'Buster Scruggs', um faroeste com a marca dos irmãos Coen

Publicação: 2019-01-09 00:00:00 | Comentários: 0
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Nas primeiras cenas, vemos e ouvimos o caubói que canta sua canção acompanhando-se ao violão, montado na sela do seu cavalo. O animal, aliás, trota no ritmo da música, o que dá mais graça à sequência. É o início de A Balada de Buster Scruggs e o personagem, interpretado por Tim Blake Nelson, dá título a essa série de seis histórias do Oeste, dirigidas pelos irmãos Ethan e Joel Coen.

Tim Blake Nelson interpreta o personagem central Buster Scruggs
Tim Blake Nelson interpreta o personagem central Buster Scruggs

Não se deve esperar dos brothers Coen um faroeste convencional. E, de fato, esta produção da Netflix é marcada não apenas pela originalidade de tratamento, mas por doses fartas de ironia, sarcasmo e humor negro. A Balada de Buster Scruggs é uma espécie de faroeste terminal, em que se adota a linguagem de um gênero para desconstruí-lo e também para renová-lo.

Nesta primeira história, temos a convenção do pistoleiro rápido no gatilho, mas levada ao paroxismo, quando não ao ridículo. A "persona" de Tim Blake Nelson contribui para dar essa impressão. Um ar meio de tonto, meio de esperto, roupa clara, chapelão branco, cavalo branco, violão a tiracolo e uma linguagem empolada, que parece mais escrita que falada. É um ás do gatilho, elimina inimigos com a facilidade de quem mata moscas e encontra saídas inovadoras para vencer adversários. Tudo inverossímil, claro, com aquele tipo de estilização de duelos de dar inveja a Tarantino. Mas o desfecho é inesperado.

As outras histórias vão ganhando tom progressivamente mais grave. Na segunda, James Franco faz um ladrão de bancos que se dá mal no assalto e acorda com a corda no pescoço, prestes a ser enforcado. Há um ataque de índios e ele acredita que será salvo. Mas as situações incontornáveis às vezes se repetem de maneira incômoda. Há graça no episódio, mas também outro tanto de melancolia no final. Na terceira, Liam Neeson faz um empresário de circo ambulante. Sua principal (e única) atração é um homem jovem, sem braços nem pernas, que ele um dia encontrou nas ruas de Londres e trouxe ao Novo Mundo, para exibi-lo como atração circense. O artista (Harry Melling) faz a apresentação dramática de peças literárias de Shakespeare, Shelley e até de Abraham Lincoln. Mas todo sucesso é passageiro e o circo precisa de novidade, que o empresário encontra numa galinha capaz de fazer cálculos aritméticos.

A história seguinte é a de um velho garimpeiro (Tom Waits) em busca obstinada de um veio de ouro. Num vale deslumbrante e pacífico, ele parece ter por companhia apenas um cervo e uma coruja. Não sabe que está sendo seguido por outro homem.

A quinta história é a mais triste. Uma garota, Alice (Zoe Kazan) parte com o irmão mais velho numa caravana rumo ao Oregon. Lá, em tese, ele encontrará negócios para fazer e ela, um noivo promissor. Mas as travessias de caravana são perigosas, em especial quando passam por territórios indígenas. Alice ficará só e sem esperanças, pelo menos até ser pedida em casamento por um dos guias da caravana, Billy Knapp (Bill Heck). O destino (outra vez) determina um final inesperado. A última é a mais alegórica. Cinco personagens se reúnem por acaso em uma diligência - há um sexto personagem, que viaja sobre o veículo, amarrado. Os passageiros são um inglês e um irlandês, que formam uma dupla; um francês, que só pensa no jogo, uma dama americana cheia de si, e um rude e falastrão caçador de peles. A graça da história está nos diálogos, cheios de alusões. O destino final deles todos tem a ver com o sexto passageiro, aquele que está no teto e não diz palavra.

Este último episódio, espécie de fecho simbólico do conjunto, evoca, sem dúvida, o conto de Guy de Maupassant, Bola de Sebo, que, por sua vez, encontra-se na origem de clássicos como No Tempo das Diligências, de John Ford, e Casanova e a Revolução, de Ettore Scola.

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