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Publicado: 00:00:00 - 08/05/2022 Atualizado: 16:08:47 - 07/05/2022
Dácio Galvão
[Mestre em Literatura Comparada, doutor em Literatura e Memória Cultural/UFRN e secretário de Cultura de Natal ]

Boa notícia. Um super brinde à erudição, tradução, música...  A curtição. Na verdade, a boa foi o lançamento de Entredados, um Livro-CD. Se compõe de clássicos da literatura que optaram por linguagem comprometida com linguagens. Craques reunidos por Augusto de Campos que como poeta faturou o Prêmio Pablo Neruda, em 2016 com a Grã-Cruz da Ordem do Mérito Cultural e em 2017 o Janus Pannonius Grand Prize for Poetry. O equivalente ao Prêmio Nobel de poesia.

O timaço convocado para a execução do livro-disco traz textos de Gregório de Matos, John Cage, Maiakóvski, Lewis Carrol, James Joyce, Mallarmé, poema chinês de antologia realizada por Confúcio. Também as vozes de Haroldo de Campos e Décio Pignatari estão presentes na oralização do Lance de Dados Jamais Abolirá o Acaso, de Stephane.

Desde o lançamento do ‘rei menos o reino’ de 1951, que AC se mantêm fiel a sua trajetória de artista multimidia respaldado em conceitos metodológicos da inventividade, da tradução-arte, do paideuma sustentado por Ezra Pound. 

No recentíssimo lançado Livro-CD Entredados, edição física, não abriu concessão e não deixou por menos. Mobilizou o músico Cid Campos (com quem havia assinado parcerias nos CD’s Emily, Poesia é Risco e Ouvindo Oswald) e se dividiu em mais uma empreitada de experimentos sonoros. Na concepção do design gráfico trouxe o aporte do artista visual André Vallias, produtor de mídia interativa e experimental. E fechou com a resenha do radical e principal cineasta brasileiro do gênero found footage, ou trecho de filme encontrado, Carlos Adriano. Organizador do livro, Julio Bressane: CinePoética, Adriano é figura carimbada em festivais não comerciais em Nova York, Berlim, Paris... É dele a direção do marco zero do gênero, o filme Remanescências, de 1997.

Impressões de signos em rotação logados na trajetória percorrida nesses mais de 70 anos de atividade artística-literária atestam a coerência do ativista concretista. Original cultor desde sempre de uma poética ‘verbivocovisual’ ou da poética que materializa a simultaneidade da poesia/música/imagem, Campos não foge a luta e redimensiona sua concepção clássica vaticinada no antológico livro de ensaios Verso Reverso Controverso, quando avisa e afirma: ‘...defenderei até a morte o novo por causa do antigo e até a vida o antigo por causa do novo. O antigo que foi novo é tão novo como o mais novo.’ 

Assim pensando foi que traduziu o lirismo medieval do trovador Arnault Daniel autor do neologismo provençal -noigandres-, e parte da literatura amorosa do metafísico pastor anglicano inglês John Donne. Na tradução criativa que fez do poema Elegia, resultou na musicalização por Péricles Cavalcanti. Caetano Veloso também gravou a canção.

Entredados é mais um livro-arte com o esmero e potência de um Poemóbiles, de uma Caixa Preta (com Julio Plaza) do ponto de vista da voltagem estética de um livro-objeto. Obra de arte assinada por quem sempre apostou numa linha de coerência fora do cânone estabelecido. Nesses tempos... Como vale celebrar!

Os artigos publicados com assinatura não traduzem, necessariamente, a opinião da TRIBUNA DO NORTE, sendo de responsabilidade total do autor.

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