Casa da Ribeira foca em formação e terá aulas virtuais de dramaturgia

Publicação: 2020-05-23 00:00:00
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Tádzio França
Repórter      

A pandemia fez descer o pano sobre todos os palcos de teatro por tempo indeterminado. Quem é do segmento foi obrigado a pensar em novas atuações enquanto o drama não acaba. É nesse cenário que o ator, diretor e dramaturgo Henrique Fontes vai encarar seu mais novo papel: o de professor. Será em “Dramaturgências – Dramaturgia em Tempos Pandêmicos”, o mini curso que ele ministrará online em junho, e que terá sua aula inaugural neste sábado, às 15h. As inscrições gratuitas devem ser feitas no sympla, com exibição na plataforma Zoom.

Créditos: Alex RégisHenrique Fontes vai encarar seu mais novo papel: o de professorHenrique Fontes vai encarar seu mais novo papel: o de professor


No palco virtual, Henrique vai falar sobre um dos assuntos que mais aprecia: o fazer teatral através da escrita. “O objetivo é estimular as pessoas que gostam de escrever ou que tenham alguma afinidade com a leitura escrita para a criação de uma dramaturgia, seja gente do teatro ou não”, diz. O primeiro encontro terá a pandemia do Covid-19 como tema, por ser o assunto mais evidente e por Henrique achar necessário criar uma narrativa para esse momento. “É uma forma de a gente facilitar caminhos”, diz. Serão três sábados de junho e, a depender da procura, o projeto manterá a continuidade.

A oficina online “Dramaturgências” é a primeira ação da Casa da Ribeira após a campanha #ficacasadaribeira, que de 27 de março a 06 de abril movimentou a uma vaquinha de financiamento coletivo para não fechar as portas e garantir os compromissos com os funcionários do teatro. A campanha atingiu 56% da meta. “O movimento de venda de vauchers e brindes deu super certo, muita gente apoiou, e garantiu a sobrevida da Casa até junho. Mas precisamos seguir em frente com mais ações”, diz Henrique. O dinheiro obtido também viabilizou um projeto de contações de histórias, que virá em breve.

Educativo
Henrique Fontes ressalta que o foco da Casa da Ribeira nos tempos pandêmicos será a formação. “Queremos fortalecer as ações educativas do nosso espaço cultural. Para o momento, estamos acreditando muito mais nos projetos de formação online do que em outros”, afirma. 

Segundo o dramaturgo, por mais que haja alternativas para o teatro hoje, com os espetáculos feitos ao vivo pela internet, os próprios realizadores estão de acordo que aquilo não é propriamente teatro, mas apenas o uso das ferramentas do teatro para uma transmissão. “A verdade é que por não estar na presença física, perde-se muito”, enfatiza.

Os espetáculos, portanto, voltarão a ser prioridade na Casa da Ribeira só quando puderem ser feitos presencialmente outra vez. “Nós entendemos que o educativo tem um potencial muito grande para ser desenvolvido através da internet, até porque pessoas de outros estados, até de outros países, vão poder participar da formação à distância. A gente sente falta do calor das pessoas, da presença, mas essa é uma alternativa que podemos fazer bem neste momento”, analisa.

Mesmo com os palcos reais parados, a dramaturgia continua em movimento entre o grupo Carmin, do qual Henrique faz parte. A trupe está trabalhando na montagem de dois espetáculos que já estavam em planejamento - de forma virtual, cada um em sua casa, claro. Um será a remontagem de “Pobres de marré”, primeira peça do grupo, e também a montagem de “Gente de classe”, que é o novo texto. A previsão seria de estrear a nova peça em novembro, mas possivelmente vai ficar só para o ano que vem. Já “Pobres”, o grupo pretende que seja apresentada ainda este ano.

A pandemia atingiu em cheio a agenda do grupo Carmin, que tinha seis semanas de “Jacy” no Sesi Centro do Rio de Janeiro, entre abril e maio, além de “A invenção do Nordeste”no Sesc Jacarepaguá, e algumas outras pelo Nordeste que também foram adiadas. Henrique explica que o grupo tem estudado e pensado como fazer a aproximação com o online. “A gente criou uma cena do ‘Gente de Classe’ que foi aprovado em edital do Itaú, e vamos executar agora em junho. Também fomos aprovados num edital da Fundação José Augusto. Estamos contando com essa grana para garantir a sobrevivência”, diz.

A situação difícil é compartilhada entre todos das artes cênicas. “A gente está vivendo do que consegue fazer no momento. Quem tinha outras ocupações além do teatro está se segurando nisso, mas quem vive exclusivamente do teatro está recorrendo a parentes, amigos, a alguma economia que fez, enfim, se virando”, diz. O ator ressalta que o papel do poder público será fundamental para amenizar essa situação.

Henrique lamenta que no caso do trabalhador de cultura as ações sejam sempre as mais morosas. “É gritante pra gente, porque até para ser reconhecido como trabalhador e entrar na lei da renda básica emergencial, teve que se fazer um projeto de lei para declarar que os artistas precisavam do auxílio”, diz. O ator lembra que mesmo a cultura mobilizando 5% do PIB do Brasil, gerando 12 vezes mais empregos que a indústria automobilística, por exemplo, ainda se que questiona se os trabalhadores da cultura são mesmo trabalhadores. “É o momento dos gestores públicos entenderem de vez seu papel”, conclui.   







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