Brasil despreparado para enfrentar a mancha negra

Publicação: 2019-10-23 00:00:00 | Comentários: 0
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Cassiano Arruda

Foi a imagem dramática de uma tartaruga, da espécie oliva, encontrada toda coberta de óleo, salva nas cercanias de Natal, no dia 24 de setembro, na Praia da Redinha,  que levou ao Brasil - e ao mundo - a imagem preocupante de um fenômeno que estava acontecendo em mais de cem praias do litoral dos estados do litoral nordestino sem conseguir, até então,  as atenções do grande público.

A tartaruga foi limpa pela equipe do Aquário de Natal, que cuidou do animal desde a primeira hora e conseguiu preservar sua vida. A veterinária Sofia Cabral, do Aquário, acredita que o envolvimento com o óleo foi recente, já que a tartaruga, no todo, apresentava estar saudável.

Além disso, o Projeto Tamar, que atua nessa época, avisou  que estamos em pleno período de reprodução, com o óleo na beira mar também ameaçando os pequenos filhotes, que teriam de enfrentar uma nova ameaça. O Projeto Tamar monitora mais de 50 quilômetros de litoral até a foz do Rio São Francisco. As manchas chegaram justamente no período reprodutivo das tartarugas-oliva, as menores entre as tartarugas marinhas no Brasil. No domingo, o Projeto Tamar comunicou que suspendeu a soltura dos filhotes, em vários pontos.

SEM CONTROLE
Desde Setembro, quando as primeiras manchas apareceram em Sergipe, o Ibama começou a monitorar a situação naquele Estado, imaginando manter a situação sob controle. Mas, em Outubro o quadro mudou completamente. Praias que estavam limpas ficaram sujas em todo o litoral. E as autoridades preveniram que não existia mais condição de fazerem previsões. E definiu-se a decretação de situação de emergência.

O óleo que vinha causando estragos nos outros Estados chegou com força a Sergipe. Numa só noite poluiu a costa norte, afetando as praias da reserva Biológica Santa Izabel.

Em 30 anos não se conhece nada parecido. Para um comerciante ambulante, quem bota o pé na areia leva essa sujeira no pé. Nos últimos dias a avaliação de quem trabalha na praia é de que os negócios caíram pela metade.

Um pescador com vários anos no ofício também tinha seus motivos de reclamação.

- Ninguém come peixe assim. Quando veem o óleo não compram. E nós quando pescamos, temos de soltar o bicho. Sinceramente nunca vi um negócio desses na minha vida.

AÇÃO PRESIDENCIAL
Depois de mandar o Ministro do Meio Ambiente visitar a região, na volta dele determinou o Presidente que o Ministro da Justiça, por meio da Polícia Federal, e o Ministério da Defesa, através da Marinha, Aeronáutica e Exército, investiguem as manchas, Bolsonaro sinalizou urgência: exigiu resultados em 48 horas. A repentina pressa do Governo chegou a surpreender, porque isso só ocorreu depois de um mês do problema instalado.

A Petrobras informou ter analisado o óleo e descartado que provenha de suas operações. Mas, devido às inúmeras plataformas da empresa no litoral sergipano, a associação com as suas perfurações em alto mar, se apresentam como inevitáveis.

No mundo dos boatos surgiram histórias colocando um acidente registrado nas obras da refinaria de Abreu e Lima, em Pernambuco, como suspeito. No fim de  agosto, um vazamento atingiu uma área de 4.5 hectares e causou a morte de animais e danos ambientais. Mas, ali o óleo que vazou  não atingiu o mar, sem falar que aquele é um tipo de óleo muito mais leve do que foi encontrado nas praias.

Para os entendidos, o óleo que polui as praias do Nordeste apresenta propriedades típicas do petróleo venezuelano. Hipótese desmentida por um fato inquestionável. Se o óleo visse de lá poluiria primeiro as costas mais ao norte da América do Sul.

TEMPO DE AGIR
Mas, o momento exige ação, e não tem faltado exemplos de como está havendo um esforço conjugado para enfrentar o problema nos diferentes níveis.

Na noite do  domingo a Marinha divulgou haver coletado 525 toneladas de resíduos nas praias do Nordeste desde o aparecimento das manchas. Segundo o seu boletim, o número expressivo é resultando de um esforço conjunto dos órgãos federais, estados e municípios, além da ação de voluntários.

A Marinha ressalta que, pelo desconhecimento da origem do óleo, não é possível saber por quanto tempo as manchas de óleo continuarão aparecendo.

A OUTRA DA FASE DA MANCHA
Há um outro lado: -  a ameaça ao trabalho a cerca de 150 mil pessoas que tiram o seu sustento do mar (pescadores e marisqueiros), em 77 cidades da região atingidas pelo óleo, segundo o Ministério da Agricultura. A ministra Tereza Cristina anunciou que vai antecipar o seguro-defeso, para as comunidades  de pescadores afetadas. É um auxílio de um salário mínimo.

Em pleno sábado,  o Governo do RN divulgou o seu "Plano de Resposta e Mitigação de Desastre" para mostrar a mobilização local, no enfrentamento do problema. O Plano atuando ao lado do Comando Unificado de Incidentes, procura aproximar os entes federados na busca de informações e articulações das atividades para o controle e a prevenção dos danos causados pelas manchas de óleo. No comando das forças estaduais, o Gabinete de Gestão Integrada.

Na verdade, o maior desastre ambiental já acontecido no nosso litoral (pelo menos na extensão geográfica dos danos)  tem mobilizado voluntários na limpeza das praias. Prova da consciência de preservação do patrimônio natural, mas, a falta de apoio ao trabalho deles revela a falta de um mínimo de coordenação profissional. Falta Governo. - O Exército é muito bem vindo.






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