Brindando a cachaça

Publicação: 2020-09-20 00:00:00
Woden Madruga 
woden@tribunadonorte.com.br

Domingo que passou, 13, aparece no calendário verde amarelo como o Dia Nacional da Cachaça.  Entretanto, não vi registros na mídia de celebrações pelos nossos terreiros, muito menos nas ditas redes sociais que preferiram dar prioridade às pré-convenções partidárias (no rastro das eleições municipais) que sempre foram comemoradas, tempos atrás, com muita cachaça e foguetão: dois produtos muito do gosto do eleitor do interior. Mas, estando em Queimadas de Baixo, brindei o Dia da Cachaça com todas as honras que ela, a “marvada”, merece. E o fiz da melhor maneira, com o melhor sabor, a melhor parede: caju. Casamento perfeito  consagrado na toada de Veríssimo de Melo e Hianto de Almeida: “Caju nasceu pra cachaça / Pirão pro peixe nasceu/ Mulher nasceu para o amor/ Do amor também nasci eu”, gravado por Caubi Peixoto nos idos de 1958.

 Nas Queimadas o domingo sempre é dia de saborear uma cachacinha, mesa posta no alpendre olhando para a Serra de Joana Gomes, cumprindo o ensinamento do Mestre Luís da Câmara Cascudo estampado no seu livro “Prelúdio da Cachaça” (Etnografia, História e Sociologia da Aguardente no Brasil):
 “Atenda-se que o brasileiro é devoto da cachaça, mas não é ‘cachaceiro’. Augusto de Saint-Hilaire, de junho de 1816 a agosto de 1822, percorrendo o Brasil do sul, fixado em livros incomparáveis, informava em 1819 que ‘Cachaça é a aguardente do país’. Apesar do registro vulgarizador, o grande botânico não hesitou em afirmar: ‘Não se deva supor, todavia, que o gosto desses homens pela cachaça os conduza frequentemente à embriaguez. Apresso-me a dizer, em louvor não só dos goianos, como ainda dos habitantes do Brasil em geral, que não me lembro de ter visto, no decurso das minhas viagens, um único homem embriagado”.

Adiante, Cascudo ressalta:
“Mais vivo é o depoimento de George Gardner, de julho de 1836 a junho de 1841 no Brasil, colecionando plantas para os museus da Inglaterra. Médico, Gardner ficou dois anos no Rio de Janeiro, passando à Bahia, Recife, Ceará, alcançando o Piauí, Goiás, Minas-Gerais, visitando regiões inexploradas, motivando o inimitável “Travels In The Interior Of Brazil”, London, 1846. Declara: -“ Vindo do Brasil desembarquei num domingo de manhã em Liverpool, e vi nesse dia mais ébrios, no meio das ruas dessa cidade, de que vi, entre os brasileiros, brancos ou mestiços, durante toda a minha estada em seu país, que foi de cinco anos”.

A primeira edição de “Prelúdio da Cachaça”, publicada em 1968 pelo Instituto do Açúcar e do Álcool (Coleção Canavieira, n.1), traz,  na última página,  uma mini reprodução do rótulo da aguardente potiguar “Olho D’Água”, fabricada em São José de Mipibu por João Berkmans Dantas.

Cachaça para gringos
Além de ser a segunda bebida da preferência do gosto dos brasileiros (o primeiro lugar é a cerveja, o terceiro o vinho), a cachaça é exportada para mais de 70 países. Os principais importadores são os Estados Unidos, Alemanha, Portugal, França e Itália. Por conta da nossa cachaça os gringos adoram (lambem os beiços, sim), veneram de verdade, a incomparável caipirinha brasileira, lá nos terreiros deles ou estando eles por aqui. 

Este gosto dos gringos vem de muito tempo, derna que descobriram a cachaça.  Coisa de 70 anos atrás o grande Stanislaw Ponte Preta (1923/1968), dos grandes nomes do jornalismo brasileiro, numa de suas crônicas incluídas no livro “Garoto Linha Dura”, ressalta o interesse de vários países de importar a cachaça brasileira.  O livro foi publicado em 1964 pela “Editora do Autor”, Rio de Janeiro, e é ilustrada por outro craque, o cartunista Jaguar que, por sua vez, é autor também de um clássico do gênero: “Confesso que bebi”, publicado em 2001 pela Record. 

O título da crônica de Stanislaw Ponte Preta (Sérgio Porto) é “A Cachaça é nossa”. Nela é citada também a nossa “Olho D’Água”.  Quero dividir o prazer dessa leitura (releitura) com você querido e paciente leitor (a), acompanhado de uma deliciosa cachacinha.  Transcrevo-a por inteiro começando pelo título:
A Cachaça é nossa
“- Está aqui no circunspecto matutino: “Em virtude do grande interesse que diversas firmas importadoras no exterior têm demonstrado através de cartas e solicitações, o Itamarati enviou para os escritórios do SEPRO, em Nova Iorque, Londres e Berna, amostras de aguardente brasileira, fabricada em vários estados e de várias marcas”.

- A gente lê uma coisa dessas e fica a imaginar a caa enjoada daquela turma do Itamarati, que só bebe champanha e uísque do bom, tendo eu elogiar a nossa proverbial cachaça, para os estrangeiros interessados nela. O sucesso da cangibirina no exterior é ponto pacífico. É só os gringos provarem o chamado capote-de-pobre para ficar freguês. Principalmente se for daquela pura que-só-alma-de-moça-donzela.

- Mas a notícia dá mais detalhes. Diz ainda: “Por outro lado, o Ministério das Relações Exteriores pediu às firmas exportadoras e fabricantes brasileiro, que estejam interessados, o envio de mostruários e preços de suas cachaças”. E então vem a ideia de traduzir o produto para o inglês, que é língua universal e vai ajudar a vender o produto.

- Estive aqui a relembrar algumas marcas de cachaça e, para ajudar a indústria nacional, tratei de fazer algumas traduções para colocarem nos rótulos das garrafas destinadas ao exterior. Por exemplo: “Eye of Water” (Ôlho d’água), “Crying at the slope”(Chora na Rampa), “Extra Grandmother” (Vovó Extra), “Big Shirimp”(Pitu), “Any One” (Qualquer uma), “Memories of One Nine Hundred Forty”(Recordações de 1940), “Old Monkey”(Macaco Velho), “Virgin’s Teardrop” (Lágrima de Virgem), “Be quiet Lion”(Sossega Leão), “Exhalation of the Panther”(Bafo da Onça), etc., etc.

- E puxa... será um bocado bacaninha ver os gringos tomando “track of lemon” (batida de limão). Não há brasileiro eu não se sinta orgulhoso ao ver um “lord” cheio de bacanidade num sofisticado clube londrino, pedindo ao garçom “aquele que matou o guarda”, com o maior sotaque britânico:
Please, waiter... give me that onde who kill the policeman!”
A charge Mestre Gaspar deu nota 11 (onze) para a charge do cartunista Brum publicada na edição da TN do dia 12, sábado. A bola da vez é o ministro do Meio Ambiente, com o nariz pegando fogo e dizendo que “A Amazônia não está queimando”.

Onze para Brum, zero para o ministro. A patota do Cova da Onça, toda de pé, com abanadores nãos mãos, aprovou as duas notas.

Na Academia Dácio Galvão já se manifestou: é candidato à vaga de Paulo Macedo na Academia Norte-Rio-Grandense de Letras, cadeira 10. A eleição ainda não tem data marcada.




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