Cândido

Publicação: 2017-05-19 00:00:00 | Comentários: 0
A+ A-
Dácio Galvão

Quando uma produção intelectual recebe reconhecimento unânime o que não quer dizer necessariamente a concordância total com os critérios ou pontos de vista por ela adotada, mais fundamentalmente a legitimação de um pensamento de um dado escritor, convenhamos que é destaque por si. Num país tão conturbado como o Brasil e com terreno fértil no campo cultural para igrejinhas frutiqueiras, desde ontem num passado longínquo, imagine hoje com os ciberataques. A migração passa de igrejinhas de cafezinhos  para o indomável espaço das redes sociais que se por um lado fazem fruir coisas bacanas e alentadoras por outro traz na mesma proporção fruição para a precarização geralmente na catedral da internet. Assim é a vida para a nossa relativa democracia. Igualdade para o bom e o ruim no devir de tempos.

Nesse rio heraclitiano viveu e morreu o pensador Antonio Candido. Lendo arte literária formulou e sistematizou grande parte da literatura brasileira. Mesmo antes de me graduar em Letras, levava comigo para as carteiras das salas de aula da UFRN leituras intuídas dos formalistas russos, em particular do lingista Roman Jakobson e do americano semioticista Charles Sanders Peirce chegados pela via do plano-piloto da poesia concreta. Estatuto complexo de amplo espectro no que diz respeito a referências bibliográficas. Incomodava não ter chão. Importante era ter base teórica lastreando a literariedade. A literatura como linguagem autônoma. Aí vieram o mestrado e o doutorado tendo como orientador o professor Dr. Humberto Hermenegildo de Araújo. Ele me apresentou para leitura os textos de Antonio Candido, que sabia ter composto a banca de examinadores da defesa da tese do ensaísta e poeta Haroldo de Campos publicada posteriormente com o título, Morfologia do Macunaíma, me direcionando para deixar fluir minhas observações, na dissertação e na tese, não me preocupando tanto com teorias. Claro que havia referências bibliográficas e fortuna crítica. Entretanto a dica fora o segredo do negócio. Ou seja, o chão, o terreno firme era ler alguns dos textos clássicos do pensador Candido notadamente os relacionados ao nosso objeto.

As noções de cosmopolitismo, universalismo e localismo são conceitos de há muito incorporados, por obra e graça do amigo de Sergio Buarque de Holanda, com sabor clarificador. Hoje quando se discute na política relações de nacionalismo, xenofobismo e outros atrasos essas premissas se tornam imprescindíveis. O recalque conservador parece quere tomar fôlego. Por aqui na província, bem que artistas, produtores poderiam apreender esses conceitos atualíssimos que o autor de “Parceiros do Rio Bonito”, livro de cabeceira do ator Paulo Betti, trata de forma definitiva. Ajudaria muito sairmos do atrasado debate sobre “artistas daqui” e “artistas de fora”. Que infelizmente reflete nosso atraso na questão. Antes tarde do que nunca!

Assisti em 2011, na Festa Literária de Paraty, as palestras que tratavam do homenageado, Oswald de Andrade. Na conferência de abertura, duas feras: Antonio Candido e Zé Miguel Wisnik. Na arena lotada, o palco, a iluminação e cenário dignos para qualquer astro de Rock and Rool. Ainda não tinha visto o mestre em pessoa. Alto, magro, tipo longilíneo, dicção maravilhosa e vigor físico. Quando adentrou a ribalta... De pé, toda a plateia monasticamente o reverenciou com palmas, palmas, palmas e mais palmas. Nenhum grito. Só palmas. Agradeceu em gestos. Sem nenhuma palavra! Era o mestre, generoso, reconhecido como ético que ali estava diante de discípulos, interessados e admiradores. A energia que circulava era emocionante. Nunca presenciei recepção como aquela. Quanto ao Zé Miguel, que fez uma intervenção brilhante, já o conhecia de momentos no Festival Literário de natal - FLIN e do Festival Literário da Pipa - FLIPIPA. O mestre que foi amigo de Oswald de Andrade reservou-se a um depoimento intimista e particular ressaltando impressões pessoais do amigo, optando por não abordar a trajetória intelectual do polêmico canibal modernista. Deixou essa tarefa para o ex-aluno Wisnik que a fez didaticamente chegando até o pós-tropicalismo.

Na entrevista concedida em Paraty, Antonio Candido falou cândido para a Folha de São Paulo: “Oswaldo era único. Era um tipo curiosíssimo, muito irregular. Uma obra cheia de altos e baixos. Tem momentos de genialidades e momentos muitos ruins. Ele era uma força da natureza. Oswaldo era homem com traços de gênio. Ele não lia muito, Mas o que ele ”pegava” era extraordinário.”

Agora com o seu falecimento esse brasileiro invulgar deixa além dos seus escritos mais uma quebra de outro entre tantos paradigmas. O do adágio “Toda unanimidade é burra!” Se tratando do homem que fora, essa máxima se esvaiu, pois morto para ele não foi aplicável.  Tudo que pude ler através da mídia a seu respeito - direita, centro, esquerda - trouxe a unanimidade de testemunhos no tocante ao reconhecimento ntelectual e comportamental da figura humana humilde, solidário, ideologicamente coerente e generoso..

Não é fácil no cenário atual catar alguém com tantas prerrogativas.

continuar lendo



Deixe seu comentário!

Comentários