"Brasil não tem inimigo no mundo"

Publicação: 2014-03-02 00:00:00
Por Anna Ruth Dantas

Conversar com o professor Li Yiwen é assistir a uma verdadeira aula sobre o momento de transformação vivido pela China. Embora sua análise mais apurada seja voltada para a economia, Yiwen não deixa de trazer um foco na política e como esta acompanha as mudanças na economia.

O professor chinês, que esteve em Natal para participar de evento promovido pela Universidade Potiguar, acredita que em dez anos a China estará dominando a economia mundial. E onde os Estados Unidos estão errando para ceder o lugar para China? “Não há erro. Os Estados Unidos não estão errados, é a China que está fazendo o certo”, responde, de pronto. Mas ele pondera que a liderança no ranking depende, necessariamente, das mudanças políticas que estão ocorrendo na China.
Li Yiwen é diretor do centro de Economia Internacional da International Economics University
Professor Li não conhecia o Brasil e se mostrou encantado. Lembrou que o primeiro contato com o país foi a partir do futebol. Durante a entrevista, recordou que nos anos 70 o Brasil chegou a ser muito mais rico que a China. Hoje as posições se inverteram, mas Yiwen continua apostando nos BRICs (grupo de países formado por Brasil, Rússia, Índia e China). Sobre a relação comercial do seu país de origem com o mercado brasileiro, o professor não tem dúvidas: o Brasil fica no prejuízo.

“O contrato assinado entre o Brasil e a China de comércio não está equilibrado, a China está ganhando mais do que o Brasil. Isso ocorre porque os produtos que o Brasil exporta são commodities, vegetais, ferro. O Brasil está exportando os produtos que não têm muito valor de mercado”, analisa.

Acompanhe o 3 por 4 com o professor Li Yiwen:

Qual a visão que o senhor traz da China sobre o Brasil?

A China tem uma boa visão do Brasil. Esse é um grande país. Muito famoso por suas características. Esse é um país muito amigo da China. Desde criança eu já ouvia falar do Brasil em muitos aspectos.

Quais os aspectos que o senhor realçaria?

Principalmente, o futebol é de onde vem a fama do Brasil. Quando eu era criança conheci o rei do futebol, Pelé, e é daí que vem meu interesse pelo Brasil. Além dele (do futebol), o Brasil vem se destacando. É um país democrático onde a economia vem se desenvolvendo muito desde os anos 90 e isso chama muito a atenção de quem está fora (do país). Brasil era muito rico quando a China ainda era muito pobre, isso antes dos anos 70. Desde esse tempo muitos chineses admiram muito o Brasil, inclusive por esse ser um país democrático. Muitos professores, ainda na escola, eles já mostram interesse por estudar a diplomacia brasileira. E a partir daí fazem a relação com a diplomacia chinesa. Brasil não tem nenhum inimigo no mundo, só amigos. Isso chama muito a atenção.Antes eu sabia desse fato, mas depois desta visita (ele esteve em Natal, na semana passada) agora eu passei a compreender mais. O brasileiro é muito cuidadoso, educado, modesto, respeitosos, tem consideração pelos outros povos. Com isso, eu agora entendo porque o Brasil não tem inimigo no resto do mundo. Outro aspecto a ser considerado é a economia. O Brasil e a China tem uma relação muito próxima mesmo com este país. E isso é um fato real. China e Brasil tem uma cooperação amigável. E digo isso no aspecto literal mesmo, os dois países têm uma relação de amizade em todos os sentidos, em todos os setores. Veja que somos membros do BRICS (grupo formado por Brasil, Rússia, Índia, China).

O senhor disse que a economia brasileira era muito forte, ainda quando a China era “pobre”. Mas hoje o momento da China na economia é muito superior ao Brasil?

É verdade. Não é surpresa isso ocorrer pela situação que foi feita na relação entre o Brasil e China. Tenho consciência que depois dos anos 90 a China, de fato, ultrapassou a economia brasileira. Acredito que a China trabalhou nesta relação com a industrialização. A China aprendeu muito com países muito desenvolvidos como os Estados Unidos e o Japão e tem trabalhado da mesma forma que eles (os Estados Unidos e o Japão). Esse crescimento se deve a industrialização. A China tem empregado muitos esforços nesse sentido e é isso que está contando decisivamente.

