Carito Cavalcanti lança o curta metragem "O Bé desse Bode é Ibérico"

Publicação: 2019-07-12 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter

Carito Cavalcanti e Fernando Suassuna se conheceram nos anos 80. Formavam a banda Fluidos, ao lado Manoca Barreto, Bob Crazy e Ricardo Tadeu. Carito, com 20 anos, era o vocalista. E Fernando, com 14, era o cara da bateria. A banda de rock fez fama pelas performances nada convencionais no palco. Foi uma época pulsante que que deixou grandes lembranças – muitas Carito tem fresquinhas na memória. Décadas depois, os dois amigos formam nova parceria, mas não na música, o lance agora é fazer cinema.

Titina Medeiros é atriz do road movie O Bé desse bode é ibérico que apresenta conexões entre o Seridó e Portugal
Titina Medeiros é atriz do road movie O Bé desse bode é ibérico que apresenta conexões entre o Seridó e Portugal

Os primeiros resultados dessa parceria poderão ser vistos nesta sexta-feira (12), com a mostra “O bé desse bode é ibérico & outras experiências sensoriais”. Promovido pela Praieira Filmes e a Produtora Sucesso – respectivamente de Carito e Fernando –, e com o apoio do Sesc, o  evento acontece no Auditório do Sesc Cidade Alta, a partir das 19h30, com entrada gratuita.

Na ocasião serão exibidos quatro curtas: a estreia “O Bé Desse Bode É Ibérico”, além de “O Som da Oficina”, “O Morador do 1101” e “Observando o Mundo Acontecendo”. No conjunto, os trabalhos mostram a versatilidade dos realizadores. Mas, embora diferentes em temática e formato, os filmes trazem em si aspectos em comum. Por exemplo, o olhar poético, típico de Carito, e o aprumo sonoro, à cargo de Fernando.

A reportagem do VIVER pôde assistir aos quatro curtas em sessão no agradável apartamento de Carito, em Petrópolis. Depois dos filmes, claro, rolou um bate papo em clima descontraído, com comes e bebes à disposição.

Carito Cavalcanti assina os quatro filmes que serão exibidos
Carito Cavalcanti assina os quatro filmes que serão exibidos

Carito mal cabia em si de empolgação. Tinha histórias na ponta da língua sobre cada um dos trabalhos. Natural para alguém que sempre teve muito a dizer – e disse, na música, na poesia, e agora nos filmes. Fernando, por outro lado, é mais contido. Ele é daqueles que tem sempre o ouvido atento. E foi com esse ouvido ligado que ele descobriu a história de Rafael Viana, o personagem central do documentário “O Som da Oficina”.

Num ambiente repleto de ruído, Rafael cria suas melodias com mãos sujas de graxa. Ele trabalha como mecânico, mas tem dentro do peito um músico que pede passagem. Guitarrista formado pela Escola de Música da UFRN, é um personagem incrível, simples, carismático e que foi bem registrado por Carito e Fernando, apesar de que ao fim do filme fique a sensação de que a história poderia render mais.

Carito explica que o curta foi uma experiência de processo. No caso, fazer um trabalho cuja captação seria feita em apenas um dia. Seria um trabalho de tiro curto. “Fernando disse que tinha um primo de Jubileu [Filho], guitarrista que trabalhava como mecânico. Então me chamou para contar essa história. Vi ali uma  poética de vida bonita. Um cara super meigo, num trabalho bruto, tocando guitarra pra caralho com a mão cheia de graxa”, diz o poeta audiovisual.

Em “Morador do 1101”, o outro filme dirigido pelos dois amigos – e Eli Santos –, a experiência é no campo da ficção. O que sinaliza um falso documentário no início ganha novos contornos a medida que os personagens vão aparecendo com depoimentos pitorescos, ora dando à narrativa um tom de suspense, ora de comédia.

