Centro, centrão

Publicação: 2020-12-03 00:00:00
Vicente Serejo
serejo@terra.com.br

Créditos: Divulgação

Na matriz da tradição política brasileira não há forma de moldar o centro. Só o centrão. E esse ‘ão’, troante e tonitruante, é pejorativo justamente em razão do vício: quando se unem sob o pretexto de que discordam da esquerda, não buscam o meio, mas o poder. O centro vira Centrão e passa a viver apojado nas tetas do Palácio do Planalto. Lá, ocupa o quarto de despejo, posto que nunca chega ao gabinete presidencial, mas o poder compensa, mesmo quando não se tem inteiro.

Ora, qual foi a causa da morte prematura da Nova Política, anunciada para fazer a faxina na velha política? Uma aliança com o centrão. Nem por isso o centrão deixa de ter uma poltrona de quantas existem nos salões palacianos. Daí ser mais fácil a eleição dos seus nomes, mas, todos sabendo que são como o velho chumbo das linotipos oficiais: fiéis ao governo seja qual for o seu chefe e seu partido. Por isso são úteis à formação das maiorias nos governos sem grandes lastros.   

Alguém, por crença ou desinformação diante da história política, espera que o Centrão irá às últimas consequências ao lado de Jair Bolsonaro? É possível. Mas será o caso de rara exceção. Se nas vésperas das urnas de 2022 Jair Bolsonaro estiver forte e com boas chances de renovar o mandato, terá o Centrão. Se chegar aos fraco, o Centrão inventará um novo patriotismo banhado no caldo requentado da governabilidade e apoiará o vencedor. Se perder, adere depois da posse.   

A posição de centro, nem quando é verdadeira, é fácil. Emanuel Macron ocupou a posição de centro e foi eleito pelos franceses, mas seu governo não tem sido fácil. Precisou recuar com a sua proposta de reforma da previdência e viu setores do seu Centro aliados aos trabalhadores na resistência que ocupou as ruas. É da natureza do centro, nas democracias maduras, não ser um Centrão interesseiro, como no Brasil, mas não é fácil fazê-lo seguir o governo quando é derrotado. 

Importa no confronto, neste ponto com alguma vantagem para a oposição, é poder lançar contra o governo o desmantelamento da bandeira da Nova Política que ergueu como a palavra de ordem de sua retórica. Não tem demonstrado nada de novo, na prática dos atos e nos aliados que escolhe, além de não conseguir retirar os seus próprios filhos do pântano de dúvidas, suspeições e envolvimentos que ocupam menos as páginas do noticiário político e mais as páginas policiais. 

O Centrão é útil e, sendo útil, é necessário. Hoje, agora. Mas, as suas digitais nas bancadas e nos ministérios terão um preço. Talvez acabe sendo a melhor jurisprudência em favor da classe política tão vilipendiada de forma generalizante. As urnas não expurgaram os nomes da tradição. Expulsaram alguns simulacros que pareciam, menos para o eleitor, compor a cena da fraude que enfiaram nos olhos do eleitor brasileiro sempre convencidos de que passariam. E não passaram.

LUTA - A ex-prefeita Marília Dias, derrotada nas urnas, apresentou denúncia contra o prefeito eleito, Emídio Jr., por declarar valores para a campanha acima do limite legal. A justiça decidirá.

ESTADO - A União considerou que é o Estado do Rio Grande do Norte o beneficiário direto do Aeroporto Augusto Severo. E contestou a dívida dos desapropriados. Agora a Justiça vai decidir. 

IMPASSE - A tese da União é considerada estranha na medida em que a construção do aeroporto é uma obra federal. O Estado do Rio Grande do Norte não pode responder dívidas indenizatórias.

NÚCLEO - Fonte mossoroense informa: o núcleo da equipe do prefeito Alysson Bezerra sairá de três fontes técnicas: da equipe de transição e as universidades federal (UFRSA) e estadual (UERN). 

MAS - Não significa, informa a mesma fonte, que o prefeito eleito não busque nomes na livre iniciativa e instituições culturais da cidade. Ele quer buscar o melhor perfil para cada necessidade.

FORTE - A justiça determinou uma desocupação imediata da antiga Faculdade de Direito, na Ribeira, ocupada por algumas dezenas de famílias sem teto. É um prédio histórico e é tombado. 

FRACA - Mas, a mesma justiça, durante mais de três décadas, não determinou à Universidade que restaurasse o prédio. Até que restassem, hoje, só as ruínas. Quem responderá pela omissão?

FORÇA - Para Margarida Seabra e Geraldo Batista que só envaidecem esta coluna com a leitura diária: este velho mestre de cerimônia das bailarinas de circo, ainda comovido, confessa a emoção. 

NUINHA - JLM, o leitor há anos e anos desta coluna, e que registrou seu e-mail com as mesmas iniciais que assina as mensagens, num enigma, observa que a expressão ‘nuinha’, empregada na crônica sobre a bailarina, ao citar o poema de Bandeira, é mais dos falares do que as boas regras.

RAZÕES - Certo, não há ‘nuinho’ e ‘nuinha’ no Houaiss e no Aurélio. Há ‘nuinho’, adjetivo, no ‘Vocabulário Ortográfico da Academia Brasileira de Letras’, que dicionariza pela força da oralidade.  Mas está no poema de Manuel Bandeira: "Um dia eu vi uma moça nuinha no banho”.

BAILE - A língua baila entre o escrito e o falado. No escrito, pelo léxico, usa-se o acervo, sem negar as licenças literárias, os neologismos.  Os falares absorvem o uso corrente. No caso, ‘nuinha’, não é diminutivo. É alumbramento. Olhar contemplativo de pura admiração e desejo.








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