Cegueira branca

Publicação: 2020-12-02 00:00:00
Erick Wilson Pereira
Professor de Direito da UFRN

Pensei, ao menos neste ano, não voltar ao tema. Mas a morte de João Alberto reduziu a polêmica que envolveu iniciativa do Magazine Luiza a uma ordem infinitesimal. E, com a morte de um ser humano, sobrevieram reações das mais perversas, arbitrárias, inclementes, viperinas. Reações desumanas – sem piedade, indulgência e compreensão – para um ser humano rotulado pelo fenótipo, um fenômeno que desde muito fere as nossas retinas, mas, distintamente do laser curativo, seus raios cegam brancos, amarelos, acobreados e até pardos e negros.      

Persistimos, contra todos os fatos e evidências, confundindo mitos com realidades. E assombramos o mundo dito civilizado quando proclamamos com orgulho a miscigenação das raças como símbolo da identidade nacional. Podem até dar lições de soberania popular, mas não de democracia racial! Afinal, na terra dos “homens cordiais”, nunca houve leis segregacionistas, regras de apartheid, arroubos de xenofobia explícita. No máximo, existem desigualdades relativas à classe social. E somos cordiais porque nutrimos o estranho hábito de matar pelo silêncio, pelo não dito, pela dissimulação dos nossos preconceitos, pela ambiguidade de nossas posições, pela negação do nosso débito com as chagas sociais, especialmente o racismo. 

Esse mito da democracia racial tem servido para mascarar o nosso racismo estrutural e institucional que de tão naturalizado, silencioso e ambíguo tem se alastrado com desenvoltura por todos os ângulos da formação da cidadania. Começa no lar e se prolonga pela educação, pelas defasagens salariais, pela moradia, pelas oportunidades precárias de trabalho e ascensão social, pelos esquemas de poder. Muitas vezes, lança-se com furor na criminalidade precoce, na desumanizada vida carcerária (67% da população carcerária é de afrodescendentes), em existências abreviadas (77% dos mortos no país são jovens negros, entre 15 a 29 anos). E, pela falta de referenciais que o definam, tal racismo tácito é muito mais difícil de ser combatido. 

Aqueles que desde cedo sofrem o preconceito “gentil”, também aprendem a ser gentis e a não se rebelar, a ser invisíveis. Aprendem até a se sentir culpados pela branca cegueira alheia. Seus olhos negros costumam oscilar entre paciência e condescendência com a cegueira preconceituosa que se recusa a enxergar as dificuldades cotidianas e as desigualdades enfrentadas pelos excluídos, o mérito heroico alcançado a ferro e fogo, uma eventual e sofrida ascensão à elite da sociedade. Esses olhos cansados percebem ou intuem a ignorância ou a má-fé branca que teme ter diminuídas suas próprias virtudes e capacidades, sua hegemonia. 

O preconceituoso despreza o que não consegue entender e, de olhos fechados para os processos históricos e os indicadores sociais e econômicos da sociedade, se apega às deformidades das convicções ideológicas. É o outro quem importa, fabrica e promove conflitos, que atenta contra a nação. É o outro quem porta bandeira ideológica. O negro brutalmente assassinado seria “apenas” um pardo, ele também racista, um importunador contumaz e com longa ficha policial indicativa de violência. A barbárie assim se dilui, assim é racionalizada, e a estrutura racista é negada. A morte deixa de ser apenas física para ser social. Na necropolítica, não há espaço para indignação ou consciência pesada. Nem de juízes – refiro-me a grupo da Amepe que assinou lamentável manifesto -, governantes ou autoridades.

Há brancos e até negros que padecem dessa cegueira alva, da cor da cal, o pó com inumeráveis utilidades. Serve tanto para o preparo de tintas de alta alvura, quanto para acelerar a decomposição da matéria orgânica em covas. O pó alvo que, ao queimar os olhos, torna-os opacos e cegos para o humano.









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