Caju nutre a vida e a arte do artista plástico Vatenor

Publicação: 2018-11-18 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter

Vatenor começa na arte fazendo um percurso de fora para dentro. Primeiro trabalha numa loja de molduras, convivendo com importantes artistas e colecionadores do Rio de Janeiro – cidade que viveu entre 1970 e 1996 –, depois, influenciado pelo ambiente artístico da época, ele experimenta suas primeiras pinceladas, levando para o centro da tela lembranças de uma infância cercada por cajueiros no Igapó, em Natal, cidade onde nasceu em 1953. “O caju é o alimento da minha arte”, afirma o artista sobre aquele que é o principal tema de suas pinturas em quase 45 anos de carreira.

Caju Nutre a vida e a arte do artista plástico Vatenor

Os cajus de Vatenor começaram a brotar pelo mundo a partir de 1981, quando o artista realiza sua primeira exposição individual, no Rio de Janeiro. No ano seguinte, ele estreia em Natal. Em 86 é a vez de Nova Iork conhecer suas cores, em 88, Paris. E por aí vai. Hoje suas obras estão espalhadas até pela Rússia.

Mesmo no período que morou longe da capital potiguar, ele nunca deixou de visitar sua cidade de origem. A exposição de Paris, por exemplo, foi desenvolvida toda na capital potiguar. Quando estava por Natal ele bebia na inspiração, revia familiares e amigos, dava uma olhada no que os artistas locais estavam produzindo e então retornava para o Rio revigorado para seguir com a carreira.

No entanto, houve o dia que a saudade da terrinha o trouxe em definitivo. O ano era 1996. O cenário artístico da cidade não era propício para quem desejava viver da arte, então ele decide entrar para política para tentar melhor essa situação. Se candidata a vereador, não consegue se eleger, mas não desiste de defender a cultura. Por nove anos chefiou o Núcleo de Artes Plásticas da Capitania das Artes. Por outros cinco, foi diretor da Pinacoteca Potiguar. Durante esse tempo de gestor, realizou Salões de Arte, dezenas de exposições mensais de potiguares, inclusive uma inusitada mostra de arte no Farol de Mãe Luiza.

Vatenor prepara para 2019 uma retrospectiva dos 45 anos de carreira. Na oportunidade o público poderá ver as várias linhas de trabalho do artista, que além dos cajus e cajueiros, não deixou de retratar as dunas, o mar e o céu da infância, vivida entre às margens do Rio Potengi e as praias da Redinha e Genipabu.

Debaixo do cajueiro
Minha infância foi entre Igapó, Pajuçara, Redinha e Genipabu. Essa é a geografia da minha infância. É o que nutre a minha fantasia pictórica. Cresci sentado em cajueiro, pendurado nos galhos, amarrando cordas para fazer balanço, comendo caju, assando a castanha. As crianças da minha época não tinham outra coisa pra fazer a não ser brincar debaixo dos cajueiros. A Zona Norte tinha cajueiro em tudo que é lugar. O caminho de Igapó pra Redinha, uma estradinha de 9km, era margeada por cajueiros.

Joaquim Doido
Em frente de casa tinha a Fazenda do Zé Santiago. Onde hoje é a Coteminas. Tinha gado, cavalo e uma mata grande de cajueiros. A gente ia lá roubar caju. Quem tomava conta era Joaquim Doido. A gente furava a cerca, à vezes ia pela maré. Quando o cajueiro vai dar caju cai as folhas tudinho. Não sei se você já percebeu. Cai muito. Se você for numa mata de cajueiro fica quase um palmo de folha no chão. Você pisa e afunda. Joaquim Doido queimava essas folhas. A gente adorava. Ia pra lá brincar. Juntava uns cinco meninos. Foi uma das grandes figuras da minha infância. Ele era velhinho, não dava conta de subir nas árvores, levava pra casa só os cajus amassados.

Das armas para o pincel
Entre 70 e 74 fui militar. Tinha passado num concurso para fuzileiro naval e fui convocado para o Rio de Janeiro. Mas tive um problema lá dentro e pedi demissão. Começo a trabalhar numa loja de molduras. Eu sabia que existia dentro de mim uma necessidade de externizar algo. Eu só não sabia a linguagem. Por um tempo achei que fosse o teatro. Trabalhei no Teatro Mesbla com Arlete Sales, Marco Nanini. Depois achei que fosse a música. Mas quando entrei em contato com os artistas, gente como José Altino, Augusto Rodrigues, Aluísio Carvão, Abelardo Zaluar, descubro que minha linguagem é a pintura. Começo a ler sobre Van Gogh e Gauguin e fico fascinado, começo a pintar com base no que eles faziam e troco as armas pelo pincel.

