha eleitoral e entrou para o rol de auxiliares de confiança do Planalto com o apoio do vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ). A sua nomeação para a direção da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), em julho de 2019, é atribuída ao filho do presidente.

Bolsonaro foi alertado que nomear Ramagem para chefiar a PF potencializaria as acusações do ex-ministro da Justiça Sérgio Moro, que ao se demitir disse que o presidente queria fazer interferência política na Polícia Federal e ter acesso a relatórios de inteligência. Entretanto, insistiu e a nomeação foi publicada no Diário Oficial da União (DOU) no dia 27 de abril, junto com a confirmação de Mendonça, ex-Advocacia-Geral da União, para o Ministério da Justiça.

Poucas horas antes da cerimônia de posse no Palácio de Planalto na quarta-feira, 29, o ministro Alexandre de Moraes suspendeu a nomeação de Ramagem para a direção-geral da Polícia Federal. A decisão liminar atendeu a um pedido apresentado pelo PDT após o governo baixar decreto confirmando a indicação.

De acordo com Moraes, as declarações de Moro sobre tentativa de interferências na autonomia da corporação, a divulgação de mensagens trocadas com o ex-ministro e a abertura do inquérito no próprio Supremo para investigar as acusações motivam a necessidade de impedir a posse de Ramagem.

Quem é 
Novo diretor-geral da Polícia Federal, o delegado Rolando Alexandre de Souza já defendeu que políticos corruptos são mais perigosos que “traficantes da esquina” e que sua prioridade no órgão é combater a corrupção. Sua nomeação ocorre depois que Alexandre Ramagem teve indicação suspensa por decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF).

Rolando Alexandre de Souza era considerado o braço direito de Ramagem na Agência Brasileira de Inteligência (Abin). Ocupava o cargo de secretário de Planejamento e Gestão da instituição. Antes de chegar à Abin, em setembro de 2019, Souza era superintendente regional da PF em Alagoas.

Em março de 2018, época de sua nomeação em Alagoas, Rolando Alexandre de Souza defendeu a parceria com outras instituições para driblar a falta de servidores na PF. “Questão de efetivo acho que é um problema nacional de todos os órgãos. Realmente nós temos uma carência de efetivo. Mas para tentar suplementar essa carência, a gente conta com as parcerias: Receita, CGU (Controladoria-Geral da União), TCU (Tribunal de Contas da União), as Polícias Civil e Militar. Então é a partir dessas parcerias que a gente pretende potencializar os efeitos das operações da Polícia Federal”, declarou em entrevista à TV Gazeta.

Ao assumir o cargo em Alagoas, Souza disse que o combate à corrupção era sua prioridade “número um”. “Nós temos vários outros crimes que são atribuições da Polícia Federal e nós devemos combater todos, mas o combate à corrupção é o número um deles”, afirmou Souza, na cerimônia de posse como superintendente.

O delegado também foi chefe do Serviço de Repressão a Desvios de Recursos Públicos (SRDP), situado na sede da PF em Brasília. Em uma palestra em 2017, afirmou que políticos corruptos são mais perigosos que “traficantes da esquina”. “A corrupção mata. Achar que o traficante da esquina é mais perigoso que o político corrupto é uma falácia. Político mata muito mais que bandido”, declarou no Encontro Nacional sobre Cooperação para Prevenção e Combate à Corrupção, realizado pela Rede de Controle da Gestão Pública de Mato Grosso.