Cannes se renderá ao 'streaming'?

Publicação: 2019-03-13 00:00:00 | Comentários: 0
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Marcio Delgado
De Londres

Faltando apenas um mês para o Festival de Cannes anunciar a sua lista de filmes concorrendo à Palma de Ouro da 72ª edição do evento, programado para acontecer de 14 a 25 de maio na Riviera Francesa, a maior expectativa talvez não seja a lista de obras disputando o prêmio e sim as regras que envolvem a exibição de filmes em um dos maiores eventos da indústria cinematográfica mundial.

Roma foi rodado em apenas 108 dias e custou $15 Milhões
Roma foi rodado em apenas 108 dias e custou $15 Milhões

Em sua última edição, realizada em maio do ano passado, o festival deixou ‘Roma’, filme dirigido pelo cineasta mexicano Alfonso Cuarón, de fora da programação por não ter sido lançado nas salas de cinema e sim no serviço de streaming de vídeos Netflix. Isso não impediu que o longa ganhasse um leão de Ouro no Festival de Veneza e três Oscar, incluindo estatuetas de melhor filme estrangeiro e melhor diretor para Cuarón, diretor de filmes como ‘Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban’, ‘Gravidade’ e ‘E Sua Mãe Também’.

O veto ao filme 'Roma' é o resultado de um debate que teve início em 2017, quando a Netflix conseguiu emplacar não apenas um, mas dois filmes na mostra competitiva do festival de Cannes daquele ano: ‘Os Meyerowitz: Família Não Se Escolhe’ (The Meyerowitz Stories), do americano Noah Baumbach, e ‘Okja’, dirigido pelo sul-coreano Joon-Ho Bong (O hospedeiro).

Em meio a críticas de proprietários de salas de cinema e sindicatos, a organização do Festival de Cannes anunciou, mesmo antes da 70ª edição do evento ter encerrado, as novas regras em que apenas filmes oficialmente lançados em salas de cinema, na França, poderiam fazer parte da mostra daí para frente.

No entanto o problema não se limita à distribuição de obras que possam ser assistidas fora de casa, nas poltronas de cinemas.

A lei que regula audiovisual na França estipula que filmes que entram em cartaz nas salas de cinema precisam aguardar três anos até que os mesmos possam ser disponibilizados em plataformas para consumo doméstico, como serviços de streaming, e a espera é algo inviável para empresas como a Netflix, que tem um modelo de negócios baseado na venda de assinaturas para espectadores sempre ávidos por novidades que não podem ser encontradas na TV aberta.

É justamente a lei francesa que faz com que filmes como 'Roma' ganhe prêmios ao redor do mundo e não seja considerado para Cannes. Não que a Netflix, que conta com mais de 130 milhões de assinantes ao redor do mundo, tenha burlado as leis americanas de audiovisual, que também requer que um filme seja exibido em salas de cinema antes de concorrerem ao Oscar. A diferença está no período exigido.

Para que o filme de Alfonso Cuarón, baseado em uma babá e doméstica da sua própria infância nos anos 70, pudesse ser considerado, o longa foi exibido em 100 salas de cinema por três semanas. A lei do município onde Los Angeles é inserida prevê que, para estar apto a ser nomeado para uma estatueta do prêmio realizado pela primeira vez em 1929, um filme precisa apenas estar em cartaz por pelo menos sete dias consecutivos, com venda de ingressos, antes da noite de cerimônia do Oscar.

Em 2018 a Netflix não participou da competição.O drama japonês ‘Shoplifters’ do cineasta Hirokazu Kore-eda, foi o vencedor da Palma de Ouro no ano passado. A lista de filmes a serem exibidos na mostra competitiva de Cannes em 2019 vai ser anunciada em meados de abril e será nesta data que o público irá descobrir se as normas que banem do festival francês filmes produzidos por serviços de streaming como Netflix e Amazon Studios serão mais flexíveis – ou se a sétima arte vai continuar sem fazer as pazes com a televisão.












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