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Natal
Casos de sífilis em grávidas aumentam 37%, alerta MEJC
Publicado: 00:00:00 - 27/10/2017 Atualizado: 14:34:38 - 27/10/2017
Mariana Ceci
Repórter

Ainda no século 15, a sífilis provocou uma das primeiras epidemias globais das quais se tem registro. Transmitida pela bactéria Treponema pallidum, através de relações sexuais ou de mãe para filho, atualmente a doença possui um tratamento simples e eficaz caso seja identificada nos primeiros estágios, e sua prevenção é relativamente simples, o uso de camisinha. Mesmo assim, apenas neste ano, a Maternidade Escola Januário Cicco (MEJC), referência no atendimento de gravidez de alto risco na cidade, já aponta um aumento de 37% no número de casos em mulheres grávidas. Foram 96 casos, contra uma média que vinha sendo de 70 notificações. Em todo o Rio Grande do Norte, a doença cresceu 30,5% em número de casos entre 2015 e 2016. A sífilis não é um caso isolado: de acordo com dados da Secretaria do Estado de Saúde Pública (Sesap), entre 2015 e 2016, o número de casos de infecção por HIV, o vírus da AIDS, no RN, teve aumento de 53,7%, com  538 casos registrados no ano passado, o que significa 188 a mais do que no ano anterior, reflexo de um quadro geral de aumento nas Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs) no país.

Ana Silva
Entre homens, ainda existe resistência em procurar os serviços de saúde para realizar exames e testes

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Os motivos para a nova epidemia são muitos: a redução no número de campanhas para estimular o uso de preservativos, o tabu em torno das infecções sexualmente transmissíveis e outro, menos visível a princípio, mas determinante: o aumento da pobreza. De acordo com a médica infectologista Fabiana Filgueira, da MEJC, a recessão que levou quase um milhão de famílias para abaixo da linha de pobreza está diretamente ligada ao aumento do número de infecções.

“Esse é um fenômeno que já foi estudado. O aumento da pobreza está diretamente ligado ao distanciamento das pessoas da prevenção e da atenção médica básica como o pré-natal, no caso das grávidas. Além disso, também está relacionada ao aumento no consumo de drogas como o crack, que também está ligado à prostituição. É um ciclo que, eventualmente, leva à ausência de proteção e dos cuidados com a saúde, e ao aumento no número de doenças registradas”, disse a médica.

A afirmação pode ser verificada na prática por números coletados pela mestre em enfermagem Samara Maia. Em sua dissertação, ela fez pesquisa, na qual apresenta a divisão dos casos de sífilis  na capital potiguar por bairros. Felipe Camarão e Quintas, ambos fora do circuito da “zona nobre” da cidade, registraram maior número de casos, no ano de 2016.

Além do aumento da pobreza, no entanto, outro fator mais antigo também contribui para o aumento de casos: o tabu sobre as doenças sexualmente transmissíveis. Foi o caso de Veronica*, que estava sendo tratada na MEJC juntamente com sua filha, Eduarda*, que acabara de nascer. Veronica descobriu, ainda no primeiro exame do pré-natal, que estava infectada com a sífilis. Ela chegou a realizar o tratamento com penicilina, e ficou livre da doença. Apesar de não retornar, a sífilis pode ser transmitida novamente e, como seu marido não havia realizado o tratamento, ela foi novamente infectada.

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Fabiana Filgueira alerta para o aumento de 53,7% nos casos de Aids

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Essa nova infecção só foi identificada em um estágio muito avançado da gravidez, e a filha de Veronica nasceu com a doença congênita. Ela vai passar 10 dias internada na maternidade recebendo tratamento, juntamente com a mãe e, agora, o pai também. “É uma situação que nós vemos bastante. Principalmente, entre os homens, ainda existe uma resistência em procurar os serviços de saúde para realizar exames e testes que poderiam identificar esse tipo de infecção logo no início, e evitar que ela seja transmitida para outros parceiros sexuais. Infelizmente, ainda há um tabu muito grande em torno disso”, disse Fabiana Filgueira.

*Nomes fictícios criados para proteger a identidade das fontes.

Números no RN
Casos de infecção pelo HIV e Sífilis no Rio Grande do Norte

Infecção pelo vírus HIV
2016 – 538
2015 - 350
188 notificações a mais
53,7% de crescimento

Casos de sífilis adquirida
2016 - 837
2015 - 641
196 notificações a mais
30,5% de crescimento

96 casos de sífilis em gestantes já foram registrados em 2017 pela Maternidade Escola Januário Cicco. Em média, a MEJC costuma registrar anualmente 70 casos, o já constitui um aumento de 37%

Fonte:
Programa Estadual de IST/AIDS e Hepatites Virais

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