Brasil perde 1.840 vidas para a covid

Publicação: 2021-03-04 00:00:00
A quantidade de mortes pela covid-19 no Brasil nas últimas 24 horas chegou a 1.840, novo recorde da pandemia no País, de acordo com dados reunidos pelo consórcio de veículos de imprensa. O número põe o Brasil perto de assumir a liderança nos registros diários de óbitos em todo o mundo, só atrás dos Estados Unidos, que têm observado queda na incidência da doença nas últimas semanas. 

Créditos: TARLA WOLSKI/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDOCom o aumento da procura por internações em UTIs, hospitais reforçam o estoque de cilindros de oxigênioCom o aumento da procura por internações em UTIs, hospitais reforçam o estoque de cilindros de oxigênio

Os dados do consórcio, composto por Estadão, G1, O Globo, Extra, Folha e UOL, são coletados junto às secretarias estaduais de saúde. Ontem, os registros mostraram 367 óbitos no Estado de São Paulo, 227 em Minas Gerais, 186 no Rio e 179 no Rio Grande do Sul, que lideram as estatísticas absolutas. No cômputo geral, o País já se aproxima das 260 mil mortes, tendo hoje 259.402 óbitos confirmados pela doença. 

A média móvel de mortes ficou em 1.332, dado que representa uma média dos últimos sete dias. Na prática, isso significa dizer que 9,3 mil pessoas morreram na última semana. O Brasil vive o seu pior momento da pandemia com avanço nos casos, internações e óbitos pelo novo coronavírus. Para a Fiocruz, a situação é “alarmante”. Dezoito Estados e o Distrito Federal têm taxa de ocupação de leitos de UTI covid acima dos 80%.

O recrudescimento do cenário coloca o País perto de assumir o protagonismo mundial em relação aos registros diários de mortes, posto historicamente ocupado pelos Estados Unidos. Com a ampla vacinação que já chegou a 78 milhões de doses aplicadas em americanos, o país agora vê queda nos índices, ainda que elevados na comparação mundial. As fontes diferem sobre o patamar diário de mortes, mas se assemelham ao mostrar registro abaixo da casa das 2 mil vítimas. De acordo com a Universidade Johns Hopkins, os Estados Unidos registraram nesta terça-feira, 2, 1.819 mortes, número que na conta do jornal The New York Times é de 1.306 e do The Washington Post, 1.742. O Post aponta 2.321 mortes por covid-19 nos Estados Unidos ontem. Dessa forma, o Brasil ainda ocupa a segunda posição no ranking, mas as estatísticas indicam que os registros diários brasileiros podem em breve passar a serem os mais elevados em caráter absoluto do mundo. No total, há mais vítimas americanas: 518,7 mil.

Restrições
Os dados do consórcio de imprensa mostram que o País tem um total de 10.722.221 casos confirmados da doença desde o início da pandemia. Nas últimas 24 horas, a esse total foi somado 74.376 testes positivos. 

Segundo o ministério da Saúde, 9.527.173 pessoas se recuperaram da covid-19 e há outras 862.392 em acompanhamento. Na conta do ministério, que difere do consórcio em razão do horário de coleta, o País soma 10.646.926 casos, sendo 59,9 mil novos no último dia, e 257.361 óbitos, sendo 1.641 nas últimas 24 horas. 

O avanço da doença tem feito diferentes Estados adotarem mais restrições para tentar frear a propagação do vírus. Em São Paulo, o governo anunciou a adoção da bandeira vermelha a partir deste sábado, 6, com fechamento de serviços e atividades não essenciais. Entenda aqui o que poderá funcionar ao longo das próximas duas semanas.

O Portal do Estadão conta histórias de pessoas que têm visto de perto o pior momento da pandemia de covid-19 no Brasil. Os relatos dimensionam o drama por trás dos recordes consecutivos ao longo das últimas semanas. Mesmo com o aprofundamento da crise, o presidente Jair Bolsonaro disse nesta quarta-feira que a imprensa está criando “pânico” na população e se queixou de medidas de restrição e lockdown adotadas para conter a disseminação do vírus. "Para a mídia, o vírus sou eu”, disse Bolsonaro, em conversa com apoiadores, no Palácio da Alvorada. “Criaram o pânico. O problema está aí, lamentamos, mas você não pode viver em pânico. Que nem a política, de novo, do ‘Fique em Casa’. O pessoal vai morrer de fome, de depressão?”, perguntou.

