Câmara Cascudo: 120 anos de um provinciano incurável

Publicação: 2018-12-30 00:00:00 | Comentários: 0
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Cleonildo Mello
Repórter

Na Rua das Virgens, no bairro da Ribeira, em Natal, há exatos 120 anos, o casal Francisco Justino de Oliveira Cascudo e Ana Maria da Câmara Pimenta, assim como o Rio Grande do Norte, ganhava um filho ilustre. Numa sexta-feira, 30 de dezembro de 1898, às 17h30, nascia o folclorista, etnógrafo, antropólogo, historiador, jornalista, advogado e professor Luís da Câmara Cascudo. Reconhecido como o maior folclorista de todos os tempos, Câmara Cascudo buscou incessantemente mapear uma identidade cultural para o Brasil. No dia do seu aniversário, a obra de Cascudo fica para ser redescoberta - ou mesmo descoberta - pelo povo, que ele considerava a melhor coisa do país: “O melhor do Brasil é o brasileiro”.

Há muito mais que lendas e mitos na cultura popular que sempre fascinou Luís da Câmara Cascudo, esse potiguar autodenominado provinciano incurável. Contém também elementos capazes de presumir que o brasileiro é psicologicamente regional e fisiologicamente universal. “Em 1918 apaixonei-me pela cultura popular, vivendo-a, procurando-a, amando-a”, escreveu Cascudo, cuja fonte de inspiração para seus escritos de mais de 8 mil páginas  vinha dos aspectos da vida, dos causos e tipos humanos e da observação do cotidiano.
Câmara Cascudo, o maior folclorista de todos os tempos, buscou incessantemente mapear uma identidade cultural para o Brasil
Câmara Cascudo, o maior folclorista de todos os tempos, buscou incessantemente mapear uma identidade cultural para o Brasil

Após sua partida, em 1986, o folclorista deixou ao mundo um legado, que soma 234 publicações, entre elas mais de 150 livros, uma produção invejável e ampla sobre folclore, história, etnografia e crítica literária, fazendo desse trabalho autoral uma fonte fundamental para pensar o Brasil e os brasileiros.  “Cada livro melhor que o outro, demorando em alguns deles 50 anos para escrevê-los, sozinho, batendo à máquina, nenhuma ajuda de secretários ou auxiliares. Coisa alucinada. Certamente será lido com enorme interesse quando o mundo estiver lá pelos anos 3.500”, prevê o sociólogo e escritor Gilberto Felisberto Vasconcellos, escrevendo para o jornal Folha de São Paulo sobre o historiador, que considera o filósofo do povo brasileiro, não escolhido como tal pela burrice e perfídia que impera nas universidades desde 1930 a até agora.

Cascudo foi uma espécie de intérprete do Brasil e principalmente do Nordeste e do povo potiguar, porque buscou mapear a identidade do país a partir de sua cultura. As percepções contidas nesse vasto material, em especial a cultura regional potiguar e nordestina, até hoje ainda estão sendo analisadas e redescobertas.

Mesmo 32 anos após a morte, a obra de Cascudo continua atual, e é objeto de livros, análises e teses acadêmicas por todo o Brasil, assim como em outros países. Tudo o que foi estudado, analisado e problematizado até agora sobre as ideias desse ‘descobridor do folclore’ é irrisório diante do vasto universo intelectual desse potiguar. Carlos Drummond de Andrade chegou a classificar o Ludovicus – o primeiro nome de Cascudo, Luís, em latim - como "pessoa em dois grossos volumes, em forma de dicionário, que convém ter sempre à mão".
Na Avenida Câmara Cascudo, Cidade Alta, a casa onde Cascudo viveu grande parte de sua vida
Na Avenida Câmara Cascudo, Cidade Alta, a casa onde Cascudo viveu grande parte de sua vida

Uma das explicações para a produção acadêmica sobre a obra cascudiana ter pipocado após o centenário de seu nascimento, na década de 90, tem a ver com a contemporaneidade das reflexões postas em seus escritos. O pensamento de Câmara Cascudo já trazia à tona assuntos, como sociabilidade, cultura, identidade nacional e o papel da mulher na sociedade, entre outra infinidade de temas, que a sociologia, antropologia e filosofia desafiam a entender e explicar.

Não à toa, personalidades importantes do país, inclusive presidentes, quiseram conhecer de perto ou mesmo se corresponder com aquele homem que tinha a máquina de escrever, os livros e, sobretudo, as tradições e saberes do povo como bens mais preciosos.  Exerceu forte influência sobre Mário de Andrade e Monteiro Lobato, com os quais manteve troca de correspondências. Jorge Amado e Heitor Villas-Lobo também tinham profunda admiração por Cascudo. O acervo de correspondência tem mais de 15 mil documentos. A tradição brasileira apresentada por ele aos autores modernistas desemboca na literatura de Guimarães Rosas, autor modernista conhecido pelo trabalho com a oralidade e a escrita moderna.

Uma carreira parlamentar relâmpago

Cascudo era diferente. Pesquisava diferente. Escrevia diferente, com uma linguagem fácil, mas com toda a erudição requerida, conseguia quase desenhar o que transmitia. Morava no limite entre duas cidades em uma, a baixa, de gente simples e pescadores, e a alta, da burguesia natalense. Ele estava no meio, em sua rede, armada no alpendre num dos cômodos do casarão colonial.

E por ser tão diferente, tão simples, e, ao mesmo tempo sofisticado, que decidiu ser também político, chegando a assumir posto no partido integralista, liderado à época por Plínio Salgado, ao qual associava valores nacionais à tríade Deus, pátria e família.

