Ceci Oliveira, do Movimento Fora do padrão fala sobre felicidade...muito além de um um número na balança

Publicação: 2020-08-09 00:00:00
Tádzio França
Repórter      

O preconceito sofrido pelas pessoas gordas pode ser mais nocivo à saúde delas do que a obesidade em si. Quem passa por gordofobia sabe disso. Um tipo de discriminação tão comum que permaneceu naturalizado por décadas, gerando conflitos, problemas físicos e psicológicos de variadas naturezas. Hoje, felizmente, parte da sociedade está disposta a superar preconceitos e debater os estigmas ligados ao sobrepeso. As pessoas gordas – sobretudo as mulheres – têm parte essencial nesse processo, ao tomar consciência de si e expandir sua necessidade de respeito e aceitação.


Créditos: Alex RegisA jornalista Ceci Oliveira passou a vida tendo o corpo e o prato vigiados. A percepção real dos efeitos nocivos da gordofobia só despertou de vez quando atingiu outra pessoa além dela, a sobrinha. Foi o pontapé para o  processo de empoderamento e criação do Movimento Fora do Padrão, que promove ações e debates sobre o temaA jornalista Ceci Oliveira passou a vida tendo o corpo e o prato vigiados. A percepção real dos efeitos nocivos da gordofobia só despertou de vez quando atingiu outra pessoa além dela, a sobrinha. Foi o pontapé para o processo de empoderamento e criação do Movimento Fora do Padrão, que promove ações e debates sobre o tema


O periódico científico Nature Medicine publicou neste ano um consenso internacional pelo fim da gordofobia. O documento foi assinado por mais de 100 instituições, incluindo uma brasileira, a Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica (SBCBM). É uma prática mundial. Entre adultos obesos, de 19 a 42% sofrem com a discriminação. As taxas são ainda mais altas entre as mulheres e aqueles com maior índice de massa corporal (IMC).

A jornalista Ceci Oliveira passou a vida toda tendo o corpo e o prato vigiados. Os comentários sobre seu físico lhe despertavam vergonha e o pensamento de precisar emagrecer a qualquer custo. Quando ainda vestia manequim 46 – o que é considerado um corpo gordo menor dentro do ativismo – ela já tomava medicamentos para emagrecer e fez inúmeras dietas restritivas com contagem de calorias para atingir o corpo magro tido como o ideal dentro das estruturas sociais. “Crescemos em uma sociedade gordofóbica em que a pressão estética sob o corpo da mulher é muito forte”, diz.

Mas a percepção real dos efeitos nocivos da gordofobia só despertou de vez em Ceci quando atingiu outra pessoa além dela. “Eu ouvi minha sobrinha dizer que tinha vergonha do corpo dela, isso há 10 anos. Ouvir de uma criança que o corpo dela era motivo de vergonha me incomodou profundamente e foi o pontapé para meu processo de empoderamento”, afirma. Há dois anos, junto a amigas com a mesma vivência, ela criou o Movimento Fora do Padrão, que promove ações (como feiras) e debates sobre o assunto.

“Foi a partir das discussões promovidas nos encontros do Fora do Padrão que passei a entender o que era gordofobia e me incomodar ainda mais com o preconceito”, enfatiza. A jornalista conta que já fez anos de terapia para lidar com questões psicológicas atreladas a traumas de infância e que também envolviam seu corpo, mas ressalta que mais poderoso que as sessões de terapia, foi encontrar mulheres com corpos como o seu e vivências como as dela, fora e dentro da internet. Algo que ela define como “libertador”. “Já fiquei deprimida, já chorei, só que hoje tento não me deixar abalar. Entendo que a minha felicidade e o meu valor vão muito além do que um número na balança”, diz ela, que cuida da saúde mental com meditação guiada e exercícios de autoestima.

Mitos
O senso comum de que o gordo é uma pessoa doente e que “precisa” de tratamento é o mito gordofóbico que mais irrita a jornalista. Nesse sentido, ela acredita que será preciso ‘despatologizar’ o corpo gordo. “Muita gente ainda acredita que o corpo gordo é um corpo fracassado na dieta, que se alimenta mal e não pratica exercícios. Precisamos entender que há diversos fatores que constituem a saúde de um corpo assim”, explica. De fato, uma pessoa pode engordar por motivos metabólicos ou genéticos, por aspectos sociais, por taxas hormonais, etc. É bem mais complexo do que apenas “gulodice” ou “preguiça”.

A jornalista ressalta o entendimento de que “gordo” e “magro” são apenas características físicas, e não indicadores absolutos de saúde.  “Antes de sair recomendando dieta para uma pessoa gorda sob a falsa alegação de que é uma preocupação com a saúde dela devido o excesso de gordura, precisamos entender que o corpo do outro não nos diz respeito e precisamos respeitá-lo do jeito que ele é”, afirma. A partir disso, ela recomenda evitar falas como “comer gordice”, “você tem um rosto tão lindo, se emagrecesse ficaria mais bonita”, ou “eu queria ter a sua coragem”.

Consciência corporal não falta a Ceci. Ela tem uma alimentação balanceada, bebe muita água, e come muitas frutas e vegetais. Além disso, pratica yoga, faz fitdance para manter o corpo em movimento, e pratica meditação guiada para “manter a cabeça no lugar”. Mesmo tendo um estilo de vida considerado saudável dentro da normalidade, ela lamenta que a gordofobia muitas vezes parta de quem deveria zelar por sua saúde: o meio médico.

