Bolsonaro mantém tom de confronto

Publicação: 2020-09-23 00:00:00
O presidente Jair Bolsonaro abriu ontem os debates da 75.ª Assembleia-Geral das Organizações das Nações Unidas (ONU) com um discurso contundente em que manteve tom de confronto e apresentou seu governo como vítima de perseguição internacional. Na tentativa de se eximir das cobranças por recordes de queimadas na Amazônia e no Pantanal, Bolsonaro distorceu dados, atribuiu a índios e caboclos a disseminação do fogo nas florestas e disse haver uma "campanha brutal de desinformação".

Créditos: MARCELO D. SANTS/FRAMEPHOTO/ESTADÃO CONTEÚDOPresidente cita, durante discurso na ONU, o termo cristofobia, usado em geral para falar de perseguição onde cristãos são minoriasPresidente cita, durante discurso na ONU, o termo cristofobia, usado em geral para falar de perseguição onde cristãos são minorias

Pela primeira vez, por causa da pandemia do coronavírus, as declarações dos líderes mundiais ocorreram de modo virtual. Criticado pela condução da crise do coronavírus, o presidente insistiu na narrativa contra o isolamento social, usou informações falsas sobre a pandemia e defendeu a hidroxicloroquina, medicamento sem eficácia comprovada para o tratamento da covid 19.

No fim do discurso, o presidente citou o termo "cristofobia", usado, em geral, para falar de perseguição a minorias cristãs em países de maioria islâmica. "Faço um apelo a toda a comunidade internacional pela liberdade religiosa e pelo combate à cristofobia", disse. "O Brasil é um país cristão e conservador e tem na família sua base."

Bolsonaro gravou o pronunciamento na semana passada e fez vários ajustes. Críticas à atuação da ONU e o posicionamento contra o aborto, por exemplo, foram retirados. Como é tradição, o Brasil sempre abre os trabalhos na Assembleia da ONU. O discurso, de 15 minutos, foi iniciado com um lamento pelas vítima da covid-19. Em seguida, o presidente disse que "o vírus e o desemprego" precisavam ser "tratados igualmente".

Bolsonaro acusou a imprensa de politizar a doença e espalhar pânico e criticou a quarentena recomendada por autoridades de saúde para evitar o contágio. "Sob o lema 'fique em casa' e 'a economia a gente vê depois', quase trouxeram o caos social ao País", afirmou. Com mais de 137 mil mortos, o Brasil é o segundo país do mundo em número de óbitos, só perdendo para os Estados Unidos, e o terceiro em casos, com mais de 4,5 milhões de pessoas contaminadas.

O presidente disse, ainda, que o Supremo Tribunal Federal (STF) delegou a prefeitos e governadores medidas para conter a propagação da covid-19, distorcendo o teor da decisão da Corte. Diferentemente do que mencionou Bolsonaro, porém, o STF não retirou da União a responsabilidade pelas ações de combate à pandemia, embora tenha assegurado autonomia a Estados e municípios.

Para rebater críticas na área ambiental, Bolsonaro também recorreu à condição de vítima, embora tenha evitado "fulanizar" os críticos de sua política ambiental, como fez no ano passado, quando citou França e Alemanha. Com acordos comerciais sob ameaça, como os da União Europeia e do Mercosul, afirmou que incêndios no Pantanal e na Amazônia vêm sendo usados numa "brutal campanha de desinformação", com o objetivo de atacar o governo.

"A Amazônia brasileira é sabidamente riquíssima. Isso explica o apoio de instituições internacionais a essa campanha escorada em interesses escusos que se unem a associações brasileiras, aproveitadoras e impatrióticas, com o objetivo de prejudicar o governo e o próprio Brasil", argumentou.

Ao ignorar dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), indicando o aumento da devastação, o presidente alegou que o alastramento do fogo está relacionado à queima de roçadas por parte de caboclos e índios. "Nossa floresta é úmida e não permite a propagação do fogo em seu interior. Os incêndios acontecem praticamente nos mesmos lugares, no entorno leste da floresta, onde o caboclo e o índio queimam seus roçados em busca de sua sobrevivência, em áreas já desmatadas."

Logo depois, disse que a extensão da Amazônia e do Pantanal dificulta o combate às queimadas e o trabalho de fiscalização como a extração ilegal de madeira. "Nossa Amazônia é maior que toda a Europa Ocidental. Daí, a dificuldade em combater não só os focos de incêndio, mas também a extração ilegal de madeira e a biopirataria", justificou. Mesmo assim, afirmou que mantém política de "tolerância zero" com o crime ambiental.

Acenos
Bolsonaro usou o discurso na ONU para fazer acenos aos EUA. Ao citar a tecnologia 5G, disse estar interessado em parcerias que "respeitem nossa soberania, prezem pela liberdade e pela proteção de dados". O leilão do 5G no Brasil, previsto para 2021, é palco de disputa tecnológica entre EUA e China.

