Carta a Zila

Publicação: 2018-01-14 00:00:00 | Comentários: 0
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Andreia Clara Galvão
Psicanalista

Estou aqui numa madrugada chuvosa a lhe escrever essa carta, quando todos dormem e o meu coração acorda-me. Desperta-me. Como acontece, há séculos e séculos, com quem tem gavetas desarrumadas, sementes em brotação e ideias por parir. É que desde há muito, o coração comanda ritmos no homem. Claro que não falo apenas do músculo importante que temos maestrando sístoles e diástoles, garantindo que o sangue corra em nossas veias. Falo é desse espaço dentro da gente que só sossega por instantes, que nos encosta na parede, que é capaz de nos trazer o céu ou mergulhar no inferno, que nos abre os olhos e nos leva por caminhos improváveis.

Mas intuo que também lhe escrevo para fazer vibrar o infinito da memória em mim e em quem for ler esta carta. Fazer de você e seus escritos motivo pra conversar. Penso que as conversas tecem a vida e fiam as afeições. Conversas, às vezes,  abrem espaços onde parecia não caber mais nenhum pensamento. Conversas ajudam a proteger das poeiras finas mas poderosas do esquecimento, tudo o que vale.

Escrever deve ter muito a ver com o tempo passado. Esse que não cansa de retornar, repetido ou reinventado. Escrever deve ter a ver com não deixar morrer. Escrever deve ter a ver com ir além, com adentrar  o misterioso país que é o futuro onde, talvez, numa madrugada de silêncio e de estrelas, alguém leia poesias e escute, ainda que estando sertão afora,  a música absoluta das "marés da infância", das "praias mansas", das marinhas brisas ou do "mar em êxtase".

Lacan, o psicanalista francês, falou que a palavra é a morte da coisa. Assim, quando digo "Milharal" e "Avô", já não preciso nem do campo nem da pessoa em si, pois a palavra tem a potência de dizer e de fazer existir o que, inclusive, já não é mais.

Deve ser por isso que estou eu aqui, acordada, dentro do silêncio, tentando conversar com você só pra lhe contar de um lume de estrelas que eu vi, que encheram meus olhos recém-cirurgiados, doendo e agradecidos de enxergar. Era de novo a madrugada, talvez praia, talvez sertão. Tudo muito e muito escuro. A imensidão. Olhando o alto, era o veludo azul profundo e infinito, coalhado de estrelas cintilantes. Era o enorme, o negro e as centelhas. Iluminuras. Os desenhos céu afora. Era o mistério. Era também a casa antiga onde dormiam os vivos de agora e os mortos de então. E dos seus sonos, transbordavam pelo telhado, outros zilhões de estrelas luminosas.

Olhando de fora, céu e casa cintilavam. Estrelas iluminavam um e outro. De tal modo que o deserto ali, era a visão de um manto interminável de estrelas, cobrindo o céu e o telhado da casa alpedrada cujas telhas levemente afastadas deixavam traspassar a luz de dentro. Nesta madrugada que lhe conto, céu e telhado eram escuros e plenos de flores de luz. As estrelas  nas noites de Van Gogh.

Dizem que as estrelas que vemos estão mortas. Então elas são parecidas com a palavras. Mortos que lançam  luzes, lumes e centelhas. Clarividências e alentos. Então elas parecem com poetas e seus poemas. Esses que acompanham a gente nas noites insones, e nos ajudam a compreender que nenhuma gaveta dá conta da alma dos homens e que melhor é aceita-la evanescente, emparelhada com as estrelas e os escuros veludos, acordando quando tudo dorme, escrevendo cartas para não deixar morrer, com fomes inexplicáveis, colhendo girassóis na neve e mares seculares num ser-tão seco e pulsante.

Em meio das estrelas, madrugada adentro, "penso-te". E tal como você fez a Manoel, no lume imenso de estrelas, invento e vejo sua estrela. No desejo de guarda-la viva. Enquanto escuto a chuva na madrugada, fazendo germinar as sementes, brancas ou multicores. Sementes de alguma flor nascente.

Pra você, Zila: Estrelas, flores e sementes. E mais uns invisíveis fios desses que fazem com que os rendados continuem se tecendo, a vida se fiando e as afeições garantindo os mistérios. Esses que juntam o que já nem teria como se ligar, que desconsideram abismos e não dão a mínima para as distancias...

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