Bolsonaro rejeita vacina obrigatória

Publicação: 2020-10-20 00:00:00
Camila Turtelli
Agência Estado 

O presidente Jair Bolsonaro voltou a dizer ontem que uma possível vacina contra a covid-19 não será obrigatória. Sem citar diretamente o governador João Doria (PSDB), que anunciou essa obrigatoriedade no Estado de São Paulo, Bolsonaro acrescentou que "tem governador que está se intitulando o médico do Brasil". O chefe do Executivo mencionou que o próprio ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, já disse que a imunização não será compulsória, embora oferecida gratuitamente pelo governo. "A lei é bem clara e quem define isso é o Ministério da Saúde. O ministro já disse que não será obrigatória essa vacina e ponto final", bradou ontem para apoiadores na saída do Alvorada.

Créditos: FOTOS/ARQUIVO/TNBolsonaro diz que tem governador que está se intitulando médicoBolsonaro diz que tem governador que está se intitulando médico

O presidente já havia sinalizado que o governo não iria obrigar a população a se vacinar na sexta-feira, pelas redes sociais, mesmo dia em que o governador paulista falou em obrigatoriedade. E foi adiante: "Outra coisa, tem um governador que está se intitulando o médico do Brasil dizendo que ela (vacina) será obrigatória, e não será". O chefe do Executivo opinou ainda que uma vacina estrangeira precisa primeiro ser aprovada pela Anvisa, para depois ser oferecida à população. Acrescentou também que ela deve primeiro ser aplicada em massa no seu país e depois ser oferecida aos outros. 

Medicamento
O presidente aproveitou, em evento ao lado do ministro Marcos Pontes, da Ciência e Tecnologia, para divulgar um estudo clínico do vermífugo nitazoxanida em pacientes na fase precoce da covid-19, para abordar a questão da obrigatoriedade. "Eu queria falar sobre uma notícia que está circulando, não é fake news, ela é verdadeira, levando-se em conta o autor. Mas na prática, ela é falsa. Tem uma lei de 1975 que diz que cabe ao Ministério da Saúde o programa nacional de imunização, ali incluindo as possíveis obrigatórias." 

Ele prosseguiu afirmando que "cabe ao Ministério da Saúde definir a questão e já foi definida, não será obrigatória". "Então, quem está propagando isso aí é uma pessoa que pode estar pensando em tudo, menos na saúde ou na vida do próximo", comentou. 

Bolsonaro lembrou, também, que "qualquer vacina precisará ter comprovação científica" e muitas pessoas não vão querer ser imunizadas. "Sabemos que muita gente contraiu, mas nem sabe que contraiu e está imunizado. Vamos obrigar essa pessoa a tomar a vacina?" Em seguida, comparou preços. "Por parte dessa fonte (o governador tucano), essa vacina (a chinesa) custa mais de US$ 10 Do nosso lado (a de Oxford) custa menos, US$ 4."

'Deve ser aplicada a todos os brasileiros', afirma Doria
O governador João Doria (PSDB) afirmou que a vacina contra a covid-19 deve ser aplicada a todos os brasileiros. Em entrevista coletiva ontem, Doria reagiu, em tom mais ameno, às falas do presidente Jair Bolsonaro, que voltou a afirmar que a imunização não será compulsória no País. 

"O Brasil precisa de paz, amor e vacina para salvar os brasileiros. Entendo que a vacina deve ser aplicada a todos os brasileiros, para salvar a vida de todos. Não estamos em uma corrida eleitoral ou ideológica. Estarei ao lado de médicos e cientistas que querem salvar vidas", disse Doria. 

Na saída do Palácio do Alvorada na manhã desta segunda, Bolsonaro afirmou que "o meu ministro da Saúde já disse que não será obrigatória essa vacina e ponto final". Sem citar Doria nominalmente, Bolsonaro também afirmou que tem "governador que está se intitulando o médico do Brasil".

Na entrevista coletiva, Doria também comentou esta declaração. "Queria agradecer ao presidente Bolsonaro me qualificando como médico do Brasil. Eu confio nos médicos do Brasil, isso só me distingue, porque acredito na medicina e nos médicos e é isso que temos feitos nestes meses nas medidas de combate ao coronavírus e proteção às pessoas", disse. 

Na sexta-feira, Doria afirmou que a vacinação contra a covid-19 no Estado será obrigatória. "Já garanti que aqui os 45 milhões de brasileiros de São Paulo serão vacinados e a vacinação será obrigatória, exceto se o cidadão tiver uma orientação médica e um atestado médico de que não pode tomar a vacina. E adotaremos as medidas legais se houver alguma contrariedade nesse sentido", disse Doria na sexta.

Neste dia, horas mais tarde, Bolsonaro publicou nas redes sociais que o Ministério da Saúde não iria impor a imunização. O presidente publicou trechos de uma lei sancionada por ele próprio, em fevereiro, que diz que "poderão ser adotadas a realização compulsória de vacinação e outras medidas profiláticas para o enfrentamento da pandemia". Mas, na sequência, ele publicou trecho de uma lei de 1975 sobre saúde pública para descartar a possibilidade de impor a imunização. 

Também na sexta-feira, João Doria chegou a dar um ultimato no Ministério da Saúde para que indique se irá incluir o uso da coronavac no cronograma de vacinação nacional. Nesta quarta-feira, 21, está agendada uma reunião, em Brasília, entre o governador e membros do Ministério da Saúde e da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para discutir o assunto.