Carta a um jovem advogado

Publicação: 2020-06-21 00:00:00
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Diógenes da Cunha Lima 
[Escritor, advogado e presidente da ANL]

Meu caro colega, você me pede conselhos em razão de suas aspirações. Como resposta, quero lhe dizer do que aprendi na longa, árdua e gratificante carreira jurídica.

O Direito só tem um caminho, o que leva em direção à Justiça. Entretanto, há muitas veredas que conduzem a essa meta. Compete ao advogado descobrir a vereda capaz de levar ao julgador a fim de que possa ter reconhecido o direito do seu cliente.

Todo conhecimento pode ser útil ao exercício profissional. É necessário aprender com a história, filosofia, literatura, poesia etc. Nada é desprezível. Apesar de ter vivido mais de cinquenta anos nas lides jurídicas, todo dia leio para adquirir alguma lição do Direito. Nunca descuro da tecnologia surgente.

Em minhas aulas no Curso de Direito da UFRN, desejava estimular os alunos para o aproveitamento literário. Citava, por exemplo, um jurista chamado William. Depois, revelava que muito teríamos a aprender em matéria de interpretação de contratos com “O Mercador de Veneza”. O jurista era Shakespeare.

A eles, aconselhei a leitura de autores clássicos, porque o que eles dizem está filtrado pelo tempo. Todo o bom profissional sabe escolher os seus mestres.

A advocacia é uma profissão nobre e empolgante. Deve ser exercida com humildade e altitude moral. Há que tratar juízes e membros do Ministério Público com cordialidade e altivez. Respeitar o entendimento dado em sentenças e pareceres. Isso não significa aceitação, muito menos submissão. Aos colegas do Escritório, eu digo que a advocacia é a única profissão que dispõe, por dia, de vinte e cinco horas. Quando o bom direito for negado, deve-se buscar o êxito nessa vigésima quinta hora.

Nossa meta maior é defender as liberdades públicas e individuais. Conferir direito a quem legitimamente pertence. Receber honorários tem o sentido de honra. Para quem os merecem. Por outro lado, o advogado tem que acolher os desvalidos, humilhados, carentes de justiça. O trabalho “pro-bônus” é essencial. O escritor Humberto de Campos dizia que a estátua da Justiça tinha na mão uma espada. Deveria ter um coração.

A advocacia é, por excelência, a profissão da lealdade. Ser leal à Justiça para ser leal ao seu cliente. Afinal de contas, o Direito é a força social destinada a subjugar forças sociais antiéticas. O advogado deve ser intelectualmente elegante, tanto quanto deve exercer a elegância moral. É absolutamente necessário que ele saiba e acredite que a bondade vence: o otimismo faz da crise êxito.

Meu caro colega, você é virtuoso por herança de nascença, sua família é reconhecida em nossa região, isso é bom. Se tivesse necessariamente de lhe dar um conselho, seria o de que todo dia é tempo de praticar atos de bondade. Faça de sua virtude um hábito, porque se não é hábito não é virtude.

A nossa missão é tão nobre que a divina Escritura aproxima-nos do mais perfeito dos homens quando diz que “temos um Advogado para com o Pai, Jesus Cristo, o Justo”.

Precisamos imitar o advogado celeste, sendo justo.