Cidade Nova feita de livros

Publicação: 2017-11-19 00:00:00 | Comentários: 0
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“Cidade Nova é para mim um quadro na parede, porém, ao contrário da Itabira dos versos de Drummond, não dói”, filosofou o pesquisador, escritor e servidor público Thiago Gonzaga. Aos 37 anos, o criador do blog “101 Livros do RN – que você precisa ler” nasceu e se criou no bairro da zona Oeste de Natal. Ele tem guardada na mente as melhores lembranças da infância nesse bairro ainda jovem —  sua criação é do início da década de 1960.  Foi lá onde Thiago pôde desfrutar de um ambiente pitoresco em meio à cidade grande, quase uma cidade do interior, onde se corria na areia solta, soltando pipa e brincando com os amigos. Até mesmo o aterro sanitário – aquele cenário triste do “forno do lixo”, era aos olhos do menino, também um motivador de aventuras.

Na foto, o pesquisador e escritor, Thiago Gonzaga
Na foto, o pesquisador e escritor, Thiago Gonzaga

O crescimento em meio a um ambiente desfavorecido pelo poder público não conduziu o destino de Thiago, mas lhe deu uma bem vinda noção de realidade. Formado em Letras, pós-graduado em Literatura e Cultura do RN, e Mestrado em Literatura Comparada, com 12 livros publicados, ele foi praticamente analfabeto até os 20 anos. Tinha que trabalhar para sustentar a casa. Até que, do mesmo lixo que enfeiava o bairro, vieram os livros achados por sua mãe e que, ele afirma, salvaram sua vida.

Hoje o bairro não tem mais o forno do lixo, e suas dunas recuperaram a beleza. Há mais estrutura, apesar de alguns problemas persistirem. Com os olhos de quem viu Cidade Nova por todos os ângulos, e a transformou num belo mote literário, Thiago conta um pouco dessa história por aqui. Acompanhe:

Refúgio

O bairro de Cidade Nova foi uma espécie de refúgio para os moradores  que  tinham vindo do interior, querendo conseguir residências na recém- inaugurada Cidade da Esperança, conjunto habitacional criado pelo governador Aluízio Alves, no início dos anos 60. Mas, por não haver mais casas disponíveis, os que vieram em êxodo, abriram uma estrada entre dunas que cercavam a Cidade da Esperança e começaram a construção do bairro que iriam denominar de Cidade Nova. “Meus pais chegaram ali bem no inicio, faziam parte dos primeiros moradores, compraram um terreno para pagar de modo parcelado, era uma área relativamente grande para as condições financeiras deles, dava pra construir até quatro pequenas casas, mas como eles não tinham recursos, fizeram  somente uma casa bem pequena, de barro, na parte da frente, e cercaram o terreno com paus e arames. Guardo tudo isso bem vivo na memória”.

A infância no bairro
Subir nas dunas de Cidade Nova, brincar, chupar cajus, atirar de estilingue, pegar passarinhos. Nada era tão bom como fazer nosso próprio brinquedo, cavar buracos  no quintal de casa,  brincar com tampinhas de garrafas, com latas de leite vazias,  subir em galhos de árvores, fazer as vezes de polícia e ladrão. Tudo era motivo para despertar a criatividade.  Adorávamos soltar pipa. Era tão divertido que nem notávamos o sofrimento da vida que passava aos nosso olhos. 

A descoberta dos livros
Sou filho de pais analfabetos. Meu pai servente de pedreiro e minha mãe, lavadeira de roupa.  Meu pai faleceu por volta dos meus sete anos de idade. Comecei a trabalhar ainda criança, empurrando carrinho de compras de supermercado, para ajudar a manter a casa. Passei muitos anos sem contato com os livros,  longe da escola. Até que um dia, já adulto, minha mãe achou uns livros no lixo e trouxe para casa. Minha vida tomou outro rumo. Numa altura da vida em que deveria estar preocupado com  os estudos, em passar num concurso público, eu  lutava  pela sobrevivência. A vida era dura, mas não apenas comigo, também com milhares de brasileiros,  nascidos e criados na periferia das cidades, que muitas vezes, não têm oportunidades,  seja por falta de orientação dos pais,  seja pela inexistência de projetos sociais ou  programas do  governo voltados para essa camada da população.  Posso dizer, sem nenhuma dúvida, que os livros me salvaram.

