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Câmara Cascudo: obra ''História da alimentação no Brasil'' completa 50 anos
Publicado: 00:00:00 - 08/08/2018 Atualizado: 23:50:53 - 08/08/2018
Ramon Ribeiro
Repórter

Passados 50 anos do lançamento, o livro “História da Alimentação no Brasil” segue como obra fundamental para se entender a formação da parte mais saborosa da identidade brasileira. Resultado de mais de duas décadas de estudos, a publicação consagrou Luís da Câmara Cascudo como pioneiro na abordagem histórica e sociológica da alimentação, ao apresentar diversas perspectivas de uma atividade humana vital, mas vista com pouca relevância pelos intelectuais da época. Em seus estudos, o autor vai da origem indígena, africana e portuguesa da cozinha nacional, até os aspectos sociais que a contornam, como costumes, práticas, o ritmo das refeições, as superstições ligadas à mesa. Não é à toa que ainda hoje o livro dá subsídios para novos estudos sobre o tema.

Programa História da Alimentação no Brasil
Publicação que consagrou Luís da Câmara Cascudo completa 50 anos neste mês

Publicação que consagrou Luís da Câmara Cascudo completa 50 anos neste mês


Publicação que consagrou Luís da Câmara Cascudo completa 50 anos neste mês

Para escrever “História da Alimentação no Brasil”, Cascudo fez uma das suas mais extensas pesquisas, iniciando em 1943 e culminando em 1963 com a viagem à África – patrocinada por  Assis Chateaubriand. Na investigação bibliográfica, o potiguar recorreu a um enorme acervo, mesclando no texto depoimentos de cronistas portugueses do século XVI, relatos de viajantes europeus de XIX, estudos etnológicos e históricos. Também fez um trabalho de campo onde extraiu informações de diversas camadas sociais, ao entrevistar desde filhos de ex-escravos e pescadores até senhores de engenho.

Para a antropóloga Julie Cavignac, da UFRN, que integra a linha de pesquisa Antropologia da Alimentação, Cascudo foi pioneiro em propor uma historia e uma sociologia da alimentação no país. “Até então, não havia estudos específicos. Como Cascudo reconhece na introdução (da 'História da Alimentação no Brasil'): ele foi 'seduzido pelo assunto que vivia esparso e diluído em mil livros'”, conta a  professora em entrevista ao VIVER. “Até a obra de Claude Lévi-Strauss, no primeiro volume das 'Mitológicas', publicado em 1964, não havia estudos sistemáticos sobre o assunto. Nessa época, Cascudo já estava escrevendo seu livro fazia 20 anos”.

Teoria
Embora ressalte a importância dos estudos do potiguar, Julie Cavignac também vê alguns pontos críticos na obra. “Cascudo é um pioneiro na pesquisa sobre alimentação mas tem uma abordagem datada. Pertence à um movimento intelectual no Nordeste que poderíamos caracterizar de culturalista. Junto com Gilberto Freyre, analisam os traços culturais regionais à luz da história (a colonização portuguesa). Ele aponta para a importância indígena, africana e portuguesa, sem conseguir formular uma teoria”, comenta a antropóloga, que também reflete sobre outro aspecto do livro. “Cascudo fica preso à seu estilo muito pouco acadêmico, o que torna a leitura às vezes um pouco difícil. São anotações de leitura, reflexões eruditas, receitas, anedotas, curiosidades e crônicas com insights geniais. O problema, a meu ver, é justamente ter tratado de tudo”.

Acervo Instituto Ludovicus
O historiador e etnógrafo Câmara Cascudo na companhia de sua esposa dona Dáhlia degustam uma iguaria. O escritor era um bom apreciador da culinária regional, principalmente a peixada

O historiador e etnógrafo Câmara Cascudo na companhia de sua esposa dona Dáhlia degustam uma iguaria. O escritor era um bom apreciador da culinária regional, principalmente a peixada


O historiador e etnógrafo Câmara Cascudo na companhia de sua esposa dona Dáhlia degustam uma iguaria. O escritor era um bom apreciador da culinária regional, principalmente a peixada

Seminário vai debater atualidade da obra
Para a antropóloga Julie Cavignac, Câmara Cascudo tem uma importância no cenário do pensamento brasileiro que vai além do legado como folclorista ou historiador. Nesse sentido, ela ressalta a necessidade de se incentivar ainda mais a leitura e o debate em cima da vasta obra do intelectual. “Por exemplo, pouca gente sabe que foi ele que chamou atenção sobre o binômio feijão e farinha, base do cardápio nacional”, ilustra a professora.

Para discutir o lugar dos estudos de Cascudo sobre a alimentação brasileira no contemporâneo, Cavignac mais um grupo de outros antropólogos, nutricionistas, chefes e especialistas da obra do potiguar vai promover o encontro “A Cozinha de Cascudo – 50 anos da 'História da Alimentação no Brasil'”. O evento será realizado no dia 16 de agosto, com programação que abrange mesas redondas, palestras, exibição de vídeos, além de lançamento de livro e jantar temático.

O encontro tem entrada gratuita e acontece em dois espaços, com atividades pela manhã até à noite. No Museu Câmara Cascudo (Tirol), a professora Esther Katz (Museum d'Histoire Naturelle, da França), apresenta um olhar crítico sobre a importância do “Cascudão" para os estudos sobre alimentação. Na mesa-redonda “A atualidade de Cascudo”, Daliana Cascudo vai mediar um debate com as professoras May Waddington (UFSB), Michelle Jacob (UFRN) e a chefe Adriana Lucena. À tarde, o jornalista Vicente Serejo media o bate papo “Cascudo e o estilo alimentar potiguar”, com o chefe Alexandre Gurgel e as professoras Célia Marcia Morais (UFRN), Maria Isabel Dantas (IFRN), Carla Genúncio (UNP) e Thágila Maria de Oliveira (UFRN). Na sequência serão exibidos os episódios da série “História da Alimentação no Brasil”, do cineasta Eugênio Puppo, que estreou no canal CineBrasil TV no ano passado.





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