Carlos Gurgel evoca a poesia em língua de fogo

Publicação: 2017-11-24 00:00:00
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Sílvio Santiago
Colaboração para o Viver

“Quando eu nasci, veio um anjo danado e disse: ‘Vai com teu pai fazer a feira todo final de semana no mercado da Cidade Alta’. (...) Foi lá que tive minhas primeiras impressões musicais.” Com essa reminiscência da infância, o poeta Carlos Gurgel inicia sua participação na antologia “Nossa Cidade Natal – Crônicas”, publicada pela Prefeitura do Natal, em 1984.

Créditos: Giovanna HackradtPoeta lança Labaredesconderijo, um cd com 20 poemas musicados em parceria com a musicista norte-americana Heather Dea Jennings.Poeta lança Labaredesconderijo, um cd com 20 poemas musicados em parceria com a musicista norte-americana Heather Dea Jennings.

Poeta lança ''Labaredesconderijo'', um cd com 20 poemas musicados em parceria com a musicista norte-americana Heather Dea Jennings.

Na época – início dos anos 1960 – em que acompanha o antropólogo, folclorista, poeta e professor universitário Deífilo Gurgel (1926-2012) às compras, o menino já compunha seus primeiros poemas, aos quais, mais tarde, agregou a música. Depois de, a partir da década seguinte, publicar diversos livros e realizar outras atividades artísticas, Gurgel edita agora o segundo CD com seus poemas musicados – o primeiro foi “Dramática Gramática”, em 2010. Para compor “Labaredesconderijo”, ele contou com a parceria musical da americana Heather Dea Jennings.

Formada pelo Berklee College of Music e pela Wesleyan University, ambos nos Estados Unidos, a professora de música e computação da Escola de Música da UFRN lançou mão de vários métodos para sonorizar os 20 poemas do disco. Além de valer-se de programas de computador – Reason, Pure, Audacity e Paul Shift foram alguns deles – e de sites, entre os quais o Freesound.org, para criar novas texturas sonoras, Jennings também utilizou sons ambientes.

A maioria foi gravada por ela em cidades que visitou ou morou na América, Europa e Ásia. Ademais, Jennings, que tem de formação erudita, também compôs músicas especialmente para o projeto. Ao mesmo tempo, usou samples (trechos/recortes de músicas) de compositores locais, como Danúbio Gomes (“Suíte”), Pedro Mendes (“Linda Baby”) e de domínio público, a exemplo de “Emoriô”, que integra o repertório do grupo Pau e Lata.

Algumas faixas contaram, ainda, com solos de cordas e sopro executados por músicos especialmente convidados – a própria Jennings participa tocando pífano e sax. Os de guitarra ficaram a cargo de Arthur Ri, enquanto os do exótico didgeridoo (aerofone típico dos aborígenes australianos) coube a Henrique Lopes. Já os de trompete ficaram por conta de Daniel Nec, que também é responsável por toda parte gráfica do CD, incluindo a pintura da capa e as ilustrações do encarte.

“Labaredesconderijo” traz textos exclusivos dos cantores, compositores e produtores Chico César e Alexandre Alves, do multiartista (pintor, escultor e performer) José Roberto Aguilar, do físico Joel Carvalho e dos poetas Carlos Emílio Correia Lima e Nicolas Behr. Durante o seu lançamento, que acontece na quinta-feira 30, a partir das 20h, no Aboca Cultural (rua Frei Miguelinho, 16, Ribeira), Gurgel realizará uma performance com máscara e figurino criados para a ocasião por Plínio Faro e Núbia Albuquerque. Em seguida, haverão apresentações musicais de Arthur Ri e Daniel Nec.

Trajetória
Quando, na década de 1960, ouviu-se pela primeira vez a iniciante produção poética de Carlos Gurgel ele tinha 12 anos. Deu-se durante um dos saraus que aconteciam frequentemente em sua casa, quando seu pai o chamou a fim que lesse um de seus “poeminhas” para os convidados. A plateia era privilegiada. Dentre os convivas estavam Newton Navarro, Berilo Wanderley, Dorian Gray Caldas, Paulo de Tarso, Sanderson Negreiros, Zila Mamede, Celso da Silveira, Myriam Coeli, Ney Leandro de Castro e Miguel Cirilo. Ao final, todos se entusiasmaram com o seu promissor talento.

Créditos: DivulgaçãoHeather Dea Jennings, que  leciona música e computação na UFRN, criou sonoridades para a poesia de GurgelHeather Dea Jennings, que leciona música e computação na UFRN, criou sonoridades para a poesia de Gurgel

Heather Dea Jennings, que leciona música e computação na UFRN, criou sonoridades para a poesia de Gurgel

De lá até os dias atuais, Gurgel percorreu diversas modalidades da arte. Estreou para o grande público em 1971 no Festival do Sol, realizado no estádio Juvenal Lamartine. Em seguida, integrou a banda The Functus, formada por ele e colegas do Colégio Marista, onde estudava. Com ela ganhou prêmios por antológicas apresentações, dentre elas a no Festival de Música, promovido pelo extinto jornal “Diário de Natal”, que aconteceu no Palácio dos Esportes.

A partir daí, foi um dos fundadores da Passeata Poética – que percorria as ruas da Cidade Alta e Ribeira no Dia Nacional da Poesia – e participou de eventos de leitura poética, como o recital no Núcleo de Educação Infantil, da UFRN. Nele, os alunos recitavam 25 poemas seus tendo como cenário painéis do artista visual Flávio Freitas criados a partir de sua obra “Lições da Rua, da Casa e do Jardim”.