A gordofobia médica é mais comum do que se pensa. “Anos atrás fui a uma consulta com um pneumologista e antes mesmo de falar sobre os motivos de estar ali, ele já estava me recomendando uma cirurgia bariátrica”, conta. Ela cita os exemplos vistos em documentários como o “Gorda”, de Luiza Junqueira. “A entrevistada Cláudia Rocha relata que sofreu durante seis anos com um câncer não diagnosticado pois os médicos só viam um corpo gordo e ignoravam os leucócitos baixos”, diz.

No começo da pandemia do coronavírus no Brasil, um senhor chamado Laércio Machado procurou São Paulo inteira por um lugar em que ele pudesse fazer uma tomografia, pois não haviam equipamentos adaptados que suportassem seu peso. “Existe uma falsa preocupação com a saúde da pessoa gorda, mas o acesso à saúde é negado. Há um projeto de lei do senador Romário Faria (Podemos/RJ) que obriga os estabelecimentos de saúde a disponibilizarem equipamentos médico-assistenciais adequados ao atendimento da pessoa gorda. Esse projeto é um marco contra a gordofobia médica e representa um avanço na conquista de direitos que garantem a dignidade da pessoa gorda”, explica.

A comunicação é uma arma que Ceci utiliza como sua estratégia para combater a gordofobia. Ela quer pautar essa questão em todas as plataformas possíveis. “Já falei na internet em lives e posts nas redes sociais, na TV em entrevistas, em podcasts,  no audiovisual em entrevista para documentário, e onde mais puder”, diz. A jornalista também acredita em levar a questão para as pessoas próximas, pra dentro de casa, amigos e familiares. “A construção de um mundo mais acolhedor e menos gordofóbico começa a partir das pessoas que estão mais próximas de nós”, diz.

Camadas
A comerciante Carlota Nogueira é uma mulher gorda que já passou pelo processo de cirurgia bariátrica e não se tornou o padrão feminino exigido como “perfeito”, portanto, conhece diversas camadas do preconceito. “As cobranças até você fazer bariátrica são uma, depois de fazer as cobranças são outras. Você é obrigada a se enquadrar, tem que fazer plástica, tem que viver de academia e de vida ‘saudável’. É um ciclo cruel”, afirma. Ela conta que deixou de se cobrar quando entendeu toda a história de lutas, opressões e vitórias por trás de seu corpo. Foi o pontapé para querer mudar a visão das pessoas gordofóbicas.

Carlota conta que desde adolescente sentia a rejeição em alguns grupos de escola e igreja. Já adulta, o preconceito chegou aos ambientes de trabalho, desde uma piadinha na hora do lanche, até algo mais grave, como o preterimento profissional. “O estético padrão sempre vence. Muitas vezes as pessoas passavam nas seleções internas das empresas que eu trabalhava pelo corpo que ostentava não pela capacidade intelectual. Isso passou a me incomodar demais, e incomoda até hoje”, diz.

Rebater os estereótipos associados às pessoas gordas foi um dos primeiros desafios na cabeça de Carlota. Sobre gordos serem doentes, limitados, incapazes de serem amados e exercerem papéis importantes. Ela acredita que aliar empatia com informação pode ser a base para iniciar uma mudança de pensamento. Até mesmo da parte de pessoas que, mesmo bem intencionadas, cometem gordofobia.

“O mundo hoje fala sobre a opressão estética e os profissionais devem estar tem atentos a essa nova linguagem. Então se você entende que o gordo tem como característica estética o corpo com células adiposas e que isso vem de uma construção genealógica e genética, você consegue chegar a determinados assuntos sem ser gordofóbico”, explica. É preciso ter base e mais conteúdo para se discutir certos assuntos. Carlota quer usar seu lugar de fala para educar.

Em sua loja de moda e arte colaborativa, Carlota já trabalha com alguns produtos de modelagem ampla e vai abrir ainda mais oportunidades para marcas plus size. Mesmo assim ela ainda encontra  resistência porque muitas marcas utilizam modelagens padrão e também pelas peças não serem tão atrativas e modernas. “Mas aos poucos vamos conseguir, ou de repente eu mesmo crio, já que sei diretamente das dificuldades que encontro para comprar roupas estilosas pra vestir”, diz. A empresária acredita que quando muitas unem as vozes para falar sobre gordofobia, o abraço e a empatia são maiores que as críticas.

Consciência corporal
Autoconhecimento é algo fundamental quando se deseja preservar o bem-estar mental diante da gordofobia. O neuropsicólogo Cásio Barreto afirma que o primeiro passo é a conscientização sobre a própria condição corpórea. Segundo ele, é preciso que a pessoa saiba a natureza da condição de seu peso, se de origem metabólica, pelo uso de medicamentos, ou oriunda do estilo de vida adotado. “Tendo uma percepção plena de como se chegou a esse ponto, conseguimos pôr uma luz no caminho a ser adotado pelo paciente no enfrentamento dessa condição”, analisa.

Cásio acredita que, dessa forma, o problema passa a ser visto em sua real dimensão, e a pressão, antes insuportável, se apresenta em condições possíveis de ser suportada. “É um processo que dependerá bastante do engajamento do indivíduo”, diz. O neuropsicólogo ressalta essa forma de cuidar da autoestima, já que o preconceito gordofóbico pode gerar ansiedade em nível patológico, advindo daí um quadro de depressão, abuso de substâncias como álcool e/ou drogas, e até – num nível mais extremo - em suicídio.  " Gordofobia é mais do mesmo. Um velho hábito travestido de uma nova roupagem", conclui.