Da infância para a tela
Os cajueiros aparecem na minha pintura a partir de 78. Eu lendo muito sobre arte, chego a [Henri] Rousseau, pai da arte naif. Ele pintava as lembranças de quando serviu como sargento no México. Lendo a história dele. Aí bate o estalo: por que não pintar o universo da minha infância? E assim eu fiz. No início eu pintava a paisagem com um monte de cajueiros até que os cajueiros começaram a aparecer no primeiro plano.

Primeira individual
Em 1981 faço minha primeira exposição, com texto do Abelardo Zaluar. No ano seguinte estreio em Natal. Em 1983 faço uma exposição muito badalada, no Circo Voador, o auge da transgressão com texto de Aluísio Carvão. Foi uma das exposição que fiquei mais emocionado. Vendi muito, fui convidado para jantares. Em 84 eu coloco o carro na estrada subo pra Natal. Levei 15 dias pra chegar. No caminho deixei uma exposição marcada em Recife, outra em João Pessoa e monto uma na Pinacoteca. Na volta ao Rio, no caminho faço as exposições na Paraíba e Pernambuco.

Chupar caju em Nova Iorque
Em 86 fui pra Nova Iorque. Não levei nada. Não falava inglês. Devagarzinho fui comprando os pincéis, tintas. Em pouco tempo eu já estava conhecendo uma turma. Então recebo o convite para expor num evento do Dia da Independência do Brasil. Consigo vender uns trabalhos, recebo o convite para uma outra exposição, individual. Em Nova Iorque eu cheguei a encontrar caju no mercado, congelado, importado da Nicarágua. Fiz um vídeo chupando caju na 5ª Avenida. Chupando um caju congelado em Nova Iorque num frio da porra!

Da Redinha pra Paris
Depois de Nova Iorque eu recebo um convite para expor em Washington. Mas meu visto terminou. Volto para o Brasil, venho pra Natal e preparo a exposição de Washington. A exposição de Paris vem logo depois, também venho preparar ela em Natal, hospedado na casa de Chico Alves na Redinha. Lá em Paris foi muito bom. Inaugurei um quarto de hóspedes do fotógrafo Sebastião Salgado.

Um símbolo da Redinha
Aquele escultura de caju da Redinha foi o Manxa que começou e Jordão terminou. Durante muito tempo era eu que retocava as cores para as temporadas de verão. Eu estava por aqui, os comerciantes compravam as tintas e eu pintava. Realmente é uma referência do bairro. Acho que ele é de 1989, foi criado para a inauguração dos hotéis Redinha e Atlântico Norte. A Festa do Caju era outra coisa tradicional. Naquela época os natalenses iam curtir o veraneio na Redinha, atravessavam o Potengi de barco. Como o verão é o período do caju, o pessoal fazia essa festa. Tudo era em volta do caju: rainha, princesa. Morreu quando o foco do verão foi para Ponta Negra.

Cajueiros famosos
O cajueiro de Pirangi é muito grande, parece um arbusto. Já pintei de dentro, de baixo pra cima. Mas não é um ângulo que costumo pintar. Os cajueiros das dunas de Genipabu me inspiram mais. Ia muito lá pra pegar detalhes, focar no contraste com as dunas, o céu. Em 87 eu andei muito pelo Morro do Careca também, com Marize de Castro. Tem alguns quadros que pintei que foram de ângulos que vi lá. O cajueiro em primeiro plano, com a linha do horizonte e a ponta de Santa Rita no canto. Esse cajueiro da Ladeira do Sol eu cheguei a pintar duas vezes. A primeira em 81. Gosto daqui por causa da paisagem que posso compor. Tem o cajueiro, o céu, o mar. Mas o principal cajueiro é o da minha infância, do quintal de casa. Não existe mais. Quando lotearam a área derrubaram ele porque ficou exatamente no meio da rua.

Política cultural
Quando chego em Natal para morar, em 1996, venho com a ideia de colaborar com o cenário daqui. Na Capitania das Artes eu crio os Salões de Arte. A gente tinha uma média de 30 exposições por ano, e premiando os artistas, que é importante. Também cheguei a fazer uma exposição dentro do Farol de Mãe Luiza, à pedido da Marinha, quando o farol completou 50 anos. Também montei por três edições a galeria de arte do Festival de Inverno de Martins. Agora você olha pra Natal hoje e encontra o que? Nada. Salão não existe mais. Ai dizem que se o artista quiser, ele monta a própria exposição. Mas tem que ter estímulo. Quero fazer uma exposição ano que vem, vou expor aonde? A Pinacoteca está fechada.

Colaborou:
Cinthia Lopes, Editora

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