A 42 dias das eleições americanas, Bolsonaro entrou na campanha do presidente Donald Trump, que tenta um segundo mandato, ao elogiar iniciativa lançada por ele como solução para o conflito no Oriente Médio. Na outra ponta, atacou a Venezuela, ao dizer, sem apresentar provas, que o derramamento de óleo no litoral brasileiro, em 2019, foi causado pelo país vizinho. 

Presidente faz aceno a cristãos, diz analista
No discurso na Assembleia Geral da ONU, o presidente Jair Bolsonaro fez um apelo "pela liberdade religiosa" e pelo combate do que chamou de "cristofobia". Para especialistas ouvidos pelo Estadão, porém, a fala do mandatário foi na contramão do que seria um discurso pela liberdade religiosa. "Faço um apelo a toda a comunidade internacional pela liberdade religiosa e pelo combate à cristofobia", afirmou o presidente. Ao fim do discurso, ainda disse que "o Brasil é um país cristão e conservador".

A cristofobia é entendida como a aversão ou perseguição às religiões cristãs. Segundo o advogado Eliennay Gomes Alves, que preside a comissão de Liberdade Religiosa da OAB no Ceará (OAB-CE), o presidente poderia ter feito um chamado ao combate à intolerância religiosa como um todo. O advogado avalia ainda que, ao dizer que o Brasil é cristão, Bolsonaro ignora o restante da nação. "O País é laico. As palavras dele (Bolsonaro) não condizem com a realidade da nossa nação, sobretudo porque sabemos que os casos de intolerância, em sua maioria, não se dão em face dos cristãos, mas sim com as religiões de matriz africana", afirmou.

Professor de Filosofia Política na FAAP e doutor em ciências da religião, Luiz Bueno segue o mesmo entendimento. "Uma vez que o presidente demarca um campo religioso no seu discurso, é como se ele excluísse os demais cidadãos que não estão incluídos naquela definição", afirma. Para Bueno, a fala de Bolsonaro foi um aceno à sua base eleitoral. "Tem muito mais um efeito retórico que prático", disse. 

Discurso e informação
Em seu discurso ontem na abertura da Assembleia-Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), o presidente Jair Bolsonaro ignorou estudos internacionais sobre preservação ambiental no País e afirmou, sem base em informações oficiais, que "índios e caboclos" são responsáveis por incêndios nas florestas, segundo checagem feita pelo Estadão Verifica. Veja alguns pontos do pronunciamentos e os dados levantados pelo “Estadão Verifica”:

"Por decisão judicial, todas as medidas de isolamento e restrições de liberdade foram delegadas a cada um dos 27 governadores. Ao presidente, coube o envio de recursos e meios para todo o País."

Bolsonaro repetiu alegação que já tinha feito em junho sobre uma decisão do Supremo Tribunal Federal. Na época, ele afirmou que o STF havia decidido que as ações de combate à pandemia deveriam ficar sob total responsabilidade de governadores e prefeitos. Mas os ministros afirmaram que Estados e municípios têm autonomia para tomar decisões contra a propagação da covid-19, o que não tira a responsabilidade da União. Em abril, o STF reconheceu a "competência concorrente" de União, Estados, municípios e Distrito Federal em ações de enfrentamento do coronavírus.

"Nosso governo concedeu auxílio emergencial em parcelas que somam aproximadamente US$ 1 mil para 65 milhões de pessoas, o maior programa de assistência aos mais pobres no Brasil e talvez um dos maiores do mundo."

Uma pessoa que se inscreveu no programa emergencial em abril receberá, ao todo, R$ 4,2 mil, o que equivale a US$ 771 na cotação atual. No caso das mulheres solteiras e chefes de família, que estão no programa desde abril, o valor total é o dobro, R$ 8,4 mil ou US$ 1.542. Na média geral, o País vai pagar o total de R$ 4.874 para cada família, o que dá US$ 975. Nem todo mundo entrou no programa em abril, mas a maioria, sim - cerca de 60 milhões dos 65 milhões de beneficiados.

"Somos líderes em conservação de florestas tropicais."

Embora o Brasil tenha a maior área de florestas tropicais do mundo, o País foi o que mais perdeu esse tipo de cobertura vegetal em 2019, segundo dados da Universidade de Maryland divulgados na plataforma Global Forest Watch. Foram mais de 1,3 milhão de hectares perdidos no ano passado. Segundo a Global Forest, esse número inclui "desmatamento para agricultura, incêndios nas matas e exploração madeireira seletiva". 

"Os incêndios acontecem praticamente nos mesmos lugares, onde o caboclo e o índio queimam seus roçados em busca de sua sobrevivência, em áreas já desmatadas."

Estudo divulgado no mês passado pelo Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) contraria a fala do presidente. Análise dos dados feita pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e pela Nasa indicou que 34% dos focos de calor registrados em 2019 eram de fogo em áreas recém-desmatadas. Outros 36% foram identificados com o objetivo de manejo agropecuário e 30% correspondiam a incêndios em áreas florestais.