Cineastas são proibidos de ir a Cannes

Publicação: 2018-05-11 00:00:00 | Comentários: 0
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Marcio Rodrigo Delgado*
Especial de Cannes

Dois diretores de nacionalidades diferentes com filmes selecionados para concorrer à Palma de Ouro este ano, em Cannes, não irão poder estar presentes quando a 71ª edição do evento exibir suas obras na Riviera francesa devido estarem proibidos e viajar.

Equipe do filme Leto, que aborda a história de músico russo, homenageia diretor proibido pelo presidente Putin de deixar o país
Equipe do filme 'Leto', que aborda a história de músico russo, homenageia diretor proibido pelo presidente Putin de deixar o país

O iraniano  Jafar Panahi, ganhador de um prêmio em Cannes em 1995 pelo seu filme de estreia “The White Baloon” está proibido de deixar o irã desde 2010 quando foi acusado de fazer propaganda contra a República Islâmica. O seu filme, “Três faces” será exibido em Cannes no dia 12 de maio (sábado), porém o cineasta ainda cumpre a sua reclusão doméstica e foi proibido de exercer qualquer atividade relacionada a sua profissão ou de dar entrevistas.

Não que isso tenha feito com que Panahi abandonasse o cinema. Nos últimos sete anos, usando criatividade para burlar as autoridades de seu país, o cineasta conseguiu realizar seus projetos secretamente. “Isto não é um filme”, produção sobre a sua prisão domiciliar exibido em Cannes em 2011, conseguiu sair do país em um pen drive escondido dentro de um bolo. Em 2015 Panahi fez “Táxi”, onde teve que fingir ser um motorista durante as filmagens dentro do veículo para não chamar a atenção das autoridades. O cineasta foi lembrado na manhã desta quarta-feira, em Cannes, onde durante uma coletiva para a imprensa de “Todos lo saben”, novo filme de Penélope Cruz e Javier Bardem, o seu diretor, o premiado cineasta Asghar Farhadi  lembrou a imprensa de que ele não era o único iraniano concorrendo a uma Palma de Ouro este ano no festival de cinema de Cannes:

‘Este ano é especial, porque há dois filmes iranianos no festival. Há uma outra produção, dirigida por Jafar Panahi, também concorrendo ao prêmio’ — lembrou Farhadi no encontro com a imprensa de diversos países, referindo-se ao colega impedido de viajar.

Outro cineasta que não pisou no festival este ano foi o russo Kirill Serebrennikov. O seu longa-metragem “Leto” (Verão), exibido na manhã de quinta-feira (8/5) no festival de Cannes é baseado na história real de Viktor Tsoi, um dos músicos de rock mais bem-sucedidos na Rússia, que morreu em um acidente de carro em 1990 aos 28 anos. O longa mostra a retrógrada censura russa dos anos 80 quando músicos eram obrigados a submeter suas letras para a aprovação oficial — e o público da única casa de shows de rock de São Petersburgo era policiado para permanecer sentado e evitar que mostrassem muita animação durante eventos. Serebrennikov, que além de cineasta também é diretor de teatro, foi posto em prisão domiciliar após ser acusado de desvio de mais de R$ 3 milhões dos cofres públicos durante a implantação de uma plataforma cultural sem fins lucrativos.

A organização do festival tentou interferir na decisão que proíbe os dois cineastas de deixarem seus respectivos países, apelando inclusive por ajuda do consulado francês, mas a manobra não deu resultado. No caso de Kirill Serebrennikov, o cineasta Joel Chapron que comandou a coletiva de imprensa do filme “Leto” no festival de Cannes, anunciou que o presidente da Rússia, Vladimir Putin, respondeu ao pedido de liberação de viagem para Kirill dizendo que “… teria tido prazer em ajudar... mas que na Rússia a Justiça é independente".

*Marcio Delgado é jornalista e baseado na Europa desde 2004 de onde cobre moda e entretenimento.


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