Cinzas da ingratidão

Publicação: 2020-02-21 00:00:00
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Rubens Lemos Filho
rubinholemos@gmail.com

Créditos: DivulgaçãoRodriguinhoRodriguinho


Desnudo minha isenção. As marchas e contradanças do carnaval instituem a paz e a honestidade das relações por quatro dias, antecedidos de prévias efusivas. As fotografias dos blogs me concedem a razão.

Há, nos sorrisos, o carimbo da euforia efusiva e o chumbo da repetição anual, toque-se frevo, samba, até forró de baixo nível e, esquecido e imortal, o cancioneiro do nosso carnavalesco maior: Dosinho.

O futebol e o carnaval transam a cada rasgo de minuto, simétricos no artificialismo. No jogo, mente-se de máscara própria de carne quando se inventa que fulano ou beltrano batem na bola na ginga do pandeirista de fulanas rodas de bamba. Em ambas as festas, não há tanto lugar para o povo, para a gentinha, a mundiça, o ser popular. Nos rostos, timidez e vergonha das vestes e bolsos vazios.

Enquanto brincam bem ou maltratam tamborins, anuncia-se a contratação do natalense Rodrigo Marinho, o Rodriguinho, pelo Bahia. Rodriguinho é filho das Rocas, berço de balacobacos e dribles, celeiro dos mais habilidosos instrumentistas, com o cavaquinho ou as chuteiras a parir firulas.

Despeço-me de vez da exigência profissional da frieza. Rodriguinho começou no futebol de salão, jovem ainda, colegial. Aos 17 anos, encantava com suas passadas de chanceler, as fintas desmoralizantes e gols inacreditáveis.

Rodriguinho começou na AABB e veio jogar no ABC quando eu e o publicitário Arturo Arruda tomávamos conta de um time que, em cinco anos, conquistou 19 títulos locais, regionais e nacionais.

O futebol de campo levou Rodriguinho e depois com ele cometeu uma deslealdade implacável. Atingiu sua honra, insinuou (homens de verdade não fofocam, declaram), envolvimento em farras, transformou-o em estorvo. Os forasteiros podiam fazer tudo, Rodriguinho, canguleiro (naturalidade do nascido nas Rocas), jamais seria perdoado.

Corria o ano de 2009 e Rodriguinho foi mandado embora.  Estava de tanga na selva de pedras. Sozinho e sem perspectivas. Chamamos Rodriguinho outra vez para o futsal. Ganhamos uma Taça Brasil e uma Copa RN sem suar a camisa. Rodriguinho foi embora outra vez, para o Bragantino. Exibiu, com juros e fúria, a virtude que os cartolas alvinegros ignoraram.

Rodriguinho jogou no América(MG), Corinthians(SP), Grêmio(RS), Cruzeiro(MG) e Emirados Árabes. Namorou beldades, fez muito bem, manteve de pedra de toque a habilidade em lances imprevisíveis. De costas, girava sobre o beque e enfiava a caneta noutro adversário. Batia suave, sem grosserias, matando a autoestima dos goleiros.

Todos nós torcíamos por Rodriguinho. Vibrávamos. Até que, repórter calejado, comecei a notar uma ausência de informação ou uma falha de conduta(talvez demais falar em caráter). Rodriguinho sempre escondeu sua passagem pelo ABC nas quadras. Nunca disse por onde tornou-se conhecido, pelas mãos de um velho e excepcional treinador paulista chamado Ernani Passaglia, enxadrista do salão.

Então, Rodriguinho passou a chiar um chiado entre o carioquês e o viçosense. Aquele modelito do cordão por fora da camisa,  nem sei se parecido  ao de malandros violentos. Rodriguinho, deslumbrado, nem pensou que abandonar a raiz é arrancar  o chão dos pés. Nunca.  Nunca lembrou do futsal do ABC.

Agora, vai repetindo o caminho de volta dos bons de bola mais velhos. São Paulo,  Rio de Janeiro, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Bahia, Pernambuco e qualquer  outro timeco nordestino, do Centro-Oeste ou do Norte. Inoxidável tempo.

Procuro ser correto na vida para nunca me reconciliar com ninguém. Perdoo de jeito nenhum. Se a inflexível intolerância parecer rancor, paciência, graças a Nosso Senhor. Passei borracha apenas em cadernos colegiais na infância. Jamais o ridículo do abraço no sacana em alegoria de mentira. Perdão, prerrogativa de Deus.

Rodriguinho no Bahia é bem axé music, som de subnitrato de pó de flatulência. Nos quatro dias de carnaval, memória acesa, sem nada a apagar. Ouvirei Cartola e Paulinho Vanzolini, dois luminosos. Limpos de qualquer desafino. No bloco da ingratidão, reinado vitalício  é o de  Rodriguinho.

Diá
O primeiro turno é do técnico Diá. “ABC é igual a novela, só presta no fim”. Bem Frasqueira.

Taça
Wallyson merece uma taça. Só dele.

JP
Paulo Sérgio do ABC fez um golaço. Digno de background com brega maracatu do Paulo Sérgio finado cantor. Sério: golaço.

Duro
Nada ganho. O 2x2 provou que ABC e América é jogo equilibrado. Segundo turno é prece americana.

Muro da Vergonha

O corredor isolando torcedores do América é o ato mais vergonhoso do campeonato. Ninguém se machucou. Mas foi rendição do Estado.

TV
Primor de frase do repórter do Bom Dia RN: “Policiais foi pago com diárias operacionais”. Ganhou o turno da concordância.

Lelê
Lelê, novo camisa 10 do América, em um jogo, acabou as ilusões sobre Dione.






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