Caixa ‘Gilberto Gil Ao Vivo’ traz obra dos anos 70

Publicação: 2017-09-12 00:00:00 | Comentários: 0
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Renato Vieira
AE

Gilberto Gil diz ser muito envergonhado do que fez. Não gosta de ouvir seus próprios discos, "com algumas exceções", e admite, bem-humorado, já ter esquecido boa parte de seu repertório por conta disso. Mas, aos 75 anos, ele se sente satisfeito em saber que músicas que escreveu há algum tempo se mantêm relevantes. "Eu mesmo não faço isso, mas acho interessante que os outros olhem com carinho para o meu passado. Acho bacana que essas coisas tenham significado para as pessoas, que isso viva no coração delas. É legal ver gente de várias gerações que aprecia o trabalho."

Aos 75 anos, Gilberto Gil revisita outros tempos musicais
Aos 75 anos, Gilberto Gil revisita outros tempos musicais

Uma pessoa que aprecia sua obra e vem cuidando dela é seu filho Bem, que acaba de idealizar o show Refavela40 para celebrar as quatro décadas do álbum Refavela. Como fã, ele tem um apreço especial pelo que o pai produziu nos anos 1970. Em encontro recente, o pesquisador Marcelo Fróes, que vem resgatando o catálogo de Gil há duas décadas, mostrou a Bem gravações inéditas de shows dos anos 1970, e ele gostou do que ouviu. Esse material dá origem à caixa Gilberto Gil Ao Vivo (Anos 70), que entra em pré-venda nesta semana.

O pacote produzido por Fróes e supervisionado por Bem contém três CDs duplos, com shows feitos no Rio e em São Paulo entre 1972 e 1973. "Meu pai tem confiado a mim esse tipo de trabalho e ele sabe que eu tenho gosto por essas gravações. Os shows dessa época eram mais vivos, como se fossem um ritual", afirma Bem. A caixa é um documento do que Gil fez imediatamente após retornar do exílio em Londres, onde aprofundou seu lado roqueiro ao mesmo tempo em que sentiu saudade de suas raízes nordestinas.

Antes de deixar o Brasil, Gil levou às últimas consequências seu flerte com o rock em Questão de Ordem. Nitidamente inspirada no trabalho de Jimi Hendrix, a música foi desclassificada pelo júri da eliminatória paulista do Festival Internacional da Canção de 1968. Foi a última faixa que ele gravou antes de ser preso em São Paulo, em dezembro daquele ano. "Se Gil não tivesse ido para o exílio, essa fase rock que a caixa registra com certeza teria acontecido antes, no Brasil. Ele queria ser um bandleader", conceitua Fróes.

Na Inglaterra, Gil fez uma série de apresentações e participou de jam sessions ao lado de David Gilmour, do Pink Floyd, e Jim Capaldi, do Traffic. "Lá, eu tive um convívio próximo com muitas manifestações musicais. Ouvia rock, jazz e os trabalhos recentes do Miles Davis, que estava tocando com músicos ecléticos. Aquela era uma época dominada por grupos musicais." Com essa consciência de grupo, Gil desembarcou no Aeroporto do Galeão em 14 de janeiro de 1972 pronto para estrear ao lado de uma afiada banda o show Gilberto Gil em Concerto, cuja gravação está no álbum Gilberto Gil Ao Vivo - Back In Bahia, 1972, o primeiro da caixa. Como Gil fazia shows que duravam entre três e quatro horas, as faixas são inevitavelmente longas, assim como as dos outros álbuns do pacote, ouvido em primeira mão pelo Estado. O registro de Gilberto Gil em Concerto, feito em março de 1972 no Teatro Municipal do Rio, joga luz sobre músicas que ele havia feito recentemente. Tudo soa como uma obra em progresso.


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