Poucos sabem, Câmara Cascudo chegou se eleger deputado estadual e ocupou uma cadeira na assembleia  legislativa do RN. De acordo com Daliana Cascudo, neta do folclorista e diretora do Ludovicus Instituto Câmara Cascudo, a carreira de parlamentar foi relâmpago, durou pouco, apenas três dias. Ele foi deposto e teve o mandato cassado devido à Revolução de 1930. “Não tive tempo de salvar nem de perder o Brasil”, brincava Cascudo.

Daliana conta que, posteriormente, sabendo do feito político do folclorista, Getúlio Vargas queria que Câmara Cascudo se candidatasse a senador. “Obviamente, ele recusou e o presidente questionou o motivo. Meus eleitores não votam, disse ele desviando-se do convite. Ele se referia ao Saci-Pererê, Curupira, Lobisomem, Iara e outros personagens míticos do folclore brasileiro”, conta a neta do escritor. No pós-guerra, ele repudiou a filiação ao partido, silenciando posteriormente a essa vivência, única manifestação política na esfera pública do historiador, cuja formação acadêmica se deu no Rio de Janeiro, Salvador e Recife.

Bem humorado, curioso e contador de anedotas

Cascudo é um dos mais respeitados pesquisadores do folclore e da etnografia no Brasil. Lia muito, recebia visitas, escrevia demais. Em suas viagens fazia amigos e ouvia histórias. Trocava muita correspondência. Se tivesse as inclinações de Matusalém e fosse indagado sobre o que estaria fazendo no auge dos seus 120 anos, certamente ele diria: "estou fazendo o que você fez a vida inteira", como retrucou a Edson Nery da Fonseca na ocasião do seu aniversário de 69 anos.

Por ser um homem muito querido, bem humorado, ouvidor e contador de anedotas, recebia por escrito ou ao pé do ouvido muitas informações sobre causos que embalaram o sono e assustaram gerações e gerações. Ele também estudou os caminhos trilhados pelo homem e seu legado nos deixou as mais preciosas informações sobre a cultura brasileira. Todo o legado de Cascudo perpassa acontecimentos históricos profusão de ideias e correntes de pensamento e as experiências pessoais.
Ambientes internos conservam móveis originais da casa, alguns datados do século XIX
Ambientes internos conservam móveis originais da casa, alguns datados do século XIX

Publicou seu primeiro livro aos 23 anos, intitulado Alma Patrícia (1921), um estudo crítico e biobibliográfico de 18 escritores e poetas norte-rio-grandenses ou radicados no estado. E em seguida vieram muitos outros, até que, em 1954, lançou a sua obra mais importante como folclorista, o Dicionário do Folclore Brasileiro, obra de referência no mundo inteiro.

No campo da etnografia, publicou vários livros importantes como Rede de Dormir, em 1959, e História da Alimentação no Brasil, em 1967. Publicou depois, entre outros, Geografia dos Mitos Brasileiros, com o qual recebeu o prêmio João Ribeiro da Academia Brasileira de Letras. O pesquisador trabalhou até seus últimos anos e foi agraciado com dezenas de honrarias e prêmios. Morreu aos 87 anos.

Uma obra sem fronteiras e à serviço do homem

Tudo o que Câmara Cascudo escreveu foi uma obra à serviço do homem. Isso fica mais nítido no livro Civilização e Cultura, publicado em 1973, que, na verdade, é um compêndio de aulas de etnografia geral dadas na Faculdade de Filosofia da UFRN entre os anos 50 e 60. Ele trata do homem universal, desde o homem pré-histórico até a aquisição das artes, de como a cultura e a civilização foram adquiridas. E pontua o homem brasileiro como sendo universal, porém, com muitas particularidades, em parte fruto da miscigenação, chamando a atenção para a nossa cultura, de como era válida, sugestiva, e, que, por isso, precisava ser valorizada. “Todo mundo possui um coração dentro do peito, mas o ritmo cardíaco não é o mesmo em cada um. Eu posso ainda me sentir brasileiro, ainda que não entenda o Brasil”, sentencia Cascudo.

Apesar de manter a coordenada geográfica fincada em Natal, sua obra não apresenta fronteiras ou limites de tempo e espaço.  Para Nilza Matias de Souza, escritora do livro Câmara Cascudo Viajante da Escrita e do Pensamento Nômade, o potiguar enfrenta a aventura de lidar com as fronteiras, seja no nível do pensamento que integra etnografia, história, filosofia, mitos e poesia, seja no abordar o drama humano da errância original, de se lembrar do esquecido, que ultrapassa tempo e espaço.

Na avaliação de Daliana Cascudo, o Cascudo folclorista acaba mesmo ofuscando o etnógrafo. E é nessa área que ele expõe melhor o entendimento de cultura popular.  “Não escolhi estudar o folclore. O folclore me escolheu”. No pensamento de Cascudo, o folclore, embora não tenha uma programática nacional, é uma afirmação da pátria e, por isso, ele tanto se empenhou para compreender e revelar, com seu espírito ufanista.

Ele dizia que o “folclore é a solução popular na vida civilizada”. E, através de suas pesquisas antropológicas, nas quais acabava se inserindo numa simbiose com o povo, ele queria - mesmo sem essa pretensão escancarada - transformá-lo [o folclore] no guia da nacionalidade brasileira, já que o Brasil é o país mais folclórico do mundo e depositório de todas as culturas globais. Pelo menos, é o que fica claro no livro A História da Alimentação no Brasil. Nesse livro, tenta analisar a culinária nacional sob a ótica da divisão étnica: portugueses, africanos e indígenas.


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