Brasileiro não tem educação financeira, diz especialista

Publicação: 2021-01-23 10:59:00
Ricardo Araújo
Editor

Todo início de ano, a ladainha é a mesma: orçamento apertado, ressaca dos eventos e compras de final de ano, e impostos a serem pagos a partir do primeiro trimestre do ano novo. Equilibrar contas e manter um orçamento saudável, sem risos de inadimplência, é uma tarefa quase hercúlea para a maioria dos brasileiros. Tabular ganhos, despesas fixas e sazonais ainda é uma dificuldade para a população brasileira. Falta educação financeira. Na entrevista a seguir, a educadora financeira Larissa Brioso aborda esse e outros pontos que podem reduzir os impactos de um cotidiano financeiro instável e dá dicas de como se livrar do endividamento.
Créditos: DivulgaçãoLarissa Brioso, educadora financeiraLarissa Brioso, educadora financeira

A Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic) de dezembro apontou que 66,3% dos consumidores estão endividados. Findar o ano com acúmulo de dívidas é um problema para qualquer cidadão e piora quando envolve a família. Por quais motivos temos tantas famílias no Brasil endividadas?

Dentre os principais motivos que contribuem para o endividamento estão: a falta de educação financeira, a ausência do controle de ganhos e gastos, e, também, o desemprego, entre outros motivos. No primeiro caso, sabemos que, infelizmente, a educação financeira não está presente no crescimento e desenvolvimento de milhares de pessoas no país. E ainda, falar sobre o dinheiro é considerado um tabu por aqueles que não reconhecem a importância desse meio de troca no nosso dia a dia. Assim sendo, uma vez que assuntos relacionados às finanças pessoais não são abordados como deveriam, quando os mais leigos no assunto precisam fazer escolhas financeiras, sentem dificuldades e tomam decisões prejudiciais para o seu bolso. Tendo em vista as consequências desse primeiro ponto, controlar os ganhos e gastos se torna ainda mais difícil. Mesmo que existam diversas ferramentas de gestão financeira, como aplicativos e planilhas, é fundamental que as pessoas entendam de antemão a razão principal pela qual deveriam gerir melhor o que entra e sai da sua conta. Ademais, se até uma pessoa que está acostumada a fazer escolhas financeiras mais inteligentes pode acabar se endividando quando está desempregada, um trabalhador que não está familiarizado com o planejamento e a poupança para imprevistos, pode acabar se endividando também.

Como é possível distinguir as despesas pessoais das familiares e de que maneira trabalhar com cada uma individualmente?

Todos nós temos nossas individualidades e necessidades inerentes a elas. Logo, além de entender o que outro ou o grupo familiar precisa, precisamos também conhecer nossos objetivos e metas pessoais. Ou seja, no orçamento pessoal estamos falando apenas de você. Com base nisso, é necessário acompanhar quanto gastará para suprir suas necessidades. Alguns gastos mais individuais são: academia; algum financiamento; lazer; roupas, sapatos, bens pessoais e etc. Agora, quando falamos de despesas familiares, as mais comuns são: energia, água, aluguel, plano de saúde, compras do mês, colégio dos filhos e etc. Após essa definição, é recomendado ter em mente ou registrado o valor estimado com cada despesa específica, o que irá contribuir para um orçamento mais assertivo. Se você não divide as despesas com outra pessoa, o seu orçamento (teto de gastos) não deve ser superior à sua renda. E, caso divida as contas, o orçamento familiar deve ser dividido entre os contribuintes. Vale ressaltar que, para que o controle de recursos funcione, é essencial manter uma boa comunicação e clareza com todos os envolvidos.

De que maneira é possível se livrar das dívidas e viver uma vida financeira equilibrada?

Para montar um plano de ação de saída das dívidas é preciso, primeiramente, realizar um diagnóstico financeiro. Esse diagnóstico consiste em identificar qual a sua atual situação financeira. Por exemplo, pouco endividado, muito endividado, e, mais do que isso, qual o seu poder financeiro para mudar essa situação. Utilizar uma ferramenta de controle financeiro é crucial para que você consiga saber quanto ganha e com o que você gasta o seu dinheiro. Após isso, o indicado é que monte uma planilha com todas as dívidas e credores, em ordem decrescente da taxa de juros, para que então consiga visualizar quais deve priorizar o pagamento. Feito isso, elaborar um bom planejamento financeiro e colocar em prática dicas de como economizar dinheiro fará com que conquiste o objetivo de quitar débitos e ter uma vida financeira mais saudável mais facilmente.

O brasileiro, em geral, tem a educação necessária para isso? A educação financeira deve ser ensinada nas escolas desde cedo? Por quê?