E o perfil do trabalhador chinês? Em que contribui para esse crescimento a qual o senhor fala?

Nos anos 80 e 90 os trabalhadores chineses ficaram conhecidos por ser uma mão de obra muito, muito barata. Eram trabalhadores que atuavam de forma muito árdua e recebiam salários muito baixos. Foi a partir disso que muitas empresas estrangeiras decidiram se mudar para China e contar com essa mão de obra. Além do salário baixo, o trabalho era muito duro.

Como se encontra hoje a China com relação à qualificação da mão-de-obra?

Houve uma mudança. A realidade foi alterada. Hoje em dia os trabalhadores estão envelhecendo, estão se qualificando e os salários já não são tão baixo como era antigamente. Algumas empresas, que olhavam só para o salário barato do trabalhador, estão deixando a China.

Como o senhor visualiza esse cenário a curto prazo, com essas empresas deixando a China?

Eu vejo o futuro como positivo. As empresas não têm mais essa mão de obra de baixo custo, mas há uma série de vantagens. Por isso mesmo muitas grandes empresas multinacionais têm mudado sua central (matriz) para a China.

Esse crescimento econômico da China em que tem reflexo do sistema político adotado na China?

Essa é uma pergunta muito importante. Com o crescimento da economia os políticos estão se tornando mais livres e abertos. Agora estamos caminhando para democracia.

Mas o senhor acredita na democracia chinesa a curto prazo?

Veja que agora a China está passando por uma grande transformação. A economia de mercado, para o crescimento do mercado é preciso uma liberação desses governos, precisa de uma mudança. A ideia de um futuro democrático e mais livre na China não pode ser mais mudada diante desse quadro de crescimento. O caminho da China, querendo ou não, vai ser a democracia. Passo a passo estamos construindo uma democracia. Isso vai ocorrer gradualmente.

Mas essa mudança que o senhor acredita (com a democracia na China) será a custa de uma revolução da população? Há esse clima?
Não. Nunca. Está ocorrendo agora uma reforma política na China. A economia está se transformando de pouco aberta para muito aberta. O crescimento da economia leva a essa grande abertura das portas. É uma iniciativa do partido chinês, desse novo presidente, que está com uma mente, um pensamento muito diferente dos demais. Por isso podemos apostar nessa transformação.

Em que a China tem a aprender com o Brasil e o que o Brasil tem a aprender mais com a China?

O primeiro que deve ser observado é a relação econômica. O contrato assinado entre o Brasil e a China de comércio não está equilibrado, a China está ganhando mais do que o Brasil. Isso ocorre porque os produtos que o Brasil exporta são commodities, vegetais, ferro. O Brasil está exportando os produtos que não têm muito valor de mercado e está importando da China produtos com altíssimo valor, como produtos químicos, equipamentos, material de infraestrutura, industrializados. Os produtos que o Brasil exporta para a China são todos recursos naturais. Os (produtos) que vêm da China são todos manufaturados. Não há equilíbrio em um acordo desse.

De quem depende pôr o equilíbrio nesse acordo? Quem é o responsável?

O Brasil deveria se dispor  a exportar produtos de maior valor para a China. Além dos que já são exportados. O Brasil deveria se aproveitar disso até porque a China não tem mais recursos naturais. A China não tem outra escolha a não ser vender esse tipo de produto para o Brasil. Mas ele (o Brasil) tem muito mais escolhas.

A China vai dominar o mundo?

Em que?

Na economia?

Dominar o mundo não. Mas a China vai se tornar o maior líder econômico do mundo. Em uma década isso vai ocorrer.

O senhor credita essa perspectiva de dominação a que?

O fator mais importante que pode mudar tudo é o dinheiro. O dinheiro decide.

Onde se enquadra os Estados Unidos nesse cenário que o senhor traça de crescimento chinês?

Estou certo que em 10 anos a China vai conseguir superar os Estados Unidos.

Onde os Estados Unidos estão errando que levará a ser superado pela China?

Não há erro. Os Estados Unidos não estão errados, é a China que está fazendo o certo. Todo esse crescimento da economia chinesa vai depender das reformas que estão ocorrendo na  China. Sempre (a China) está sofrendo reformas e são elas (as reformas) são o principal motor para as mudanças, para a força na economia. Todas as reformas vão ocorrer agora, a política, econômica, social.