Chuveiro Solidário leva higiene a quem vive nas ruas de Natal

Publicação: 2018-01-07 00:00:00 | Comentários: 0
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Tádzio França
Repórter

Colaborou: Cinthia Lopes, editora

A falta do básico necessário à sobrevivência é um fato comum aos que vivem em situação de pobreza extrema nas ruas. A solidariedade é o elemento que faz a diferença crucial nesse contexto triste, através de iniciativas que amenizam o sofrimento de quem não possui alimentação, higiene e saúde. Algumas iniciativas estão incrementando suas estruturas e atuando de forma ainda mais direta com os moradores de rua e suas necessidades. Projetos como  Chuveiro Solidário, Saúde Solidária, Anjos da Madrugada e Alma Lavada ajudam a muitos, se ajudam, e também precisam de ajuda. A solidariedade é um ciclo. 

Iniciativas voluntárias tem crescido e chegam através de ações como Banheiro Solidário, Saúde Solidária, Anjos da Madrugada e Alma Lavada, que tem assistido os que precisam de higiene, refeições e cuidados com a saúde
Chuveiro Solidário é uma das iniciativas voluntárias em Natal que ajudam os que precisam de higiene, refeições e cuidados com a saúde

Banho do bem
O Chuveiro Solidário ganhou as ruas desde junho do ano passado. Trata-se de uma pequena estrutura sobre rodas, em forma de trailer, cujas paredes são compostas por 55 tubos de PVC de 100mm, que funcionam também como reservatório de água com capacidade de 1000 litros. Possui um aquecedor artesanal de água  desenvolvido com material simples (que funciona à base de álcool gel), mantendo a temperatura do líquido em cerca de 36 graus. Na parede externa há três pias com espelhos, para complementar a higienização. 

A estrutura funcional, sustentável e ecologicamente correta do banheiro sobre rodas percorre determinados pontos da cidade todas as sextas à noite, oferecendo banho quente, higiene bucal, e barba feita. Os pontos são os que possuem maiores concentrações de moradores de rua. Começa no cruzamento da avenida Alexandrino de Alencar com a Prudente de Moraes, seguindo depois para a avenida Rio Branco, Catedral nova, e Praça Augusto Severo, na Ribeira. O Chuveiro atende uma média de 60 pessoas por noite de atividade. 

O gestor de marketing Laudecir Ferraz, um dos idealizadores do Chuveiro Solidário, já fazia parte de outros grupos, e via que os moradores de rua precisavam de algo mais além da comida. “A maioria se encontrava num estado lamentável de falta de higiene. Detectada a necessidade, passamos a discutir formas de oferecer isso a essa população”, conta. 

Banheiro Solidário: Higiene pessoal e dignidade
Banheiro Solidário: Higiene pessoal e dignidade

O grupo passou a pesquisar, e descobriu um modelo de chuveiro móvel nos Estados Unidos, mas com um custo inviável para a realidade local. Era preciso um projeto mais adequado às condições financeiras dos envolvidos. E foi um arquiteto do grupo que projetou o chuveiro como está funcionando hoje, com uma estrutura prática e sustentável. Todo o grupo se empenhou em levantar os recursos para construir o chuveiro, através de campanhas em redes sociais e outras mídias diversas. As campanhas arrecadaram o valor de R$7.700, o que viabilizou a construção da estrutura. 

O convívio mostrou a Laudecir que os moradores de praças e calçadas possuem uma diversidade de perfis maior do que se pensa. “Nas ruas encontramos casos que nos surpreendem, de pessoas com alto nível intelectual que enfrentaram problemas ao longo da vida que os levaram a adotar as calçadas como lar. Outras já nasceram e se criaram nas ruas, e aprenderam a duras penas a lei da sobrevivência. Mas é fato que a maior causa é a dependência de drogas. A grande maioria atendida é de usuários”, diz. 

Laudecir destaca que alguns não chegam a ser sem teto, mas são levados pela necessidade. “A gente também recebe moradores de comunidades como Passo da Pátria e Mãe Luiza. É bem comum, infelizmente”, ressalta.  O grupo também se mantém através de doações. Atualmente precisa  de produtos de higiene pessoal, materiais de atendimento de saúde, e dinheiro para  manutenção do chuveiro. Doações e contatos podem ser feitos com   Leandro (99987-9523)  e o próprio Laudecir (99817-1540). Uma segunda unidade foi projetada para Parnamirim, e deverá circular em março. 

Consulta na rua
A fisioterapeuta e acupunturista Cláudia Oliveira estava numa campanha de arrecadação de mantas para moradores de rua, quando sentiu a necessidade de ir além. “Uma das maiores lacunas que percebi foi na assistência de saúde, e mais precisamente na urgência de tentar reduzir a dependência química e a fome dos sem teto”, diz. E assim ela começou a prestar pequenos atendimentos médicos voluntários, e surgiu um novo grupo dentre as ações humanitárias, o Saúde Solidária. 

O projeto foi crescendo conforme as necessidades foram surgindo. Aos poucos foi se formando um grupo de voluntários da saúde que hoje inclui profissionais das áreas de fisioterapia, enfermagem, acupuntura e medicina, gente que oferece gratuitamente todas as sextas-feiras à noite, uma diversidade de serviços – entre eles, assistência de enfermagem com curativos, assistência médica para acompanhar e encaminhar os casos de doenças endêmicas (como escabiose), infecciosas, metabólicas (diabetes, hipertensão), e até distúrbios psiquiátricos. 

Até o momento, a assistência é feita nas calçadas. Cada equipe leva consigo o material que será utilizado para realizar os procedimentos e encaminhar o tratamento para a rede pública, quando necessário. E o novo passo do projeto tem a ver com isso: a construção de uma unidade móvel, que funcionará como um consultório de apoio. A campanha de arrecadação tem número de conta no banco para doações de 25, 50 e 100 reais (disponível nas redes sociais), e também é apoiada pelo grupo Chuveiro Solidário que, pode-se dizer, é um projeto irmão do Saúde Solidária. Tel.: 99907-9041. 

Enquanto o consultório móvel não chega, o projeto está aberto às doações de materiais de saúde. A fisioterapeuta destaca as principais necessidades, como luvas de procedimentos, gazes, ataduras, álcool em gel, óleo de girassol, soro fisiológico, esparadrapo, micropore e fitas para verificação de glicemia. O ponto de coleta é a clínica Movimento Espaço Terapêutico, em frente à Praça das Flores, Petrópolis. 

Pioneiro
Desde o final da década de 90, o grupo Anjos da Madrugada percorre as ruas de Natal oferecendo o que seria, provavelmente, a primeira refeição do dia para os moradores de rua. “Oferecemos sempre alimentação pronta, já que cesta básica não faz muito sentido para quem está na rua”, diz o policial militar Dário Dicles, que faz parte do grupo há dez anos. O cardápio dos Anjos é composto basicamente por sopa, pão, cuscuz, café, suco, e água. Também podem ser acrescidos munguzá, iogurtes e achocolatados. 

Dário ressalta que os Anjos se moldaram com o tempo às novas necessidades, já que entre os necessitados estão chegando muita gente que até tem um teto, mas não tem o que comer. O grupo, que saía só às sextas, passou a sair também às quartas e quintas. Os grupos de voluntários são divididos para dar conta desse itinerário. O PM ressalta que vários grupos novos surgiram a partir dos Anjos, e que muitos deles continuam atuando entre eles. “Conheci os Anjos numa ação de Natal, e desde então não saí mais. Deixa um sentimento muito bom para quem faz”, diz. 

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