Consórcio 
O balanço de óbitos e casos é resultado da parceria entre os seis meios de comunicação que passaram a trabalhar, desde o dia 8 de junho, de forma colaborativa para reunir as informações necessárias nos 26 Estados e no Distrito Federal. A iniciativa inédita é uma resposta à decisão do governo Bolsonaro de restringir o acesso a dados sobre a pandemia, mas foi mantida após os registros governamentais continuarem a ser divulgados.

Estudo comprovaque há infecção simultânea 
Cientistas brasileiros atestaram a coinfecção por duas linhagens diferentes do Sars-CoV-2 em dois pacientes de covid-19. Foi a primeira vez que especialistas comprovaram a infecção simultânea por duas variantes do novo coronavírus. O grande risco da coinfecção é a recombinação dos genomas das linhagens presentes no organismo. O processo poderia gerar novas variantes. Elas poderiam ser mais agressivas ou transmissíveis.

Quanto mais o vírus circula de forma descontrolada, como hoje no Brasil, maior a chance da coinfecção e do surgimento de novas variantes. O perigo é apontado em novo estudo, publicado na semana passada na revista Virus Research. É assinado por pesquisadores do Laboratório de Microbiologia Molecular da Universidade Feevale, em Novo Hamburgo, Rio Grande do Sul, e por especialistas em biotecnologia do Laboratório Nacional de Computação Científica, em Petrópolis, no Rio.

“Um achado robusto como o nosso é inédito no mundo, mas já havia a desconfiança de que isso já teria ocorrido”, explicou o virologista Fernando Spilki, da Feevale, um dos autores do trabalho. “Até porque esse tipo de fenômeno é esperado no caso dos coronavírus, está na base da criação de novas variantes na natureza (além de mutações).”

É provável, segundo Spilki, que uma coinfecção e uma recombinação de genomas em algum animal tenham levado ao surgimento do SarsCoV-2. Mutações durante a própria replicação do vírus podem também gerar novos vírus. Mas esse processo seria mais raro. 

“Na primeira onda da pandemia, a gente vinha vendo uma continuidade na evolução do genoma do vírus em um determinado ritmo, bem mais lento do que observamos na segunda onda”, explica o virologista. “Na segunda onda, até mesmo devido a um controle muito flácido, houve expansão muito grande na diversidade do vírus. As mutações se dão ao acaso, mas quanto maior o número de hospedeiros, maior o número de mutações que acabam se estabelecendo ao longo do tempo na forma de variantes e, posteriormente, linhagens", diz Spilki. 

Para chegar ao resultado publicado, os pesquisadores brasileiros fizeram o sequenciamento genético dos vírus presentes em 92 pacientes de covid-19. Em dois deles, duas mulheres na faixa dos 30 anos, foram encontradas duas linhagens diferentes, presentes de forma simultânea. Em um dos casos, havia duas variantes que circulam no Brasil desde o começo da pandemia. No segundo, no entanto, além de uma forma mais antiga do vírus, aparece também a P2. Ela foi identificada pela primeira vez no Rio. É potencialmente mais transmissível.

As duas mulheres tiveram episódios leves de covid-19. Não chegaram a ser internadas. Segundo Spilki, o maior risco da coinfecção não é uma apresentação mais grave da doença. É a recombinação do genoma das diferentes linhagens.

“Temos duas variantes de alta transmissibilidade circulando, a P2 e a britânica. Temos também, ao que tudo indica, a variante P1 que provocaria casos mais agressivos”, explica Spilki. “Vamos imaginar que, com a circulação desenfreada do vírus, essas duas variantes se encontrem no mesmo indivíduo.

Fortaleza volta a adotar Lockdown 
O governador do Ceará, Camilo Santana (PT), anunciou medidas mais restritivas e fechamento de atividades não essenciais em Fortaleza. Outros municípios com situação grave causada pela Covid-19 receberam recomendação de adotar medidas similares. O prefeito da capital, Sarto Nogueira (PDT), esteve presente na live na qual o governador anunciou as novas medidas restritivas.

O governador comentou que o decreto detalhando as novas medidas deve ser publicado hoje. "Diante da gravidade da pandemia, que chega a um dos momentos mais críticos, anunciamos medidas ainda mais rigorosas de isolamento social para as próximas duas semanas, com um novo Decreto de Isolamento Social Rígido em Fortaleza, e recomendação para os municípios com situação mais grave, quando funcionarão apenas atividades econômicas consideradas essenciais", publicou Camilo.

Camilo também comentou sobre a evolução da Covid-19 no Ceará. "O crescimento de casos têm ocorrido numa velocidade muito grande, acima do processo de abertura de novos leitos, tanto da rede pública quanto na rede privada. Nossas equipes continuam empenhadas em abrir mais leitos, além dos mais de 3 mil já abertos, e lutando pela aquisicão de mais vacinas para acelerar o processo de imunização da nossa população", complementou Camilo Santa.

