Viver
Cartografias da memória
Publicado: 00:00:00 - 15/12/2011 Atualizado: 20:49:51 - 14/12/2011
Tádzio França - repórter

O artista plástico Fernando Gurgel resgata mentalmente imagens de sua infância no bairro do Tirol e relembra uma cidade de paisagens horizontais, verdes e harmoniosas, quase bucólicas. Essa cidade não existe mais. A mente registra e o corpo sente. Esse choque e seu posterior registro reflexivo levaram à criação de “Tempo Concreto”, exposição de telas em acrílico que Gurgel abre hoje na galeria da Aliança Francesa, às 20h. A mostra, que ficará de 15 a 23 de dezembro, é um exercício de observação sobre os efeitos  que as mudanças de tempo e espaço exercem sobre o cotidiano humano. 
Dois homens se encaram: um é o recorte de uma cidade verde e arbórea, e o outro, da cidade cinza, repleta de espigões de concreto. Há um diálogo possível?
As pinturas de Gurgel retratam silhuetas de homens e mulheres destacadas sobre traços cartográficos, às voltas com relógios a marcar o tempo de suas vidas. “O espaço urbano, a arquitetura e o tempo são os três elementos básicos relacionados nessa exposição. Eu sempre trabalhei a figura na minha arte, tendo o homem como imagem central. De uns tempos para cá resolvi fazer uma ponte entre esse traço figurativo e o contexto urbano”, explica. Segundo ele, de sete anos para cá surgiu a motivação para analisar as mudanças pelas quais a cidade estava passando. As nove telas expostas são resultado deste período de reflexão.

A vivência, pura e simples, deu forma a “Tempo Concreto”. Andar pelas ruas e ver. Bastou isso para Gurgel saber o que deveria fazer. “Não sou de fazer anotações no papel. Tudo que observo fica registrado na minha mente, vou recolhendo os dados na cabeça, as imagens que se tornarão a obra. É como se a caminhada fosse uma estratégia artística”, fala. Gurgel também resgata lembranças antigas, ao mesmo tempo que as conecta a informações contemporâneas, sobre questões de urbanismo e meio ambiente, bastante debatidas nos últimos anos.

“Natal está sendo remodelada todos os dias. A selva de pedra é uma realidade que já se instaurou entre nós. Vivemos numa cidade verticalizada, uma realidade concreta e de concreto armado”, analisa Gurgel, sobre o mote de sua exposição. A capital potiguar, antes brejeira e agora redesenhada em formas cosmopolitas, está representada de várias formas na nova obra de Gurgel. No quadro “Partes”, por exemplo, dois homens se encaram: um é o recorte de uma cidade verde e arbórea, e o outro, da cidade cinza repleta de espigões de concreto. Há um diálogo possível? Já em “Como faço para chegar a ti”, duas pessoas separadas nas extremidades da tela, com um relógio ao centro, representam a angústia da separação numa cidade cada vez maior e complexa. Em “Oceano em pedaços” - sem  a figura humana – um cenário opressivo de prédios é pontuado por piscinas, o único “escape”  daquela realidade.

O embate entre o “corpo-cidade” proposto por Fernando Gurgel é mais que uma visão artística do mundo, é uma realidade cotidiana vivida por todos. “Eu tenho na minha arte uma raiz modernista, mas plantada em solo contemporâneo. Os elementos gráficos e concretos que me influenciam estão sempre ligados a questões cotidianas, que atuam sobre as pessoas e seu comportamento diante delas”, explica ele, que define seu trabalho como essencialmente “racional”. “Não sou de inspirações momentâneas. Tudo que faço já está registrado na minha cabeça, e tem que sair daquele jeito”, completa.

A volta das cores na obra de Fernando Gurgel

“Tempo Concreto” também resgata a presença forte das cores na obra de Fernando Gurgel. “Após um tempo bastante monocromático, só usando preto, branco e cinza, decidi retornar ao uso da cor. Eu naturalmente comecei a sentir falta. A cor tem um carisma, uma força que puxa o observador para dentro da obra. Trouxe as cores de volta para ter essa interação”, diz ele, entre telas que exibem desenhos verdes, vermelhos, azuis, pretos, e tons pastéis. O processo, em si, é um desafio a mais para Gurgel, devido o seu daltonismo. “O trabalho em acrílico permite muitas camadas, portanto eu refaço quantas vezes for preciso. Mas ainda é algo complicado pra mim encaixar as cores”, afirma. A sensibilidade se une à já citada racionalidade nestas horas. Gurgel considera sua produção pequena, mas compulsiva. “Não tenho uma obra grande, mas trabalho todo dia. Prefiro ficar muito tempo burilando uma ideia do que produzir aos montes”.

Ele fez suas primeira exposição aos 10 anos de idade. Já participou de diversas mostras individuais e coletivas em diversas cidades do Brasil e exterior, entre Alemanha, Espanha, Portugal e Estados Unidos. Ganhou vários prêmios e participações em salões de arte em Natal e outras capitais do País.

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