CACÁ

Publicação: 2018-09-14 00:00:00 | Comentários: 0
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Dácio Galvão
daciogalvao@globo.com

Não fosse a dedicada exegese de corporações da comunicação ao atual cenário político brasileiro, certamente a entrada do cineasta Cacá Diegues, na Academia Brasileira de Letras, teria sido mais visibilizada.

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Dotado de espírito libertário nunca coube em camisas de forças. Lê e propõe vida através de imagens sem afetação. Sempre arte e proposição. Ele foi protagonista da saudável polêmica acerca do patrulhamento ideológico que estava a exigir compartimentos dogmáticos no contexto dos anos de 1970 e 1980. Provocou o debate nacional sobre o assunto que acabou resultando no livro antológico de Heloísa Buarque de Hollanda e Carlos Alberto Pereira. Riquíssimos depoimentos de figuras importantes. “Patrulhas Ideológicas” foi expressão criada por Cacá Diegues para caracterizar atitudes de cobranças em relação ao engajamento político. Logo repercutiu e ganhou notoriedade sociológica na entrevista publicada por Póla Vartuck, no periódico O Estado de São Paulo, em agosto de 1978. “Cacá Diegues: por um cinema popular, sem ideologias”. Era a estampa da chamada com o nome do cineasta e acento à direção intelectual que propunha para o momento.

Em 1964, com Glauber Rocha (Deus e Diabo na Terra do Sol) e Nelson Pereira dos Santos (Vidas Secas) esteve no Festival de Cannes, com “Ganga Zumba”, de onde em alusão a unidade da diversidade de pensamento na cinematografia brasileira diz que foi aonde nasceu o Cinema Novo.

Trajetória brilhante de quem reconhece a importância do Oscar, contudo não legitimando como única chancela que pode atestar a qualidade de um filme. Ele tem o conforto de já ter participado anteriormente com seis filmes indicados através da Academia Brasileira de Cinema para concorrer também à indicação do Oscar.

Na esteira da expectativa memorial do Grande Circo Místico, seu mais recente filme que já disputa a possibilidade do prêmio da Academia de Hollywood, Cacá Diegues, passa também desde agosto passado a fazer parte de um processo de renovação do pensamento tradicionalista da ABL. Notadamente depois da morte de João Ubaldo, Nelson Pereira... Exemplos recentes: a eleição de Antonio Cícero, (poeta e filósofo) e Geraldo Eduardo Carneiro (poeta,tradutor, roteirista, dramaturgo). Diegues, o nordestino-barroco,  passou a ocupar a cadeira que já fora de Euclides da Cunha.

Ligadíssimo na literatura do escritor conterrâneo Jorge de Lima, autor de Poemas Negros e Invenção de Orfeu, em plena maturidade artística e intelectual o diretor procura emergir do realismo, da crônica cinematográfica para a poetização submersa do ambiente estético do Circo aonde forjou e formou grande parte de sua gramática afetiva, grafada e gravada em Alagoas.

O escritor Manuel Diégues Júnior, pai do cineasta, já aportou em terras potiguares assinando texto (Louvação a um missivista) quando apresentou suas impressões antropológicas sobre o livro “Cartas da Praia” de Helio Galvão. O autor das “Cartas” fez no referido livro a seguinte dedicatória: “A Manuel Diégues Júnior, precursor dos estudos sobre pesca ao ângulo da sociologia”. Fala Cacá sobre o pai: “seu prazer profundo era mesmo a antropologia, e acima de tudo, o folclore brasileiro”. Ele reverenciava Alceu Amoroso Lima, Gilberto Freyre e fora amigo de Rubem Braga e Fernando Lôbo (pai de Edu Lôbo) informa o diretor de Xica da Silva e Bye, Bye Brasil.

Diegues Júnior ficou bem impressionado com a descrição que Galvão fez do Coco Zambê, no livro de 1967. “O assunto é de minha especial atração, isso por causa do coco alagoano”.

Aos setenta e sete anos o romancista da imagem, escritor-roteirista faz a circunavegação no interior da sua trajetória e atracou no Circo. Na poeticidade nordestina. Memórias revisitadas já aconteceram em “Joana Francesa” originalmente romance baseado em história da sua família nas Alagoas.

Cacá Diegues é Brasil-potencial. Intangível. Forte e atemporal. Estamos precisando dessa vitalização. Salve, salve o Grande Circo Místico!


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