Participou também de programas de rádio, como o “Música e Diálogo”, comandado pelos escritores Dailor Varela e Rejane Cardoso na extinta Rádio Rural, e expôs sua produção em pôsteres, a exemplo dos projetos Contumaz, Anacronia, Esse Mundo de Vidas Fáceis e Poesia Circular – no qual, em 1992, poemas de autores locais eram afixados nos ônibus de Natal.

Em sua carreira, Gurgel também realizou performances individuais, como no mineiro “Bêlo Poético” e no gaúcho Congresso Brasileiro de Poesia, e integrou o elenco de duas peças teatrais encenadas no Teatro Alberto Maranhão (“A Bicicleta do Condenado” e “Cemitério dos Automóveis”, ambas do dramaturgo espanhol Fernando Arrabal e dirigidas pelo potiguar Carlos Furtado, em 1973 e 1976, respectivamente) e de um documentário (“Um Dia, Poesia”, de José Ayres, em 1981).

Ativismo artístico
Depois de sua participação na coletânea “Akó” (1976), organizada por Enoch Domingos, Gurgel começou a publicar seus próprios livros ainda na segunda metade dos anos 1970. Começou com o individual “Avisos & Apelos” e “O Arquétipo da Cloaca”, esse a seis mãos com Sávio Ximenes e Carlos Paz, o qual teve a capa e as ilustrações assinadas por Flávio Novaes.

Na década seguinte, publicou “Batman & Robin – Um Poema Concreto da Abstração Vivencial”, em parceria com Eduardo Alexandre Garcia, em 1982, e “Deusa do Além i Pulsações – Um Estudo Estranho e Profundo Sobre a Possibilidade do Povo Nordestino”, em 1983. Seguiram-se “Apaixonada Poesia Louca” (2002), “Dramática Gramática” (2010) e “Mais que Amor” (2013).

Créditos: Divulgação‘Labaredesconderijo’ ganha participações de autores e músicos‘Labaredesconderijo’ ganha participações de autores e músicos

                            'Labaredesconderijo’ ganha participações de autores e músicos

Gurgel participou da criação e realização de icônicos movimentos artísticos que aconteceram em Natal nas décadas de 1970 e 1980. Os festivais do Sol e de Artes do Forte, assim como a Galeria do Povo – mostra de arte visual, poesia e música que acontecia nas paredes e calçadas da Praia dos Artistas –, são marco na história cultural da cidade.

Igualmente importantes foram suas curadorias para os projetos Lança Poesia e Bendita Poesia, promovidos pelo Governo do RN através da Fundação José Augusto, e Cinequanon, realizado pela Prefeitura do Natal por meio da Fundação Cultural Capitania das Artes.

 Nos últimos 40 anos, as contribuições de Gurgel às artes também se estenderam a publicações como os fanzines “Hotel das Estrelas”, “Caras Letradas”, criado e editado por ele, e “Sol que Faltava”, do qual foi cofundador juntamente com Max Fonseca; a revista “Preá”; e os jornais “A República” e esta TRIBUNA DO NORTE, onde assinou a coluna Veludo Poty – atualmente, além de artigos em periódicos locais, ele também é articulista do site Substantivo Plural.

Entre 2004 e 2007, Gurgel deu início à sua carreira no palco com o bem-sucedido espetáculo “Releituras – Poemas e Canções”. Teve como parceira a banda Índice Puro. A cada edição, músicos convidados participavam da récita, entre os quais se destacam o saxofonista Paulo Johnson, o guitarrista Camilo Lemos e os percussionistas Tsé e Jorge Negão. As apresentações aconteceram no Tribunal de Contas do Estado, Cidade da Criança – integrando o Festival Independente de Natal –, Memorial Câmara Cascudo, Auditório da Fiern – abrindo o show de Wagner Tiso e Victor Biglione dentro do projeto Nação Potiguar –, entre outros lugares.

Em 2010, criou e dirigiu outro espetáculo. “Toque de Colher Poemas” reuniu no palco do Buraco da Catita os poetas Carito Cavalcanti, Civone Medeiros, Pedro Quilles e Renata Mar, além do próprio Gurgel e das participações especiais de Petit das Virgens, tocando acordeão, e Flávio Freitas, sax.

Nos últimos anos, Gurgel dedicou-se a conhecer e revelar novos talentos locais e nordestinos. Para tal, promoveu duas edições do sarau “Belo Bafo da Boca”, ambas ocorridas na Pinacoteca do Estado, e o “Chão de Letras”, que aconteceu no parque de Capim Macio dentro do projeto Eco Praça. Com isso, inteiro-se e integrou-se à produção poética da nova geração. O resultado é “Labaredesconderijo”, através do qual faz uma imersão no tempo e nas feridas da alma em busca de uma sinergia maior com quem o lê – e ouve.

Serviço
“Labaredesconderijo”. Álbum com 25 poemas musicados. Autor: Carlos Gurgel com trilha de   Heather Dea Jennings. Dia 30, 20h, no espaço Aboca de Teatro, rua Frei Miguelinho, Ribeira.

Poema

Tempo
(Carlos Gurgel)
Ontem ao te olhar senti o vento parado estático como a sonhar
Pensei ( eu pensei ) que a vida e suas janelas
Jamais poderiam novamente se lembrar
Do que um dia o coração e seus quintais
Revelaram para seus imensos vales e mares:
Somos um sopro no ar tão infinitamente belo e lindo
Partícula que se vai e logo some



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