Carta de amor

Publicação: 2021-03-03 00:00:00
Rubens Lemos Filho
rubinholemos@gmail.com

No ludo com os pés, o passe era a carta de amor. A palavra do sentimento fluindo das chuteiras de homens apaixonados e preciosistas. A mensagem amorosa e irrecusável saía primeiro da imaginação do que simplesmente dos arremates, dos chutes banais ou do escapismo da bola por toques toscos e deselegantes. 

Créditos: Divulgação

Com o passe no futebol-arte, havia gol e as bolas estufando  redes proliferavam na proporção de uma cachoeira jorrando infinita. Porque existiam os cerebrais, os superdotados de pensamento e técnica, os poetas de versos em visão de lince. 

Os armadores, assim eles eram chamados, sempre foram os preferenciais nas peladas, nas velhas peneiras, que recebiam centenas de garotos mirrados e pobres, reis em seus redutos e reprovados na concorrência com os melhores. 

Didi e Gerson simbolizam essa nobreza de maestria. Jogavam sem a necessidade banal da correria burra e dos toques laterais. Suavam pouco, não eram estivadores. Enfiavam, de curva, bolas de 40 a 50 metros deixando os artilheiros prontos para o abate das defesas. 

Didi era mais charmoso. Didi para mim é o protótipo da perfeição. Batia de curva, liderava, decidia campeonatos em toques e enfiadas que pareciam verdadeiros passaportes à glória do gol. Personalidade de rei charmoso.

Gerson, o Canhota de Ouro, tinha a malícia do peladeiro calculista. Se pudesse pressentir o oponente com má intenção, quebrava-o antes. Assim fez com o peruano De La Torre em 1969(Brasil 3x2), que veio faminto e saiu com fratura exposta. Gerson deixou o pé esperando a canela do inimigo. 

Didi era de chancelaria, Gerson, de infantaria. Gerson driblava pouco, tocava pouco e abria o campo em leque para os companheiros, ordenando, como o técnico que toda vida foi na prática, as tabelas e perfeições como o arremesso canhoto  que deixou Jairzinho amaciar no peito  antes de fazer o terceiro do 4x1 do Tricampeonato sobre a Itália em 1970. 

Baniram os mensageiros do futebol. Erram passe de cinco metros. Um marombado lateral do Inter correu 50 metros para passar com a burocracia profissional de um carteiro,  a bola ao adversário, volante do Corinthians. 

Um insensível dentre todos que maltratam a bola para entregá-la ao colega de time na viagem em estrada esburacada. O passe acabou. Os limitados não compreendem o calor dos amantes missivistas. Sem caneta, papel e inspiração. 

Equívoco 
Ao contrário do que publicou a coluna na sexta-feira passada, os jornalistas Juca Kfouri e José Trajano não receberam nenhum centavo de qualquer verba pública, o que comprova a lisura dos dois. Esclarecido. Erro assumido e desculpa  sem constrangimento. 

Amante 
E o assunto areja. Tratemos de amantes da bola, hoje Zico faz 67 anos. Se quisesse, jogaria em qualquer time do Brasil. Faria a bola correr, não gasta suor à toa. A bola se oferecia a Zico sem pudor, no rompante das mulheres que se jogam, frenéticas, à paixão. 

Em Natal 
Zico jogou cinco vezes. A primeira, em 1973, vitória sobre o América por 3x0. Em 1976, empate em 0x0 com o América e derrota no duelo com o volante Zeca. Em 1979, vitória de 2x1 sobre a seleção da capital. Em 1982, 3x1 na Alemanha Oriental pela seleção brasileira e 1985, o único gol no 1x0 sobre a seleção de Natal. 

Suspense 
Com Wellington no gol e Helitão na defesa, o ABC viverá uma temporada de suspense. Os dois, lentos, inseguros e sempre atrasados, não suportam jogo mais difícil. 

Misto melhor 
O mistão do Ceará é melhor que o ABC, que sentiu a falta dos lançamentos de Marcos Antônio. Empate(1x1) insosso.

A César 
O que  é devido. O presidente da Federação, José Vanildo, culpado injustamente pelo mau futebol de dois clubes na Série D, foi decisivo para a conquista de patrocínios de plano de saúde para ABC e América. Se houvesse especialista em competência futebolística, os dois times deveriam passar por consultas e exames. 

Havelange 
É muito cômodo culpar José Vanildo, que era presidente quando um time estava na Série A e outro subia para a B. Ele não contrata nem faz distrato de compromissos assinados com pernas de pau de envergonhar freirinhas. 

Mudou 
O Brasil ganhou três Copas com João Havelange no comando. E ele foi importante. Depois, prostituiu-se. 

Devendo 
Mesmo ganhando as duas primeiras partidas, o América ainda está distante de garantir segurança ao seu torcedor. O América foi péssimo contra o Santa Cruz. Nenhum setor funcionou. O time chegava à intermediária e não conseguia progredir. 

Santa Cruz 
O gol anulado do Santa Cruz foi mais legítimo do que Coca-Cola em garrafa de vidro. 

Decadência 
A Série B terá cinco campeões brasileiros: Vasco, Coritiba, Botafogo, Cruzeiro e Guarani. O que sentencia o futuro : um, dois  ou todos  por lá também em  2022 em função do equilíbrio entre as equipes. O Vasco, hoje, é padrão Série C. Ou até mesmo a D, jogando contra Cantagalo ou Boavista. 

Mais fracasso 
O Guarani de Campinas, outro que foi campeão brasileiro, em 1978, com timaço comandado pelos meias Zenon e Renato e o artilheiro Careca, não conseguiu vaga para a Copa do Brasil. 






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