Casa nova com amor

Publicação: 2019-02-03 00:00:00 | Comentários: 0
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Tádzio França
Repórter

Melhorar a aparência da própria casa é aquele tipo de desejo comum que sempre esbarra na questão do orçamento. E muita gente não tem condições financeiras de levar à frente esse objetivo. Foi assim que um grupo de engenheiros, estudantes e designers criou o projeto voluntário ReforAmar: trata-se de uma série de ações voltadas à reforma de residências humildes, realizada de forma colaborativa entre os envolvidos. O projeto já está em movimento há seis meses, e em 2019 pretende aumentar seu raio de ações para além de casas, chegando a asilos e orfanatos. Patrocinadores são bem vindos.
Estudante de engenharia Fernanda Silmara sabe a importância do coletivo para melhorar a vida e a autoestima em um lar
Estudante de engenharia Fernanda Silmara sabe a importância do coletivo para melhorar a vida e a autoestima em um lar

A vontade de criar a ReforAmar nasceu da experiência pessoal da  idealizadora e diretora-geral do projeto, Fernanda Silmara, estudante de engenharia civil da UnP e de tecnologia em construção de edifícios do IFRN. Quando criança, ela morava numa típica casa simples e antiga do Alecrim, construída de taipa e tijolos brancos. “Eu não gostava daquela casa. Quando chovia, o cheiro das paredes de taipa era horrível. Eu tinha vergonha de levar meus amigos pra lá. Isso marca muito uma criança”, conta.

A casa que tanto incomodava a futura engenheira logo deveria passar por uma reforma. Mas a obra foi interrompida por uma série de dificuldades. O perrengue só se resolveu com a ajuda do irmão e do tio, que conseguiram terminar a obra – a casa foi derrubada e toda reconstruída em alvenaria. “Eu pensei em como esse esforço conjunto foi decisivo para deixar a casa com uma cara bem melhor. Quando entrei no curso de engenharia, já pensava em criar um serviço voluntário baseado nessa experiência”, diz.

De casa em casa

Após ver que não havia nenhum trabalho voluntário na área de construção civil, Fernanda decidiu criar o próprio. A estudante de engenharia convocou cinco amigos próximos que se identificaram com a ideia, e colocou a ReforAmar em ação. A primeira casa foi trabalhada em julho do ano passado. A análise é feita “no olho”, e logo depois traçado um perfil socioeconômico para saber se o contemplado se encaixa no projeto.

A equipe escolheu uma residência no Alecrim, onde mora uma senhora artesã com o marido aposentado. “Não basta a casa estar em mau estado. A gente quer conhecer a pessoa, saber seu perfil, sua história, as preferências dela”, ressalta. A fachada foi limpa e pintada. Os donos da casa adoraram o resultado, segundo ela.

Apesar de o projeto ainda ser pequeno e recente, as ações prévias são bem planejadas. Fernanda explica que, após a casa ser escolhida, é realizado um levantamento arquitetônico da construção, com análise da estrutura e medições. O morador é consultado sobre suas preferências, e logo é projetada uma maquete eletrônica para que ele possa visualizar como o serviço ficará. “Quando o morador aprova, vamos para a fase de orçamento e levantamento do material – a mais difícil”, ressalta.

A ReforAmar não cobra nada do contemplado, e levanta todo o material por conta própria. A ação é divulgada em sua página do Instagram - que já conta com 2.500 seguidores. “Na página a  gente lança o projeto, mostra a casa, conta a história do morador, e o que precisamos. Passamos cerca de duas semanas arrecadando o dinheiro para compra de materiais. A partir daí programamos o dia da ação”, explica. Fernanda ressalta que muita gente se dispõe a ajudar pessoalmente no dia do serviço.

Cada integrante da ReforAmar atua no projeto utilizando bem suas especialidades: o engenheiro civil Rafael Campos é especializado em patologias no segmento de construção civil, e analisa a estrutura do prédio para saber se a reforma é viável; Danilo Soares, que é designer de interiores e técnico em edificações, projeta a maquete eletrônica e consulta o contemplado; Mozart Dantas  é TI, planeja e administra a reforma; e ainda o engenheiro civil Júllian Araújo, e a advogada Girlande Oliveira, complementando os processos.

Até o momento, cinco construções foram trabalhadas pelo projeto. Dentre elas, a única não residencial foi o asilo Lar da Vovozinha. Em quase todas, a ação ficou restrita à pintura e restauração da fachada. “Nós somos um projeto ainda pequeno e, apesar das doações, nossas ações são limitadas pelo que arrecadamos. Por isso nos atemos às fachadas, que demandam orçamentos menores. Outros cômodos da casa exigiriam mais dinheiro, e a gente não tem a certeza de alcançar um orçamento muito alto”, explica Danilo Soares.

Até mesmo o trabalho na fachada pode exigir mais detalhes – e dinheiro. “Quando o reboco da fachada está muito comprometido, nós retiramos tudo e fazemos um novo. Na primeira casa, por exemplo, optamos por uma superfície que estivesse com bom aspecto, para fazer só os serviços de pintura. O orçamento deu pouco mais de 200 reais, e bancamos tudo do nosso bolso”, relata Danilo. Fernanda ressalta outra limitação: mão de obra especializada. “Só temos um pedreiro voluntário até o momento. Teríamos dificuldade para uma obra que exigisse trabalhos mais complexos”, diz.

A procura por um bom patrocínio é o maior objetivo da ReforAmar em 2019. “Já temos um pequeno portfólio para apresentar, e vamos continuar batendo nas portas das grandes lojas de material de construção. Elas têm poder aquisitivo para bancar algumas necessidades, e ainda podem ajudar muito na questão de material, por exemplo, com tintas que estão próximas do vencimento, e na cerâmica, que elas compram em escalas muito grandes”, afirma Danilo.

Apesar dos orçamentos e dos possíveis patrocinadores que ainda não se sensibilizaram o suficiente com a causa, o projeto segue com seu funcionamento pleno em 2019. “Já fizemos todo o planejamento para o ano. Estamos programando seis lugares para trabalhar. Quase não precisamos mais procurar, nossos seguidores enviam indicações”, afirma Fernanda. Para o grupo, o projeto é fonte de satisfação pessoal, conhecimento e humanidade. “A gente não esquece as pessoas após o trabalho. Voltamos depois, criamos laços. Além disso, nós colocamos em prática o que aprendemos na sala de aula. Estamos aprendendo e motivando as pessoas a fazer o bem”, diz.

Colaborou: Cinthia Lopes




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