“Carito tinha acabado de ver um filme, estava empolgadão e me chamou para fazer um falso documentário. Estava de saída do meu apartamento, o 1101, e pensei em aproveitá-lo para algum filme. Dai comecei a rabiscar o roteiro”, lembra Fernando.

Clotilde Tavares é atriz do curta “O Morador do 1101
Clotilde Tavares é atriz do curta “O Morador do 1101"

Mas o roteiro e todas as falas ali presentes era levado para o set de filmagem mais como uma opção de texto do que como algo rígido a ser obedecido pelos atores. “Fazíamos o que tinha no roteiro, com as falas, e depois fazíamos a mesma cena abrindo para o improviso, com o ator já sabendo qual é a situação”, conta Carito. O elenco experiente permitia tal aventura – Titina Medeiros, Cesar Ferrario, Marcos França, Clotilde Tavares, Marcos Bulhões, Kaiony Venâncio. Para concluírem o curta, Carito e Fernando resolveram fazer um curso de edição em vídeo para poderem eles mesmo montarem o filme, já que a quantidade de cenas era enorme e caótica. “Me excita muito esse estado de não saber o que vai acontecer. E acabou que no filme usamos mais as cenas de improvisação”.

Em “Observando o Mundo Acontecendo” a lógica foi outra. Nesse trabalho de direção e roteiro assinado apenas por Carito, a narrativa é uma espécie de colagem poética, em que fragmentos de histórias captadas pelo diretor entre 2013 e 2018 são sequenciados de modo não linear, deixando o espectador bastante solto na história. Um dos melhores momentos é o poema do escritor Alex Nascimento, narrado pelo próprio.

Estreia
O quarto filme da mostra é o que dá nome ao evento: “O bé desse bode é ibérico”. O curta é um híbrido de road movie e ensaio que apresenta conexões entre o Seridó e Portugal. Neste trabalho é onde um dos elementos mais caros para a dupla conduz o filme: o acaso. E, permitindo-se ao acaso, a história central ganha temas tangentes. O problema é que em alguns momentos esses temas tangentes nos tiram de histórias que estamos gostando.

Rafael Viana, é personagem central do  O Som da Oficina
Rafael Viana, é personagem central do 'O Som da Oficina'

“O filme tem um tema central que quer ser contaminado por outros assuntos que de alguma forma estão conectados”, diz Carito. “Esse negócio de filme ensaio me contamina sempre. É um risco abrir muito para o acaso. Mas deixa a coisa mais viva”.

Perguntado se esse estilo de cinema não deixa o espectador muito solto, a ponto de fazer com que ele se perca na história, Carito vê isso como positivo. “Em 'Road movie num quarto fechado' [curta mais antigo de Carito], depois de uma exibição no Festival Goiamum, lembro de alguém que veio comentar comigo que não entendeu nada, mas achou lindo. Pra mim ela entendeu, porque entender a partir do sentir, é uma possibilidade de compreensão”, comenta. “Cara, eu e o Fernando somos de outra formação. Crescemos assistindo Fassbinder, Kurosawa, Wim Wenders, Herzog, um time de cineastas dos anos 80 que é muito foda. Então nossa maneira de ver as coisas tem a ver com essas referências”.

E sobre fazer cinema de guerrilha – os trabalhos são todos independentes, feitos sem nenum recursos de edital –, o artista joga outra reflexão. “A gente tem que fazer o que a gente acredita. O que a gente gosta. Se der certo pra gente conseguir alguma sustentabilidade, ótimo. Porque a gente precisa. Ninguém vai estar se orgulhando de estar fazendo filme de guerrilha. O que a gente queria é tá ganhando, pagando todo mundo. Mas fazer do jeito que a gente faz nos dá autonomia. O importante é fazer”.

Serviço
Mostra “O bé desse bode é ibérico & outras experiências”

Dia 12 de julho, às 19h30

Sesc Cidade Alta

Entrada gratuita.






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