Moradores
A visão que tenho do bairro ao longo desses anos é que a população de Cidade Nova foi por muito tempo formada, sobretudo, por trabalhadores informais, lavadeiras, empregadas domésticas, vendedores de picolés,  operários da construção civil e donas de casa.  Poucos foram os filhos da primeira geração de moradores que  conseguiram vencer  as adversidades da vida.             Acredito que vários jovens da minha geração  possuíam grande potencial para praticar esportes, por exemplo, mas infelizmente, uma serie de fatores, - a luta pela sobrevivência, a falta de incentivo e  de projetos sociais -, acabou por leva-los para outro rumo.

Fim do lixão
Cidade Nova, durante muitos anos  foi conhecida como um  bairro de  violência, e o “bairro do Forno do Lixo”.  Lembro que,  muitas vezes, quando criança,  íamos eu e outros amigos, ficar na pista, olhando os caminhões e carretas descarregando lixo de toda a cidade no aterro. Com o passar dos anos tudo mudou. Hoje não é mais em  Cidade Nova, e lá funciona apenas um centro para deslocamento do lixo, além de uma cooperativa muito organizada de  catadores de recicláveis.  Não se vê mais pessoas catando lixo para comer, como antigamente, apesar dos pesares, as coisas mudaram. A área, das dunas, voltou a ser bonita e verde, além de se ter lá do alto uma boa vista da nossa cidade.

Interesse na literatura potiguar
Eu, digamos assim, me apaixonei pela literatura potiguar, por que praticamente foram escritores potiguares que me alfabetizaram. Fizeram parte das minhas primeiras leituras, da minha formação como leitor. Tanto  é que durante anos fui leitor compulsivo das obras da nossa literatura, que na verdade me motivaram a  ir para o universo das letras. Lembro que, na época do curso de Letras, fiz um blog,  “101 livros do RN- que você precisa ler” para divulgar nossos livros e autores, e foi um sucesso, obteve mais de cem mil acessos. Hoje ele não existe mais, porém,  tenho certeza que contribuiu para difusão das nossa literatura, sobretudo para os mais jovens que estão nas redes. Continuo colaborando com as nossas letras, mas de outra forma, hoje em dia, seja com a própria  revista da ANRL, com ensaios para revistas, sites e  o espaço que temos nesse conceituado jornal. Como filho de Cidade Nova, menino de periferia, longe dos bancos escolares, jamais imaginei chegar tão longe.

A cidade através dos seus autores
O meu contato com a literatura potiguar, me fez   conhecer muito da nossa cidade através dos livros, sobretudo conhecer um pouco da nossa própria história. Recordo de livros maravilhoso que li sobre nossa cidade, como  “A História da Cidade do Natal”, de Luís da Câmara Cascudo, “Breviário da Cidade do Natal”, de Manoel Onofre Jr. , “Natal: Biografia de uma Cidade”, de Diógenes da Cunha Lima, dentre outros. Seja através dos livros de história, ou de ficção, sempre aprendi, sobretudo, a amar, mais e mais a nossa cidade.  Na ficção, por exemplo, cito de memória, livros recentes, que, em forma  romanceada  descrevem um tanto de Natal:  “Parnamirim Field” , de  Lenilson Antunes;  “Cidade dos Reis”, de Carlos de Souza;  “Uns Contos Ordinários”, de Cellina Muniz; “Uns Contos de Natal” , de Carlos Fialho. Em versos, inúmeros poetas cantaram a cidade: Newton Navarro, Othoniel Menezes, Paulo de Tarso, Zila Mamede, Nei Leandro de Castro,  Clotilde Tavares, Lívio Oliveira.

A nova Cidade
Em 2008 Cidade Nova ganhou um enorme presente do prefeito Carlos Eduardo,  o privilegio de dividir com outro bairro, Candelária, “O Parque da Cidade.”, ou melhor,  “Parque da Cidade Dom Nivaldo Monte”, que é um espaço maravilhoso, inaugurado em 21 de julho de 2008, com projeto arquitetônico de Oscar Niemeyer. O Parque possui uma área de 132,36 hectares e está situado na Zona de Proteção Ambiental 1, entre os bairros de Candelária e Cidade Nova.   Outra importante atrativo do bairro, é o Memorial da Capoeira. O museu é um projeto diferenciado, desenvolvido por colega, da mesma geração, Nivaldo Freire. No Memorial da Capoeira o visitante tem oportunidade de conhecer a história de um esporte que surgiu como resistência dos negros à escravidão, e sua prática era clandestina, mas foi liberada no Governo de Getúlio Vargas, até que, em 2008 o veio o reconhecimento oficial, como patrimônio cultural do Brasil.


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