Chico César num mar de poesia

Publicação: 2019-01-13 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter

Chico César descobriu a força da palavra em folhetos de cordel e na voz de cantadores, tudo quando ainda era menino no sertão de Catolé do Rocha, cidade onde nasceu, na Paraíba, em 1964. De lá ele saiu para João Pessoa, depois São Paulo, e então suas referências literárias e musicais cresceram infinitamente. Mas as raízes da infância Chico nunca deixou secar. Elas estão firmes em sua obra, tanto nas músicas dos primeiros discos, quanto nas dos mais recentes, como “Estado de Poesia" - álbum apontado pela crítica especializada como um dos melhores lançamentos de 2015.
Suas raízes de infância ainda menino em Catolé do Rocha, Chico César nunca deixa de buscar
Suas raízes de infância ainda menino em Catolé do Rocha, Chico César nunca deixa de buscar

Foi do repertório desse disco que Chico montou o setlist do show que apresentará neste domingo (13), no festival Pôr do Som, em Pirangi (a partir das 16h, na Ilha Ecomax). A apresentação também promete surpresas, sucessos antigos e improvisos. Afinal, pode-se dizer que no Rio Grande do Norte o artista está em casa e pode muito bem ficar à vontade para brincar.

A relação de Chico com a terra potiguar vai muito além dos shows. Quando criança, chegou a ir com a turma da escola passar um fim de semana na praia de Tibau do Norte. Do período em Catolé do Rocha, ouvia com a família a programação da Rádio Rural, de Caicó – município que depois apareceria em uma de suas músicas mais ouvidas (“Prosa impúrpura do Caicó"). Adolescente, ele pegou o busão de Catolé com destino à Natal para fazer sua primeira apresentação no estado, mas não de música, e sim poesia. Era final dos anos 70 e a apresentação foi no lendário Festival do Forte – evento onde Chico viu pela primeira vez um rastafári.

Ou seja, a relação do cantor, compositor e poeta com o RN é antiga. Nesta entrevista concedida à TRIBUNA DO NORTE Chico lembra um pouco das vezes em que passou pela “terrinha”. Ele também revela qual é das suas composições a favorita: um aboio contemporâneo, bastante significativo em sua carreira e cuja história ele convida a conhecer na  websérie “As histórias das canções de Chico César”, disponível em seu site e redes sociais.

O que você está preparando para o show deste domingo em Pirangi? Poderemos ouvir algumas novidades?

Acho que o norte desse show em Natal é o show “Estado de Poesia”, com muitas músicas do disco mas, principalmente, do DVD. A novidade desse show é a participação da jovem sanfoneira potiguar Carol Benigno.

Já aproveitando, você está trabalhando num disco novo?

Eu nunca “trabalho” um disco novo antes de ir pro estúdio fazê-lo. Eu componho bastante e aleatoriamente, sem pensar num “projeto”. Na hora de gravar mesmo, seleciono o que sinto que se encaixa, que diz melhor o que estou querendo expressar em determinado momento.

Pirangi é uma das praias de veraneio mais tradicionais dos potiguares. Você tem alguma história no lugar?

Conheço o cajueiro, sim. Frequentava nos anos 80 com meus amigos poetas potiguares Aluísio Matias, Novenil, Venâncio, João da Rua.

Você veraneava na infância? Sua família tinha esse hábito na Paraíba?

Quem nasce no sertão tem verão a vida toda. Pobre então... Veranear é coisa de rico, classe média - o que decididamente não éramos. Mas ainda no primário, vinha com minha turma de escola passar fins de semana em Tibau, perto de Mossoró.

Ano passado se completou 40 anos da primeira edição do Festival do Forte, em Natal. Você chegou a participar de alguma das edições. Guarda boas lembranças do festival?

Participei com o Grupo Ferradura em 1979, quando ainda morava em Catolé do Rocha e tinha apenas 15 anos. Foi a primeira vez que vi um rastafári. Era o músico baiano Jorge Papapá. Anos depois ficamos amigos.  Ah... eu ficava admirado com a cena: Terezinha de Jesus, Leguelé, Jorge Papapá, Joca (o guitarrista), Carlão, a presença forte da poesia e das artes plásticas.

A gente está vivendo um cenário político conturbado. Acredita que é dever do artista se posicionar politicamente nessa situação? Pergunto isso porque muitos fãs cobram nas redes sociais, criando inclusive constrangimentos ou movimentos de boicote. Será que o discurso político da obra de um artista não já falaria por ele?

Se a criação diz uma coisa e o criador diz outra, vale a discussão sim. Gente reacionária tem em todas as áreas: jornalismo, saúde, militar etc. Mas felizmente tem gente progressista também em todos os lugares. Em vez de cobrar eu prefiro me juntar com quem tem a ver comigo, até mesmo pra fazer o enfrentamento necessário.

Chico, no domingo também se apresentam a banda Seu Pereira e o grupo potiguar Luísa e Os Alquimistas. Conhece essa turma? Que novos artistas você tem escutado?

Jonathas Falcão, o Seu Pereira, canta comigo no disco e no DVD Estado de Poesia. Luísa e os Alquimistas não conheço. Tenho ouvido uma nova geração de cantautores pernambucanos, entre os quais destaco minha parceira Flaira Ferro.

No ano passado você começou uma websérie em que conta a história por trás de algumas de suas músicas. Qual é a composição que você mais gosta? E aquela com história mais inusitada?

A que eu mais gosto é “Béradêro”. As histórias estão na webserie, melhor ver lá.


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