Levando em consideração a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic) de dezembro, a qual apontou que 66,3% dos consumidores estão endividados, e outras que retratam problemas financeiros das famílias brasileiras, podemos dizer que não. O brasileiro não tem educação financeira para isso. Ainda. Por mais que temas relacionados à educação financeira tenham crescido nos últimos anos, em especial no cenário de pandemia, onde milhares de pessoas lidam com incertezas financeiras, parte da população ainda desconhece ou ainda não entende a necessidade de falar ou de buscar informações sobre o assunto. E sim, a educação financeira deveria ser ensinada desde cedo. No entanto, não somente nas escolas, mas também no ambiente familiar. Até porque, a forma como os pais falam sobre o dinheiro com os seus filhos interfere na maneira como eles pensam sobre o dinheiro. Ou seja, a mentalidade financeira que desenvolvemos depende também do ambiente onde estamos inseridos. Uma vez que a inteligência financeira é despertada, se torna muito mais fácil encontrarmos pessoas mais prósperas, mais saudáveis financeiramente e, inclusive, mais felizes. Afinal, a forma como lidamos com o dinheiro afeta o nosso bem-estar, além da economia como um todo.

Quais são os riscos da utilização indiscriminada do cartão de crédito nas compras de bens duráveis e de alimentos, por exemplo?

O cartão de crédito é um dos principais meios de pagamento utilizados por nós brasileiros. No entanto, assim como essa ferramenta apresenta diversas vantagens, como a facilidade de pagamento e segurança, a mesma possui desvantagens quando utilizada de maneira impensada. A ilusão do crédito “fácil” e da possibilidade de parcelamento faz com que muitas pessoas acabem comprando mais do que deveriam, por exemplo. Não bastasse isso, elas ainda podem se iludir com empréstimos disponibilizados pelas instituições e o mais “escondido” relacionado ao pagamento mínimo da fatura. Sendo as taxas de juros do cartão uma das maiores do mundo, utilizar essa ferramenta de forma impensada pode deixar suas contas no vermelho e seu nome sujo. Por esse motivo, entre outros, é necessário se ater tanto às vantagens quanto às desvantagens dessa modalidade, planejar-se financeiramente, evitar compras por impulso e manter o controle financeiro.

Recorrer a um empréstimo para quitar dívidas é uma saída inteligente ou arriscada? Como avaliar essa problemática para se chegar a uma decisão?

Depende do caso. Mas, ao contrário do que alguns pensam, recorrer a um empréstimo pode ser uma solução inteligente em determinadas situações. Suponhamos que uma pessoa fictícia chamada Jéssica acabou entrando no rotativo de um cartão de crédito com uma taxa de juros de 291,11% ao ano (a.a). Jéssica não possui uma boa educação financeira, não entende como funciona o cartão de crédito e acabou deixando acumular essa dívida por um bom tempo. Quando se deu conta da situação e percebeu que as parcelas eram bastante superiores ao que ela de fato poderia pagar, devido à indicação de um amigo, Jéssica começou a buscar por empréstimos com uma menor taxa de juros. Depois de várias pesquisas, Jéssica viu oportunidade em um empréstimo com uma taxa de juros de 44,25% ao ano. Então, solicitou o empréstimo, quitou a dívida do cartão e se planejou para pagar parcelas do novo empréstimo que cabem no seu bolso. Esse é um exemplo, mesmo que superficial, de uma situação em que trocar uma dívida muito ruim por uma um pouco melhor pode ser válida. De lição, é importante sempre estarmos atentos às taxas de juros e também sempre calcular o valor do dinheiro no tempo antes de tomarmos uma decisão. Existem calculadoras de juros compostos e outras mais específicas de empréstimos para isso - olhe sempre o Custo Efetivo Total da dívida!

Quando endividado, nem sempre o cidadão enxerga saídas e possibilidades de traçar metas e objetivos? Há uma solução para essa cegueira momentânea? Qual e como aplicá-la?

Quando se está endividado, existem, basicamente, duas soluções para pagar as dívidas. Essas soluções consistem em, nada mais, nada menos, do que economizar dinheiro e/ou ganhar mais. Desconsiderando aquelas pessoas que possuem dívidas, uma renda legal, mas não se planejam para pagar, aquelas que estão com as contas mais apertadas precisam entender que é preciso abdicar de certos desejos e até objetivos pelo tempo necessário para quitar os débitos. Mesmo que nem sempre seja fácil visualizar a saída, saiba que é possível. Por meio de um bom controle e planejamento financeiro é possível realizar os seus objetivos. Se você já vive só com o básico e necessário, a opção de aumentar sua renda deve ser colocada em prática. Atualmente, existem diversas maneiras de rentabilizar suas habilidades, inclusive de forma remota. Então, conheça seus gostos e preferências, e seja criativo(a) na hora de tornar isso rentável. Agora, se identificar que está gastando com coisas desnecessárias, esse é um bom momento de aprender a economizar dinheiro.