Ciência e ficção: Filme gravado em Natal ganhou prêmios no Festival de Cinema Latino-Americano de Vancouver

Publicação: 2020-10-20 00:00:00
Tádzio França
Repórter

“Fendas” é uma co-produção entre Brasil e França, toda gravada em Natal, cujo tema é a busca pessoal para além das barreiras físicas e temporais, aliando existencialismo e física quântica. Pode parecer complexo, mas isso não tem sido um problema para o filme, que entre setembro e outubro ganhou prêmios no Festival de Cinema Latino-Americano de Vancouver, no Canadá, e no Festival Internacional de Cine de Pasto, na Colômbia. Romper fronteiras é mesmo uma marca de “Fendas”.

Créditos: DivulgaçãoA protagonista do filme visita áreas turísticas de Natal como o Farol de Mãe Luiza (foto àcima) e Forte dos Rei Magos (foto abaixo). Na outra imagem, toda a equipe de Fendas reúnida durante parte das filmagens, na Universidade Federal do Rio Grande do NorteA protagonista do filme visita áreas turísticas de Natal como o Farol de Mãe Luiza (foto àcima) e Forte dos Rei Magos (foto abaixo). Na outra imagem, toda a equipe de Fendas reúnida durante parte das filmagens, na Universidade Federal do Rio Grande do Norte

“Só de ver o filme ser selecionado já é uma surpresa. Ele não tem uma estrutura linear, fácil e convencional, exige mais do espectador. É legal que as pessoas estejam de mente mais aberta e curtindo obras como essa”, afirma o diretor Carlos Segundo, paulista que mora em Natal há três anos. Em Vancouver, “Fendas” ganhou menção honrosa na categoria "Novos Diretores" e venceu a categoria "Novos Diretores pelo Júri Jovem"; na Colômbia, ganhou o prêmio de melhor longa-metragem de ficção internacional.

Carlos se mudou para Natal em 2017 para trabalhar como professor de audiovisual na UFRN. Ele acredita que isso tenha contribuído para criar uma história na qual a capital potiguar fosse um cenário a ser explorado. “O filme tem isso mesmo, de ser um pouco meu alter-ego querendo conhecer a cidade, a visão de alguém que acabou de chegar e quer aprender mais”, diz. A produção local ficou a cargo da Casa da Praia Filmes, em parceria com a produtora mineira O Sopro do Tempo, e as francesas Aun Filmes e Les Valseurs.

Som e imagem
Catarina, a protagonista de “Fendas”, é vivida pela atriz Roberta Rangel, de Brasília. Assim como o diretor, ela também veio “de fora”, e esse é seu olhar sobre a capital potiguar. Catarina é uma pesquisadora da área da física quântica que vem morar em Natal e estuda os espaços sonoros ocultos nas variações de luz. Quando ela começa um mergulho profundo nas imagens, acaba descobrindo uma nova forma de espectro sonoro que abre acesso a outra temporalidade.

A vida e a pesquisa se misturam de forma que convergem o passado, presente e futuro durante a história contada na ficção. A busca acadêmica atravessa a existência e traz para a tela a força feminina no universo profundo entre a pesquisa e a vida de Catarina. Nesse processo, a pesquisadora se move entre vários espaços conhecidos da cidade do Sol. Mas não se trata de um passeio meramente turístico.
Em sua busca quântica, Catarina passa por lugares como a Fortaleza dos Reis Magos, a Feira do Alecrim, o campus universitário, o observatório futurista do Parque da Cidade, e até mesmo uma passagem pelas falésias de Pipa. “Os pontos não têm a ver com serem turísticos, mas sim por possibilitarem à personagem poder ver longe, o oceano, os espaços abertos, o infinito. São lugares simbólicos para a trama”, explica o diretor. Foram nove dias e meio de filmagens em 2018.

Ficção científica?
O longa-metragem estreou em julho de 2019 no FID Marseille, e desde então tem passado por uma maratona de festivais entre o Brasil e o exterior. Uma curiosidade, é que a narrativa ousada e experimental de “Fendas” permitiu que o filme passasse por variadas leituras e interpretações. O filme já foi classificado de ficção científica até documentário. E está tudo bem.

“Confesso que fiquei surpreso quando classificaram o filme como ficção científica. Apesar de não ter sido intencional, vi que essa leitura também cabia”, afirma. Carlos ressalta que a trama tem mais a ver com os pensamentos de Catarina sobre suas questões existenciais, subjetividade e filosofia, alinhadas com muita poesia. “Fendas” também foi lido como um documentário. “Acho que pelos aspectos realistas, os planos longos. Os acontecimentos transcorrem de uma forma natural”, explica. O diretor acredita na qualidade “amorfa” de sua obra, aberta a interpretações, sem rótulos.

A jornalista Michelle Ferret participou da elaboração do roteiro junto com o diretor Carlos Segundo, juntamente com a direção de arte e figurino, aliada a uma equipe composta quase toda por potiguares. “A direção de arte respeitou muito a existência da personagem Catarina, num estudo profundo sobre sua relação com o espaço de dentro e de fora. Quando atravessamos as pontes, podemos ver a Praia do Meio, Ponta Negra, o Parque da Cidade. Até o apartamento dela tem uma presença importante na escolha dos elementos visuais e imaginários”, explica.

Michelle destaca o engajamento da equipe potiguar envolvida no processo. “Gravar um longa-metragem, com poucos recursos, em Natal é fazer cinema de guerrilha. Saíamos para gravar antes do dia amanhecer e voltávamos no final do dia. Fazer cinema em Natal é fazer cinema acreditando na arte. É o instrumento que temos para ter voz nesse país”, afirma. Carlos Segundo espera que os prêmios ajudem “Fendas” na divulgação e distribuição. O filme estará na programação de um festival em novembro.

“Fendas”já passou pela Mostra Internacional de São Paulo (SP), Panorama Internacional Coisa de Cinema (BA), 7° Festival Internacional de Cinema de Brasília (DF), Ji.halava IDFF (República Tcheca), Cinequest (Estados Unidos), e Mostra de Cinema de Gostoso (RN), onde também recebeu Menção Honrosa.