Causos paroquiais

Publicação: 2019-09-17 00:00:00 | Comentários: 0
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Valério Mesquita
Escritor

Nosso confrade e amigo padre João Medeiros Filho coleciona uns causos de seus colegas sacerdotes, e sempre nos conta alguns, tirados do “Primeiro Livro”, publicáveis e direcionados “a qualquer idade”, segundo expressão do inesquecível monsenhor Expedito.

01) Padre José Luiz Silva, ex-pároco de Pendências, era um homem inteligente, brincalhão e gozador. Certa feita, o clero potiguar estava reunido em retiro, no Centro de Treinamento de Ponta Negra. Dom Eugênio Sales, administrador apostólico, lançou uma pergunta aos presbíteros, sequioso de saber que qualidades e virtudes deveriam marcar seus padres. Estava presente o cônego Rui Miranda, tido como um homem austero, rigoroso e valente. Zé Luiz toma a palavra e afirma, num tom sarcástico e peralta, brincando com a língua portuguesa e mostrando a ambiguidade das palavras: “Dom Eugênio, a caridade é a mais nobre das virtudes. Sem a caridade o padre rui”.

02) Padre João Penha Filho começou sua vida sacerdotal na paróquia de Currais Novos, auxiliando monsenhor Paulo Herôncio. Deslocava-se semanalmente a Cerro Corá e Lagoa Nova. O padre tinha uma voz sibilante e a língua um pouco presa. Pronunciava o “s” com som de “x”. Além de seu ofício sacerdotal, dedicava-se a consultar e prescrever remédios para a população pobre. Certo dia, em Lagoa Nova, um matuto achegou-se para a consulta com o “vigário doutor” como o chamavam. O eclesiástico examinou o paciente – e vendo suas partes pudicas – diagnosticou: “O xenhor está com xiflis”. O matuto não gostou, pois decodificou a palavra como chifre. O paciente chamou o delegado, denunciando o padre de calúnia a sua esposa. Ninguém entendia o vigário, que super nervoso, sibilava ainda mais. A salvação dele foi escrever o diagnóstico e acrescentar a seguinte frase: “O cabra é macho!” Ainda deu uma de literato, escrevendo para o delegado a frase de Exupéry: “A linguagem é a fonte de mal entendidos”.

03) Monsenhor Alair Vilar foi pároco de Santa Cruz, durante anos. Morava com sua mãe, dona Anunciada. Seus vizinhos tinham um papagaio falador e a mãe do vigário sentiu o desejo de ter também uma ave idêntica. Um papagaio foi presenteado ao vigário da cidade, segundo o desejo da sua genitora. Dona Anunciada com a ajuda dos vizinhos começou a ensinar o papagaio a falar. Era desejo da mãe de padre Alair que ele voltasse para Natal. Dona Anunciada ensinou as primeiras palavras à ave: “Padre Alair, vá para Natal. Peça ao bispo”. Mas, deixa que o papagaio também tinha outra professora na pessoa da doméstica, que não morria de amores pela sua patroa. De passagem por Santa Cruz, parou na casa paroquial dom Delgado, vindo de Caicó. Dona Anunciada quis demonstrar ao bispo a sabedoria do papagaio, que repetiu a frase ensinada. Mas, a matrona Vilar aborreceu o papagaio e este desferiu a vingança verbal: “Vá para o inferno, velha danada”. Padre Alair riu minutos seguidos, mas teve de despedir papagaio e doméstica para glória de dona Anunciada.

04) Padre Benedito Basílio Alves era piauiense e aqui foi recebido por dom Joaquim Almeida, que fora bispo de Teresina. Parece que, apesar de bom sacerdote, o velho padre tornou-se ranzinza e de pouca conversa. Tinha um puxado e um pouco de dispneia, característico de fumante. Usava cigarros Emira e Astória, que eram baratos, mas de forte odor. Certa feita, o piauiense estava no altar assistindo dom Marcolino numa missa pontifical. O sacerdote devia ser incensado por um acólito irreverente e que não tinha simpatia pelo padre Benedito. O acólito botou muito incenso no turíbulo e disse para o velho padre: “Te ajeita, velho feio, que lá vai fumaça”.  O sacerdote ficou asfixiado e correu para a sacristia e nunca mais fumou diante dos seminaristas.

05) Padre João Medeiros Filho conta a seu respeito muitos causos. Quando chegou como aluno da Universidade de Louvaina, na Bélgica, falava um francês precário com o sotaque jucurutuense. Certa feita, diante dos colegas, num intervalo de aula, viu uma de suas colegas de faculdade com os cadarços dos sapatos soltos e haveria uma queda certa, se ela pisasse nos ditos cadarços. O seminarista jucurutuense pensou como se dizia pisar em francês. Sabia que era a mesma palavra em espanhol e resolveu traduzir por “pisser” em francês. Resolveu advertir sua colega: “Senhorita, cuidado, você vai “pisser” nos seus cadarços e levar uma queda feia”. Risos gerais e a moça enraivecida mandou o colega para aquele lugar. Acontece que “pisser” em francês é urinar. Desde então o arquimandrita de Jucurutu passou a ter cuidado com as palavras.



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