Certidão

Publicação: 2020-11-22 00:00:00
Vicente Serejo
serejo@terra.com.br

Créditos: Divulgação


Aos que nos acusam de uma vida pobremente vivida, afinal os cronistas são apenas anotadores de alegrias e tristezas da vida comum, é lembrar que não temos culpa nenhuma. Foi a vida que nos fez assim. A muitos outros concedeu os rosários dos títulos honoríficos e luzidios que transbordam abaixo dos seus nomes, mas a nós, os desvalidos da glória, coube o pão dormido da banalidade, mesmo que nem notem como são tolos ao exibirem seus circunspectos berloques.

Depois, malgrado o tempo, com diria um acaciano, eles não percebem que nas letras é vã toda mania de ser tudo. No fim, e ao cabo, perdem a beleza anônima da vida comum e da doce solidão, sem o salamargo das frustrações medonhas. São poucos, pouquíssimos, os feitos para a glória humilde, mesmo se são grandes. Como a belíssima confissão de Câmara Cascudo quando estava perto da noite chegar, sem ter amanhecer: “Fiquei na província e trabalhei sem prêmio”. 

Uma vez, lembrei aqui, o que serve de jurisprudência, que os cronistas são exatamente aquilo que disse Rubem Braga: vivem dos restos do banquete literário. Das migalhas que não servem à grande literatura. Ou, se vale mais a opinião de um Antônio Cândido, maior estudioso da literatura brasileira e do oficio dos cronistas, eles apanham tudo ao rés-do-chão. O que lhes é dado ter para ocupar não a primeira página dos jornais, mas o rodapé, o chão de suas páginas. 

Por uma razão: olhar a vida no que tem mais comum e banal é seu ofício. Nem os grandes poetas - Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Paulo Mendes Campos, Vinícius de Morais - nem os maiores romancistas, como Machado de Assis, Lima Barreto, Rachel de Queiroz e Clarice Lispector, negaram e negaram-se ao ofício da crônica. Muitas vezes, foi o humilde e até indispensável meio de vida, quando os jornais remuneravam seus colaboradores profissionais.  

A crônica brasileira, para quem teve a pachorra de reunir o que existiu de fundamental e mais permanente, tem grandes instantes, mas, contraditoriamente, ninguém foi grande escritor só por escrevê-la. Basta dizer que ninguém escreve livros de crônicas. Elas nascem nos jornais e lá mesmo morrem, se um dia não forem selecionadas e publicadas em forma de livros. Não há como não ser assim. Até hoje. No entanto, há cronistas que justificam uma vida literária e intelectual. 

O segredo, se há segredo, é não ter a frustração de ser apenas um cronista. É aceitar, sem dor, que a vida o fez assim e, a alguns, destinou o que sobrou na mesa dos poetas, romancistas e contistas. Daí a tendência dos cronistas quando transformam em pequenas narrativas biográficas, o que acaba, de algum modo, biografando o próprio leitor. Para não falar nas notícias da alma e suas sensações que às vezes acabam alegres, tristes, agônicas, nas páginas pobres dos jornais... 

ESTRELA - A vereadora Divaneide Basílio, negra, socióloga, reeleita com quase seis mil votos para a Câmara, é nosso primeiro grande ícone das minorias. Desses que removem as montanhas.

VOZES - A sua postura de não confinar suas posições aos guetos eleitorais, mas abrir ao concerto de todas as vozes, é o que já a faz uma estrela em ascensão. O estilo raivoso morreu de inanição. 

VALEU - Natal foi justa quando reconduziu ao plenário da Câmara a vereadora Júlia Arruda. Seu trabalho é voltado para os segmentos mais carentes. E o prefeito Álvaro Dias precisa tê-la.

IRONIA - A História tem suas catracas. Vai ser erguida em Mossoró uma estátua à liberdade justamente quando a cidade derrotou o mando de sua mais antiga oligarquia. A História é assim.

ÍCONES - O editor Ivan Jr., da Offset Editora, vem fazendo uma belíssima edição da biografia de Jean Mermoz, do escritor Roberto da Silva. Será, neste 2020, e sem dúvidas, o livro do ano. 

ALIÁS - Para o próximo ano já tem um livro que deverá ser o grande destaque: “A História da Ponte de Igapó”, do engenheiro e professor Manoel Negreiros. Ficará entre os grandes títulos. 

CHARADA - Um guerreiro da legião do prefeito Álvaro Dias, depois de tão renhido combate, foi descansar, e amar, nas águas tépidas de Canoa Quebrada. Só Eros tem o elixir da longa vida.  

VENENO - De um comerciante de Mossoró que há quase cinquenta anos acompanha as lutas e até foi apoiador de algumas: “Os Rosados envelheceram na idade e no método e não notaram”.

PRESSÃO - Esta coluna não nega espaço: se depender de alguns amigos e correligionários, o prefeito Álvaro Dias governa Natal os quatro anos do mandato conquistado. No final, lança a prefeito Paulinho Freire. Segundo a fonte, “para evitar ressurreições indesejadas”. E calou-se. 

MAIS - A vitória do prefeito Álvaro Dias, de tão forte e significativa, gerou um fuso e nele giram especulações em todos os níveis. Até a reação dos que defendem a candidatura do deputado Luiz Cláudio Faria, Tomba, a governador. Ele é hoje a maior expressão política na região do Trairi. 

AINDA - Antes de 2024, logo em 2022, o grupo do prefeito Álvaro Dias vai pôr um pé firme no plenário da Assembleia. Da vez anterior, quando lançou o filho a vereador, sofreu boicote de dentro da Prefeitura. Mas, na política, ninguém sobrevive sozinho. Só os espíritos apopléticos.