Centenário de Luiz Maranhão

Publicação: 2021-01-24 00:00:00
Alexandre de Albuquerque Maranhão
Historiador

Considerado como um dos intelectuais mais bem preparados da esquerda brasileira, Luiz Ignácio Maranhão Filho, destacou-se entre os políticos de sua época pela bravura, pelo profundo conhecimento dos problemas nacionais, pela grande erudição e principalmente por sua firmeza revolucionária. Esse norte-rio-grandense, nascido em Natal, no dia 25 de janeiro de 1921, de caráter honrado e exemplar não recebeu até hoje o devido reconhecimento nem as justas homenagens de sua pátria, que ele tanto amava e defendia. Foi e sempre será um dos poucos potiguares que souberam dignificar a nossa terra com sua brilhante e corajosa participação na História.

A trajetória de vida de Luiz Maranhão foi marcada pela coerência aos princípios éticos da política sem negociatas e fisiologismo. Aos 14 anos de idade, estudante do Colégio Estadual do Ateneu, já integrava o Centro Estudantil Potiguar, quando coordenou inúmeras manifestações contra o nazi-fascismo. Em 1945, filiou-se ao PCB. Marxista convicto, teve toda a sua vida pautada pela disciplina e amor pelas coisas que fazia. Dedicou-se às profissões de jornalista, advogado, militante político e professor de Geografia do Colégio Ateneu. A coerência política, a firmeza com que defendia seus ideais e a efetiva participação nos mais diversos movimentos políticos e sociais, rendeu-lhe as primeiras perseguições. Foi demitido do cargo de professor do Ateneu, em 1947, quando o governo do presidente Gaspar Dutra, mostra a sua face reacionária e anticomunista ao expurgar os funcionários públicos ligados ao PCB.

Foi preso e torturado em seguida: 13 de janeiro de 1948 e 4 de dezembro de 1952. Os “crimes cometidos”: havia publicado matérias nos jornais Folha Popular e Folho do Povo, criticando respectivamente, o governo Dutra e denunciando os maus tratos recebidos pelos presos políticos na Base Aérea de Parnamirim. Ainda apresentando dificuldades em estender os músculos faciais no momento do riso, devido as torturas sofridas, Luiz Maranhão foi reconduzido ao cargo de professor do Ateneu por sentença judicial e voltou ao jornalismo como redator-chefe do Diário de Natal, no ano de 1954.

Luiz Maranhão foi um militante incansável das causas democráticas e populares, participante ativo desde a adolescência de movimentos que buscaram a libertação política, econômica e social do Brasil. Ele não se sentia vítima de todas as atrocidades que lhes foram cometidas. Tinha a clareza do que lhe acontecera e do que ainda o aguardava. 

Com o PCB na ilegalidade disputou e venceu as eleições para deputado estadual em outubro de 1958, pelo Partido Trabalhista Nacional (PTN). Sensível ao diálogo e sobretudo tolerante, Luiz Maranhão modificou o cotidiano da Assembleia Legislativa. Era o parlamentar que estava sempre atento aos problemas sociais e empenhado em buscar soluções. Seu discurso destoava daqueles proferidos por seus pares não somente por entender que a política só se realiza nas diferenças, mas principalmente por extrapolar as questões locais, na vibrante denúncia que fazia da situação dos países que estavam na periferia do sistema capitalista e na defesa de suas respectivas soberanias.  

Em 10 de fevereiro de 1956, Luiz Maranhão casou-se com Odete Roselli Garcia Maranhão. “Moraram” em Natal, num apartamento do edifício São Miguel, na Avenida Rio Branco. Foi uma relação de amor e sofrimento. A intensa atividade política e a vida atribulada de Luiz Maranhão foram responsáveis pela solidão e tristeza de sua esposa. Viveram separados pela intolerância, opressão e o autoritarismo do regime militar instaurado em 1964.

Humanista por formação, jamais pregara qualquer tipo de violência, no entanto, fora brutalmente vítima dela. Tido como “subversivo à ordem instaurada”, foi submetido a torturas, prisões, constrangimentos e humilhações pelos agentes da ditadura militar. Jamais cometera um crime contra quem quer que seja, no entanto, sua opção político partidária de esquerda marxista, foi o único motivo para ser vigiado, perseguido, preso e torturado.

A direção do PCB conhecendo o profundo preparo político e intelectual de Luiz Maranhão, o escolheu para manter e intensificar o diálogo com os setores progressistas da Igreja Católica. Era o momento de buscar soluções para a grave crise política, social e econômica que atingia o Brasil no final da década de 1960 e início dos anos de 1970. Suas energias também estavam voltadas para a criação da Frente Ampla, junção das mais diversas forças políticas para derrotar a ditadura militar.

A acirrada disputa política e ideológica no início da década de 1960, vai desencadear no golpe militar quatro anos depois. Em 10 de abril de 1964, Luiz Maranhão foi preso e levado para o Regimento de Obuses (RO), onde sofreu seguidas sessões de tortura. Na madrugada de 21 de agosto, foi retirado da prisão e levado para a Ilha de Fernando Noronha. No final de outubro foi libertado através da concessão de habeas corpus.

Retomou suas atividades políticas no eixo Rio-São Paulo, no momento em que as forças repressoras da ditadura militar intensificaram o cerco contra os militantes de esquerda. No mês de novembro de 1973, o Comitê Central do PCB, em reunião realizada em São Paulo discutiu a saída de seus principais dirigentes do País ou a permanência nele. Luiz Maranhão preferiu ficar. 

Coincidentemente, no dia 27 de março de 1974, quando o Superior Tribunal Militar, por maioria de votos, confirmava a absolvição de Luiz Maranhão, por atos que ele não havia cometido, o mesmo fora sequestrado e preso em São Paulo, por agentes do Destacamento de Operações Internas (DOI). Nunca mais foi visto. Desapareceu sem que a família tivesse um dos mais primitivos direitos: o de sepultar seu ente querido. Luiz Maranhão não possui nenhum túmulo na terra, onde possamos depositar uma flor.








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