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Cenas de uma aula de português
Publicado: 00:00:00 - 10/10/2021 Atualizado: 14:49:45 - 09/10/2021
João Maria de Lima
Professor

Nesta semana, foi liberada a volta às aulas presenciais em todos os níveis de ensino no Rio Grande do Norte. Já era hora de isso acontecer. Agora, o desafio é gigantesco quanto à recuperação de conteúdos e à mobilização dos alunos. Pensei como seria a primeira aula de língua portuguesa no ensino médio, depois desse recesso obrigatório provocado pelo coronavírus. Imaginei algo como o que se segue.

Ao cumprimentar os alunos, o professor ousou perguntar se alguém gostava de português. A maioria disse que não, o que o mestre já esperava que acontecesse. Então, ele optou por recomeçar os trabalhos, depois de tanto tempo com os alunos afastados da escola, com um treino ortográfico, o popular ditado.

- Mas o que é isso, professor? “A gente vamos” fazer ditado?
- A gente vai, respondeu o professor.
Depois da algazarra e insatisfação da turma, um brincalhão, lá no fundo da sala, perguntou: - É “pra mim” copiar?
Outro ironizou: - “Fazem” 10 anos que não faço ditado.
Uma menina com cara de centrada afirmou: - O professor não vai “vim” aqui fazer ditado no primeiro dia de aula. Ele deve estar “brincano”.
De repente, um aluno educado, mudando de assunto, disse: - Eu gostaria de “fazer uma colocação…”.
Antes que ele terminasse, o professor interrompeu: - Por que não faz uma indagação, um questionamento, um apontamento ou uma observação?
O aluno: - E não dá no mesmo? Bem, queria dar uma dica de filme “que assisti” “há quinze dias atrás”.  Ele é baseado em “fatos reais”.
Um colega rebateu, debochando: - Se é fato, só pode ser real.
A turma se exaltou, e uma menina foi em defesa do primeiro, reclamando do segundo: - Assim está muito difícil “conviver junto” com você. Pare de corrigir a gente. Você nunca reconhece os /esfôrços/ das pessoas. Ninguém vai “repetir de” ano aqui.
O debochado interveio novamente: - /Esfôrços/ não. /Esfórços/, disse ele, pronunciando adequadamente o plural metafônico.
Outro aluno resolveu participar em defesa da colega: - Você não acha que já temos “bastante” problemas para “se” ligar a “pequenos detalhes”?
Alguém do fundão, gritou: - Quem “tá” certo, professor? 
Certas palavras, no plural, mudam o timbre da vogal tônica de /ô/ para /ó/, assim como “ovo”, “ovos”, disse o mestre.
Eis que uma menina reclama: - Já estou “meia” cansada dessa confusão. Bem que o professor “poderia estar expulsando ele pra fora”. 
-Ele “tá fazeno nós” de bobo, afirmou um aluno da segunda fila. E continuou em tom de ameaça: - Se preocupe não, “vamos se encontrar” no intervalo e passar isso a limpo. Só porque você é “de menor”, acha que pode dizer o que quer?
Rapidamente, o professor interrompeu a conversa e disse: - Vamos começar? Por favor, quem está de cabeça baixa, apronte-se para o exercício.
Um colega que estava ao lado do garoto de cabeça baixa afirmou categórico: - “Na minha opinião pessoal”, ele não “se acorda” assim não. Tem de dar um beliscão no “mesmo”.
Uma aluna que ainda não tinha falado, resolveu fazer um pedido: Professor, por que o senhor não “adia para depois” esse ditado?
Foi o limite. Quando o mestre se preparava para soletrar a primeira palavra, um aluno sentado na primeira carteira perguntou: - É “pra intregar”?
O professor: - Não.
Outro aluno insistiu: - Vai “vale” nota?
Enquanto isso, o som agudo e estridente da sirene avisava que a aula tinha acabado.

Os artigos publicados com assinatura não traduzem, necessariamente, a opinião da TRIBUNA DO NORTE, sendo de responsabilidade total do autor.

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