"Repito: a situação é grave e necessita do apoio de todos para que possamos superar esse momento, protegendo os cearenses e salvando vidas”, acrescentou. 

São Paulo entra em uma fase mais restrita 
Com o agravamento da pandemia da covid-19, todas as regiões do Estado entrarão na fase vermelha do Plano São Paulo da zero hora deste sábado, 6, até 19 de março, segundo adiantou o Estadão. A decisão foi anunciada ontem pelo governador de SP, João Doria (PSDB), em coletiva de imprensa no Palácio dos Bandeirantes. 

A classificação é a mais restritiva do plano de flexibilização da quarentena, pois veta a abertura de restaurantes, academias e outros estabelecimentos considerados não essenciais. As escolas seguirão abertas, como o Estadão adiantou nesta terça-feira. 

A fase vermelha autoriza apenas o funcionamento de setores da saúde, transporte, imprensa, estabelecimentos como padarias, mercados e farmácias, além de escolas e atividades religiosas, que foram incluídas na lista de serviços essenciais por meio de decretos estaduais.

Sendo assim, parques, academias, bares, museus e cinemas, por exemplo, deverão permanecer fechados.

“Isso é uma tragédia, é uma tragédia que pode ser ainda pior se não tomarmos medidas”, destacou Doria. Segundo ele, o Estado recebe um pedido de internação a cada dois minutos em hospitais públicos ou privados por causa da doença. “Esse é o termômetro da linha de frente, dessa tragédia que estamos vivendo”, disse. 

“Temos a tristeza de reconhecer a situação dificílima que estamos vivendo em São Paulo, e não é diferente do (restante do) País”, acrescentou João Doria ao destacar o aumento de óbitos, internações e casos do novo coronavírus. Na terça-feira, 2, o Brasil bateu o recorde de registros de mortes pela doença em um único dia. “As próximas duas semanas serão as duas piores da pandemia no Brasil", declarou.

Segundo Patricia Ellen, secretária estadual de Desenvolvimento Econômico, a mudança de todo Estado para a fase vermelha passará a valer em 48 horas para que os estabelecimentos possam se planejar. "Para que todos consigam se organizar”, justificou.

Até sábado, seguirá valendo a reclassificação anterior do Plano São Paulo, em que exclusivamente as regiões de Barretos, Araraquara/São Carlos, Bauru, Ribeirão Preto, Marília e Presidente Prudente estão na fase vermelha. As demais regiões têm classificações amarela ou laranja (na qual está a Grande São Paulo).

Além disso, o horário do “toque de restrição” teve o início adiantado das 23 horas para as 20 horas, estendendo-se até as 5 horas diariamente. A medida consiste especialmente em uma força-tarefa para evitar e autuar aglomerações, lançada na semana passada.

Como o 'Estadão' adiantou, as escolas públicas e particulares seguirão abertas, com foco nos alunos mais vulneráveis, com deficiências, dificuldades de aprendizagem e crianças menores, cujo ensino remoto não tem efetividade. Todas podem continuar abertas com 35% de presença e a recomendação é a de que as famílias decidam se querem ou não enviar seus filhos. No entanto, as escolas particulares que não quiserem oferecer o presencial nessas duas semanas podem fechar.

Segundo o secretário de educação, Rossieli Soares, deve haver prioridade para crianças da educação infantil, de 4 e 5 anos, e dos primeiros anos do fundamental, que passam pela alfabetização. Mas alunos de qualquer idade podem frequentar as escolas, se tiverem necessidade, nesse período. "Quem tiver condições de fazer o ensino a distância, permaneça a distância nessas duas semanas", disse.

A Prefeitura de São Paulo também divulgou nota informando que as escolas na capital permanecem abertas, com 35% de ocupação. Segundo dados do governo estadual, São Paulo tem 2.068.616 casos e 60.381 óbitos por covid-19. Na terça-feira, 2, foram confirmadas 468 mortes causadas pela doença, o maior registro feito no Estado desde o início da pandemia.

A ocupação de UTI é de 75,3%, média que é 76,7% na Grande São Paulo. Em leitos de enfermaria, a taxa é de 56,8% em todo o Estado, enquanto é de 63,5% na região metropolitana da capital. Ao todo, 7.415 pacientes estão hospitalizados com suspeita ou confirmação da doença em terapia intensiva, o que é 18,6% maior do que o pico do ano passado, que era de 6.250 internados. Além disso, 8.968 pessoas estão em leitos de enfermaria.