Cenário na Fortaleza dos Reis Magos é de abandono

Publicação: 2017-11-01 00:00:00 | Comentários: 0
A+ A-
Yuno Silva
Repórter


A alta estação se aproxima, e o maior e mais antigo monumento do Rio Grande do Norte permanece um amontoado de pedras, areia, problemas e burocracia. Anunciada em setembro como candidata ao título de Patrimônio Mundial da Humanidade pela Unesco, a Fortaleza dos Reis Magos pode ficar fora do páreo se a atual situação de abandono não for revertida: a lojinha de artesanato fechou, e não há equipe gestora no lugar – apenas seguranças, recepcionista e assistentes de serviços gerais. A própria edificação, mais a presença do Marco de Touros original – chantado no litoral Norte potiguar em 1501 –, e os guias de turismo que atuam (autorizados) de forma quase voluntária, garantem que a história não passe despercebida.

No interior da Fortaleza dos Reis Magos, se observa um amontoado de pedras e areia, resultantes de escavações arqueológicas
No interior da Fortaleza dos Reis Magos, se observa um amontoado de pedras e areia, resultantes de escavações arqueológicas

Apesar de aberto à visitação, o forte concluído em 1599, símbolo máximo da fundação de Natal, está com ambientes interditados e deixou de oferecer atrativos aos poucos visitantes que se aventuram no local. Os receptivos de turismo que operam em Natal suspenderam as visitas há dois anos por falta de estrutura e segurança, e para evitar reclamações, motivadas pelo ‘oco’ museológico e o quadro de ‘obra parada’ os ingressos deixaram de ser cobrados.

Administrado pela superintendência regional do Instituto Histórico e Artístico Nacional  (Iphan) desde dezembro de 2013, após passar quase quatro décadas sob responsabilidade do Governo do RN, o Forte deverá voltar para as mãos do Estado em breve. A diretora-geral da Fundação José Augusto (FJA), Isaura Rosado, adiantou que “neste mês de novembro” será anunciada a data de assinatura do termo de cessão.

As negociações entre o Iphan e a FJA começaram em maio passado, e o processo de cessão provisória pelos próximos 20 anos tramita no Iphan Nacional em Brasília. O teor da cessão, segundo informações do Governo do Estado, implica em assumir todas as despesas de uso, guarda e preservação do imóvel, seguindo as orientações do Instituto.

O canhão que encontra-se enferrujado e o mal cuidado do local são um dos reflexos do abandono
O canhão que encontra-se enferrujado e o mal cuidado do local são um dos reflexos do abandono

Enquanto isso, sem uma linha regular de ônibus urbano (responsabilidade da STTU), com segurança externa insuficiente (atribuição da Polícia Militar), iluminação precária no entorno (Semsur e Codern) e pouca infraestrutura no terminal turístico (Setur e Sectur), o monumento eleito em concurso nacional entre as sete maravilhas do Brasil segue ilhado na boca da barra do Rio Potengi.

“Qualquer cidade precisa de atrativos turísticos, e a visitação do forte, por si só, ao meu ver, é insuficiente. Deveria haver uma dinâmica maior de eventos no local, tornar mais interessante. Assim como a Fortaleza dos Reis Magos, o bairro histórico da Ribeira, não recebem a atenção necessária do poder público”, avaliou José Odécio, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis (ABIH-RN).

Até 2013, o Forte dos Reis Magos recebia, em média, cerca de 250 mil visitantes por ano, número reduzido pela metade em 2014. Como a bilheteria deixou de ser cobrada, o fluxo de visitas deixou de ser contabilizado.

Investimentos
A restauração da Fortaleza dos Reis Magos, inicialmente orçada em R$ 8,83 milhões, foi o primeiro projeto de obra aprovado dentro do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) Cidades Históricas, mas nenhum recurso chegou a ser repassado pelo Governo Federal. O Iphan-RN chegou a realizar escavações arqueológicas para embasar a restauração pretendida, por isso, se vê acúmulo de pedras e areia na parte interna da Fortaleza.

O projeto de restauro contratado por R$ 230 mil e elaborado pela empresa Cunha Lanfermann Engenharia e Urbanismo, de Pernambuco, está à disposição do Governo do RN. A proposta inclui, além da restauração completa do monumento, execução de obras de acessibilidade, instalação de elevador, reforma de todo o sistema elétrico e hidráulico.

Em maio, quando a retomada da administração do forte pelo Estado começou a ser articulada, Isaura Rosado, diretora-geral da FJA, informou que “estão previstos R$ 4,7 milhões para execução das obras” – os recursos são do Programa Governo Cidadão (ex-RN Sustentável). Por enquanto não há prazos para o início da restauração.

Linha do tempo
6 de janeiro de 1598 – início da construção do forte

25 de dezembro de 1599
– conclusão da Fortaleza dos Reis Magos

1633-1654
– holandeses tomam o forte e mudam o nome da edificação para Castelo de Keulen

1949 – tombado pelo Iphan como patrimônio histórico

2013 – Iphan-RN retoma gestão do forte e realiza escavações arqueológicas. Projeto de restauração orçado em R$ 8,83 milhões é aprovado no PAC-Cidades Históricas, mas recursos não são liberados

2015 – ingressos deixam de ser cobrados dos visitantes devido a falta de atrativos (retirada das exposições) e as más condições estruturais do forte

2017 – Iphan-RN e Governo do Estado iniciam processo em maio para retornar a gestão à FJA


continuar lendo



Deixe seu comentário!

Comentários