Cazuza: “marca teu ponto na justa”

Publicação: 2019-10-29 00:00:00
Thiago Gonzaga
Escritor

Agenor de Miranda Araújo Neto (1958-1990), mais conhecido como Cazuza, foi um dos maiores poetas da música brasileira. Carioca da gema, nasceu e faleceu no Rio de Janeiro. Além de poeta, foi compositor e cantor, conhecido anteriormente à carreira solo, por ser vocalista e letrista da banda de rock Barão Vermelho, com a qual, ao lado de Roberto Frejat, construiu vários sucessos, como "Todo Amor que Houver Nessa Vida", "Pro Dia Nascer Feliz”, “Maior Abandonado” e “Bete Balanço”. Cazuza também ganhou renome pelo seu estilo contestador, rebelde, boêmio e polêmico. Sua vida foi retratada nas telas, em 2004, no filme “Cazuza – O Tempo não Para”, dirigido por Sandra Werneck e Walter Carvalho.

O seu primeiro disco solo, lançado em 1985, contém, pelo menos, duas grandes canções que se tonariam espécies de marca registrada do poeta, “Exagerado” e “Codinome Beija-Flor”. Depois do sucesso do LP de estreia, Cazuza lançaria ainda outros quatro discos, de estúdio, além de um gravado ao vivo. Quem nunca ouviu ao menos uma vez na vida esses versos:

“Exagerado/Jogado aos teus pés/Eu sou mesmo exagerado/ Adoro um amor inventado”.

Ou:

“Pra que mentir/Fingir que perdoou/Tentar ficar amigos sem rancor/A emoção acabou/Que coincidência é o amor/A nossa música nunca mais tocou”.

O segundo LP, com o título “Só Se For a Dois”, foi lançado em 1987. E trazia como principais hits as canções, "O Nosso Amor a Gente Inventa (Uma Estória Romântica)” e "Solidão Que Nada". Outra canção, muito interessante, porém que não teve tanta notoriedade à época foi "Vai à Luta”, parceria de Cazuza com o guitarrista Rogério Meanda, da qual transcrevemos abaixo um trecho:

“Eu li teu nome num cartaz/Com letras de néon e tudo/Ano passado diriam/Que eu tava maluco/O pessoal gosta de escrachar/De ver a gente por baixo/Pra depois aconselhar/Dizer o que é certo e errado/Eu te avisei: "Vai à luta/Marca teu ponto na justa/O resto deixa pra lá....../Porque os fãs de hoje/São os linchadores de amanhã.”

Os primeiros versos de “Vai à Luta” sugerem uma certa crítica àquelas pessoas, que ao conseguirem chegar ao “sucesso”, esquecem o passado, as origens, os amigos.  Evidentemente o poeta retrata nestes versos, como em outras de suas composições, uma   das características do ser humano, quando diz que, muitas vezes as pessoas gostam de ofender, de tratar mal, de ver a gente pra baixo, isso para satisfazer o ego delas, e depois, tentam nos afagar, ou, vice-versa, como observou, há mais de cem anos, outro poeta, Augusto dos Anjos, em “Versos Íntimos”: “A mão que afaga é a mesma que apedreja.” Porém, Cazuza nos aconselha a ir em frente, não dar bola a essas pessoas, e marcar nosso “ponto na justa” (competição marcial entre dois cavaleiros montados, usando uma variedade de armas). Em outras palavras, continuar na batalha da vida. Não desistir.

O ápice da composição, em nossa opinião, é justamente, no final, quando o cantor brada em alto e bom som: “Os fãs de hoje são os linchadores de amanhã”. Frase originalmente dita por Millôr Fernandes, que Cazuza usou para complementar a letra de sua canção.

Concordamos com o poeta. Pensamos que essa frase vai além de uma simples explicação, já que pode abranger vários aspectos. Cazuza não se refere aos admiradores sinceros, àqueles que gostam do bom trabalho, e sim aos fanáticos, que hoje dizem amar e dar a vida por seus ídolos e amanhã passam a atacá-los. Temos visto, constantemente, na rotina das pessoas, situações semelhantes, sobretudo na cena política, onde todo mundo muda de lado a todo instante. Aquele político que ganha com muitos votos uma eleição, e perde na seguinte, vê os seus eleitores em debandada, passarem a criticá-lo veementemente. E não aparece uma alma sequer para dizer que votou nele; como reza o ditado popular, chutam cachorro morto.

Os supostos fãs, que ficam fazendo elogios de corpo presente, e outras vezes, por trás, falando mal de nós, esperam apenas um deslize nosso para nos atacar, ou se voltar contra nós. Em tempos de redes sócias, é quando mais acontecem e se configuram esses casos. De seres humanos assim, temos que nos afastar e, longe deles, procurar conviver com pessoas que realmente nos façam bem, nos ponham pra cima e nos incentivem a conquistar nossos sonhos.

Portanto, como disse Cazuza:

“Vai à luta/ Marca teu ponto na justa/ O resto deixa pra lá.”