Campanha Setembro Verde esclarece sobre doação de órgãos

Publicação: 2020-09-13 00:00:00
Tádzio França
Repórter

O Setembro Verde, mês da campanha sobre a importância da doação de órgãos, chega a 2020 num momento particularmente delicado para o segmento. A pandemia causou a queda de doações e de transplantes, além de ter paralisado temporariamente as cirurgias de córneas, fazendo com que as listas de espera aumentassem e estendendo a angústia das pessoas que aguardam por esse sinal de vida. É nesse cenário que a campanha pretende reforçar ainda mais a sua mensagem de solidariedade ao próximo, com ações online e distribuição de informações.

Créditos: Adriano AbreuRogéria Medeiros, coordenadora da Central de Transplantes do RN, reforça a necessidade de plena participação da sociedadeRogéria Medeiros, coordenadora da Central de Transplantes do RN, reforça a necessidade de plena participação da sociedade


“É fundamental ressaltar que sem a plena participação da sociedade não existe transplante”, afirma Rogéria Medeiros, coordenadora da Central Estadual de Transplantes do Rio Grande do Norte. No Estado, ela ressalta que um número de 338 pessoas está esperando por um transplante de córneas, e 199 por um transplante renal. Diante do cenário atual, sem poder realizar eventos presenciais, a campanha também precisou se adaptar aos tempos pandêmicos, tendo que recorrer ao uso de lives, vídeos, e maior difusão de informações nos meios de comunicação para passar sua mensagem de conscientização.

A campanha do Setembro Verde começou no dia 1º do mês com a palestra virtual do publicitário Alexandre Barroso, um paciente transplantado que falou sobre sua trajetória de superação. No próximo dia 17 será realizada uma palestra pela plataforma da Ascom sobre o “Panorama das doações de órgãos no Brasil e no Rio Grande do Norte”. A parte nacional será conduzida pelo Dr. Joel Andrade, coordenador da Central de Transplantes de Santa Catarina, e o panorama do RN será por Rogéria Medeiros. E no dia 29 deste mês Alexandre voltará para a palestra “Um olhar cuidador: a humanização e a doação”. Rogéria ressalta ainda a abertura de espaço em rádios, TVs e jornais, além do conteúdo compartilhado no site, Instagram e Facebook da CET.

Conscientizar com informação se tornou ainda mais preciso, diante do cenário em que a CET está nesse ano. A pandemia contribuiu para aumentar um problema que já era típico no meio de transplantes, que é a relutância familiar na permissão da doação. Na legislação brasileira a doação de órgãos para transplante só pode acontecer através da autorização da família.

Rogéria Medeiros explica que o estado registrou uma queda significativa no número de doares efetivos no primeiro semestre de 2020. A medida é feita em PMP (por milhão de população). “Estamos agora com quatro doadores por milhão de população, o que é muito abaixo da média nacional que está em 15,8 doadores PMP, deixando o Rio Grande do Norte em décimo oitavo lugar no Brasil, em doação de órgãos. Esse fato se deve principalmente ao aumento considerável da taxa de recusa familiar que era de 48% em 2019, e subiu para 74%”, explica. 

O aumento da recusa familiar também se relaciona de várias formas às conseqüências da pandemia. Segundo Rogéria, o isolamento social fez com que caísse bastante o número de possíveis doadores, já que menos pessoas estão se expondo a traumas e acidentes automobilísticos – algumas das principais causas de morte encefálica. Houve também maior dificuldade das equipes que fazem entrevistas e captação em ter acesso às famílias, devido às restrições de visitas a leitos hospitalares, mesmo em UTIs. As pessoas também passaram a ter medo de freqüentar hospitais por causa da pandemia.   

Os processos de análise e entrega do corpo também se tornaram mais longos e sofríveis por ocasião da pandemia. Rogéria explica que é obrigatório para todo possível doador colher o exame da sorologia pra coronavirus, e com isso retardava a liberação do corpo do paciente. “Por isso muitas famílias não queriam passar por esse processo, para poderem receber o corpo mais rapidamente. E além da entrega do corpo, ainda tem todo o atual procedimento dos enterros, que devem ser rápidos e com pouca gente. A família faz tudo para encurtar isso”, diz.

