Cacofonia, o som desagradável

Publicação: 2020-05-31 00:00:00
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«   João Maria de Lima  »
Professor

Porque por tuas palavras serás justificado e por tuas palavras serás condenado. Mt 12,37

Por terem sons feio ou formas gráficas desagradáveis, os cacófatos – também conhecidos como cacofonias – e os cacógrafos (ou cacografias) devem ser evitados. Eles são muito mais comuns do que se possa imaginar. Chegam a criar situações inusitadas e sentidos obscenos. Como seus malefícios só aparecem na leitura, muita gente corre o risco de os cometer. Vamos ver alguns casos para ilustrar nosso raciocínio, começando pelos que nos remetem ao lado “gastronômico”.

Vespa assada – usada comumente, a expressão a vez passada acaba nos levando a um prato bastante exótico, a vespa assada. Detectada a cacofonia, a correção é fácil: na outra vez, na última vez.

Maminha – nem o grande poeta português Camões escapou neste famoso soneto: Alma minha gentil que te partiste. Em Portugal, é preciso dizer, pela forma de leitura, a cacofonia some quase por inteiro. Não me atrevo a corrigir. Alguém se atreve?

Porcada – não se trata do coletivo de porco, mas frases como São dez processos por cada juiz estão aí. Para corrigir e retirar o aspecto suíno da frase, basta eliminar o termo cada: São dez processos por juiz.

Amo ela – passa-se do romance à culinária de forma muito rápida. Se realmente há amor, deve-se deixar a preferência por moela para momento mais propício. Além de tudo, há o problema gramatical (usar pronome pessoal reto com função de objeto). Diga-se: Eu a amo.

Uma mão lava a outra – a leitura dessa frase deixa evidente o termo mamão. Essa cacofonia vai ocorrer sempre que aparecer um antes de mão. Para corrigir, um pouco de esforço: Cada uma das mãos lava a outra.

Não pude tocar nela – se faltava um tempero, aí está: canela. Para tirar esse gostinho, usa-se o pronome lhe: Não pude tocar-lhe.

Mudaremos a temática, sem esquecer o cerne da questão, pois não faltam exemplos agressivos e escatológicos sobre este assunto do qual tratamos neste texto. Sigamos.

Via controlada por radar – quem nunca leu essa frase em placas exibidas em nossas rodovias? Além do limite de velocidade, fique atento ao nosso português. Em vez de por, que traz à tona o desagradável por radar, basta usar a preposição pelo: Via controlada pelo radar. 

Só que não – expressão muito comum nas gírias do dia a dia, que pode parecer um apelo. O fato é: só que sempre gera cacófato. Portanto, está condenada desde que surgiu e para sempre, pois é confundida com a terceira pessoa do singular do presente do subjuntivo do verbo socar.  E não é só na gíria que a moça dar o ar da graça. Repare: O jogo foi bom, só que meu time perdeu. A correção passa pela troca de só que por mas: O jogo foi bom, mas (porém, contudo) meu time perdeu.

Nunca gaste mais do que tem – esse conselho poderia ser reformulado a fim de evitar escatologia. A cacofonia formada pela sílaba final de nunca associada à forma verbal gaste será evitada se redigirmos ou falarmos: Não gaste mais do que tem.

Escapei do perigo – mas não escapou da frase ruim e do som desagradável. Para evitar um perigo maior evidenciado pela junção da última sílaba de escapei com a preposição do, substitua o verbo: Fugi do perigo.

O professor havia dado aquele assunto – tenho certeza de que o mestre ficaria bem mais feliz se fosse dito: O professor tinha dado aquele assunto. Dessa forma, ninguém se sentiria ofendido.

Sempre quito minhas dívidas – todo mundo ficará satisfeito, se você trocar a forma verbal quito por pago. Sempre pago minhas dívidas soa bem melhor, garanto.

Beijei a boca dela – um bom beijo é aquele que não fere a língua. Para evitar problemas e não misturarmos gente com animal, o melhor é dizer: Beijei-lhe a boca.

É importante que todo texto seja lido e relido, preferencialmente em voz alta, antes de ser liberado para leitura ou publicação. É a única maneira segura de detectar esse pecado, do contrário, conforme Lc 24,11: E as suas palavras lhes pareciam como desvario, e não as creram.


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