Claudia Santa Rosa: “Desigualdades no ensino terão impacto no Enem”

Publicação: 2021-01-17 00:00:00
Entrevista: Claudia Santa Rosa - Doutora em Educação, diretora Executiva do Instituto de Desenvolvimento da Educação e ex-secretária de Estado da Educação

Qual o impacto da pandemia no desempenho dos alunos que realizarão os exames?
O ano de 2020 foi dificílimo para todos os estudantes, das escolas particulares e públicas. Porém, as condições de aprendizagem, durante a pandemia, foram e são infinitamente mais favoráveis para os estudantes de escolas que ofertaram e ofertam o ensino remoto com regularidade e mais universalizado. Essas escolas são as mesmas que retomaram às atividades presenciais, ainda no mês de setembro, justamente as escolas particulares. Essas desigualdades educacionais, inevitavelmente, terão impacto no Enem.

Créditos: Reprodução/FacebookClaudia Santa RosaClaudia Santa Rosa


O impacto maior é psicológico (todos os protocolos de biossegurança envolvidos e o estresse que a pandemia trouxe em 2020) ou pedagógico (mudança no modelo de aulas e, consequentemente, de estudos)?
O ensino remoto pegou as comunidades escolares de surpresa porque a nossa escola ainda tem o mesmo formato do século XIX e há pouca disposição para alterá-lo, para inovar. Os estudantes não são autônomos, dependem do professor até para acessar informações, a maioria ainda é analógica. O cenário escolar, na pandemia, impactou mais o pedagógico que afeta, inclusive, o psicológico, o emocional dos jovens. Quem não conseguiu estudar em 2020 e não se sente minimamente preparado porque não teve acesso aos conteúdos que integram as provas do Enem, não foi somente porque sentiu a pressão decorrente dos protocolos de biossegurança etc e tal, mas porque é dependente de um modelo de aprendizagem que não funciona no remoto.

A realização do ENEM agora no início de 2021 deveria ser repensada? Por quê?

Desde meados de 2020, quando eclodiu o debate sobre a data do Enem, a minha posição é que deveria acontecer somente pelo mês de junho de 2021. Tudo atrasou, as escolas e universidades pararam com a pandemia. 2020 produziu uma desigualdade educacional de consequências severas. Não há razão para esse açodamento na realização de um exame tão importante para os projetos de vida das nossas juventudes. Na rede pública estadual do Rio Grande do Norte, por exemplo, somente em outubro surgiu alguma iniciativa direcionada para preparar os jovens para o Enem, que foram as aulas pela TV.

A pandemia aumentou a discrepância da preparação entre alunos da rede privada e pública?

Sim, aumentou, conforme afirmei antes. Reforço: a discrepância que já existia entre as formações ofertadas aos jovens de escolas públicas e particulares foi acentuada, de forma revoltante. Pouco ou nada se fez, em tempo hábil, para atenuar essa desigualdade. Os estudantes das escolas públicas, salvo honrosas exceções, foram abandonados durante a pandemia e as consequências não tardarão a ser visualizadas, infelizmente.