Cirurgias
O número de cirurgias de transplante diminuiu durante a pandemia, mas continuaram a ser realizadas na medida do possível – com exceção dos transplantes de córneas, que continuam suspensos até a presente data. “Os transplantes de fígado e rim continuaram, pois são prioridades na área. “Aqui no RN a gente conseguiu transplantar, mas a maioria do material veio de outros estados, como Pernambuco e Ceará. Mas em todo país o número diminuiu”, aponta Rogéria. Ela ressalta que partir deste ano o estado recebeu autorização do Ministério da Saúde para fazer transplante cardíaco. “Mas ainda estamos esperando autorização da prefeitura pra poder iniciar esse trabalho por aqui”, diz.

A coordenadora do CET-RN afirma que o número de pessoas esperando transplante de córnea praticamente dobrou em relação ao ano passado. Uma das conseqüências da suspensão da cirurgia, que foi estabelecida pelo Ministério da Saúde desde março, sob a justificativa de um alto risco de as equipes cirúrgicas se contaminarem. Sem pandemia, eram realizados 16 transplantes por mês. Já o número de pessoas em espera para transplantes renais aumentou um número de cem, segundo Rogéria Medeiros.

Vivo para contar   
O publicitário Alexandre Barroso é um daqueles que está vivo para contar. Diagnosticado com um estágio avançado de Hepatite C, ele enfrentou seis anos de internação em hospitais, três transplantes de órgãos, e 21 estados de coma. Uma experiência impressionante que o fez modificar a (nova) vida desde 2012, quando passou a relatar a própria história como um incentivo a quem precisa de apoio, reflexão e conscientização. Alexandre escreveu o livro “A última vez que morri”, e participa de várias ações pelo Brasil, incluindo as lives para o Setembro Verde de 2020.

Créditos: CedidaCom estágio avançado de Hepatite C, Alexandre Barroso enfrentou seis anos de internação, três transplantes e 21 estados de comaCom estágio avançado de Hepatite C, Alexandre Barroso enfrentou seis anos de internação, três transplantes e 21 estados de coma


A história de Alexandre iniciou sua mudança drástica quando recebeu o diagnóstico de Hepatite C avançada em 2008. Ele já estava com três nódulos cancerígenos e não sabia. A doença é silenciosa. Foram dois anos de espera até encontrar um fígado compatível, mas o corpo rejeitou e o órgão faliu. O publicitário ficou um ano e meio em hemodiálise, após perder o fígado que recebeu e também os rins. Voltou para a fila de transplantes, precisando de mais órgãos que antes. Vieram outras complicações e 11 cirurgias.

Seis meses depois do último coma, em junho de 2011, chegaram o fígado e os rins que Alexandre tanto esperava. A oportunidade de voltar o fez se engajar na nova missão. “Eu sinto uma gratidão imensa. Penso que esse é um gesto de poucas pessoas. Quando alguém se propõe a doar já virou um super herói na vida e na família dos outros. Minha percepção é que eles vivem dentro de mim. Eu não acho que estou com algo que era do outro, somos um só. Somos vivos, renascidos num corpo. Entendo como uma parceria: empresto o corpo para que aqueles órgãos também vivam dentro de mim”, diz.

Alexandre acredita que é papel de todos que sobrevivem a um transplante, se associar de alguma forma à causa da doação de órgãos. “Dar depoimentos e emprestar nossa experiência para sensibilizar outras pessoas é fundamental, é um incentivo à reflexão. Eu me engajei nisso, me tornei um agente da saúde” diz ele, que viaja o Brasil com palestras, rodas de conversa, e faz lives todas as quintas-feiras. Ele faz questão de informar que é quatro vezes mais provável que alguém venha a precisar de uma doação de órgãos do que ser doador. É uma reflexão a se fazer com a família.

Serviço:
Para assistir as palestras acesse a plataforma: