Coletivo teatral formado por potiguares vence Prêmio Shell na categoria Inovação

Publicação: 2020-03-13 00:00:00
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Michelle Ferret
Repórter 

“... Quando cheguei aqui há doze anos atrás ficava me perguntando que nordeste é esse que vive em São Paulo? … Se São Paulo foi construído pelos nordestinos eu fui descobrir isso lá no Jardim Romano, no extremo Leste, lá no Rio Tietê...”. As palavras são de João Batista Júnior, ao receber o Prêmio Shell SP inovação pelo espetáculo “A Cidade dos Rios Invisíveis”, o qual assina a ideia original, direção e roteiro. Ao lado de parte da equipe, em sua maioria composta por potiguares e moradores de Jardim Romano, João se emociona ao lembrar da trajetória do espetáculo que começou em 2012.

Créditos: Mylena SouzaTudo começou com uma residência artística no bairro do Jardim Romano, leste paulistano. Nascia a Trilogia das Águas em 2012, a partir das histórias de enchentes vividas pelos moradores do bairroTudo começou com uma residência artística no bairro do Jardim Romano, leste paulistano. Nascia a Trilogia das Águas em 2012, a partir das histórias de enchentes vividas pelos moradores do bairro


Considerado o terceiro e maior espetáculo realizado pelo Coletivo Estopô Balaio na residência artística no bairro do Jardim Romano, extremo leste paulistano, ele finaliza a Trilogia das Águas (três espetáculos), iniciada em 2012, a partir das histórias de enchentes e alagamentos vividas pelos moradores do bairro.

Inspirado no livro “As Cidades Invisíveis” de Ítalo Calvino, o espetáculo é a memória partilhada nos quatro anos de residência artística no Jardim Romano. “São as nossas de estrangeiros de um lugar distante e a destes pequenos deuses alagados de uma cidade submersa pelo esquecimento”. No texto de apresentação do espetáculo diz que o encontro com o bairro se deu num processo de identificação, pois a maioria de seus moradores são também migrantes nordestinos que fincaram suas histórias de vida nos rincões da capital paulista. “O alagamento do Jardim Romano era real, oriundo da expansão desordenada da cidade, o nosso era simbólico, originário da distância e saudade daquilo que deixamos para trás. Falar do outro e deixá-lo falar por nós tornou-se o percurso daquilo que começamos a fazer, criar arte a partir da necessidade de inventar a vida”.

Para João, os prêmios tem uma relevância simbólica. “Quando você faz arte num território de fronteira e periférico como o Jardim Romano, nem sempre eles são vistos e legitimados por prêmios dessa natureza. A cidade é uma disputa de território imaginário. Quando chegamos ao Jardim Romano, primeiro precisamos disputar esse território.  Tem a ver com ampliar o repertório mesmo sobre teatro e sobre a cidade, para entender o teatro de uma maneira mais comum na vida, de uma relação de igual para igual”, acredita João.

A atriz Ana Carolina Marinho, quem assina a produção, dramaturgia e é parte do elenco fez referência a Natal, Rio Grande do Norte em sua fala. “Somos muitos e muitas e não tinha convite suficiente para trazer todos. Somos migrantes nordestinos que resistimos fazendo teatro em São Paulo. Cada espetáculo dura 4 horas e caminhamos 40 km e a gente já fez 100 apresentações e consegui voltar para a minha cidade Natal, no Rio Grande do Norte só fazendo esse espetáculo”, reflete.

A atriz Keli Andrade, moradora do bairro, quem viveu de perto o processo transformador do espetáculo, disse emocionada “Eu e minhas duas filhas que me ajudaram a passar por tudo isso. Atravessamos uma enchente com água até o peito e viemos até o Centro para mostrar que o Jardim Romano existe e existe cultura e arte além da enchente”, desabafou emocionada ao receber o prêmio.

Créditos: Mylena SouzaInspirado em ‘As Cidades invisíveis’ de Ítalo Calvino, projeto percorreu o Jardim Romano para retratar as histórias e memórias dos moradoresInspirado em ‘As Cidades invisíveis’ de Ítalo Calvino, projeto percorreu o Jardim Romano para retratar as histórias e memórias dos moradores


Do Jardim Romano para o Passo da Pátria
Atravessar o país e retornar a sua cidade, tem sido um trajeto profundo para João Júnior. Em Natal ele iniciou em 2019 o “Margem Memória”, no Passo da Pátria, comunidade ribeirinha do Rio Potengi. “Começamos o Margem com a dinâmica de trabalhar com a memória dos moradores a partir da relação com o Rio Potengi. E isso já mostra um perfil de relação da cidade com o passo e também se revela uma memória social que é muito parecida com a de Jardim Romano”, conta João.

Localizado próximo a linha do trem, paralelo à Avenida do Contorno e do Rio Potengi, o Passo sofre com a violência policial diariamente e é estigmatizado socialmente. “O Passo está localizado numa região central da cidade e sofre com apagamento histórico, arquitetônico, memorial. A cidade coloca sua economia toda focada no turismo que leva as pessoas para as praias do Sul e Norte e  essas regiões centrais de Natal, Natal estão perdendo sua identidade histórica”, reflete.

João acredita que  o Passo da Pátria, assim como o Baldo e outros locais do Centro da Cidade e proximidades, necessitam de resinificação pelo poder público e fazer arte no Passo da Pátria é poder olhar a cidade por dentro. “É olhar pela história do pescador, da benzedeira, da criança que corre à margem do Rio e o próprio rio e o imaginário que ele cria tanto para o morador do Passo como para quem passa por ele”.

O projeto tem como parceiras Tiquinha Rodrigues, Hannah e Rafaela Brito, mulheres que trabalham com a música e constróem com os moradores novas histórias de vida. “Margem chega para trabalhar com a memória, com a lembrança do morador, ele sendo uma obra viva, o morador é o texto, o que dá sentido”, disse. A construção pedagógica acontece através dos  ateliês de criação de teatro, de memória e de música. “O Margem Memória chega para entender e buscar expandir um pouco esse olhar sobre a cidade a partir da relação do Passo com o Rio Potengi e imaginar uma outra Natal possível”, finaliza.

Carta de agradecimento de João Júnior
Ontem passou um filme na cabeça. Prêmio para mim é trabalhar. Amo o teatro. Ele me inventou uma vida possível. Ontem o Coletivo ESTOPÔ Balaio recebeu o prêmio Shell de inovação por A Cidade dos rios invisiveis. Um filme na cabeça. Um peito cheio e aberto. Reconhecimento é bom, mas melhor ainda é aprender a reconhecer-se e reconhecer o outro na caminhada. Garagem, sala de dança, rua, rio e todos os lugares podiam ser ocupados com o teatro pelo ESTOPÔ no Jardim Romano. A disputa de território é imagética. No Romano o imaginário foi construído pelo tráfico, violência polícial, igrejas evangélicas até que chegou o teatro. Hoje, ele faz parte do imaginário do bairro e do morador. Viva Jardim Romano! Viva Natal, Rio Grande do Norte! Viva o Nordeste! Viva São Paulo. Sempre digo isso: Natal é minha mãe e São Paulo é meu pai.

Pai, ontem recebi seu abraço e seu reconhecimento. Aquele mais fundo e abraço apertado. Estava em meio a amigos que me conhecem por dentro e por fora. Eles foram reconhecidos em suas trajetorias.

Aí também disputamos imaginários sobre o teatro. A arte que se faz para além das caixas.

A cidade é um pulso entre o que foi e o que ainda será.

Exu abre caminho. Seu Zé encerra a jornada na beira do rio.

Naquele ponto do mundo é o mundo todo em cada um.

Obrigado por tanto! Grato a vida é seus encontros todos. Sou maior diante e perante o mundo a partir da vida e dos encontros.

Com Ana Carolina Marinho, Juão Nyn, Keli Andrade, Wemerson Nunes, Anna Zepa, Julio Lorosh, Carol Pin, Adrielle Rezende, Bruno Fuziwara, Lisa Ferreira, Mell Reis, Bia, caíque, Luan, Doutor Arilton, Carol Guimaris, Geovane Fermarc, Jomo Faustino, Sabrina, Clayton, Jacira, Débora Fiuza, Jurema, Dona Raimunda, Seu Antonio, Seu Vital, Lúcia, Chica, Sérgio Schiapin, Zé, Emerson Alcalde, AMANDA PREISIG, Bob, Dunstin Farias, Matheus Farias, Flávio Bittencourt, Ramilla Souza, Juliana Grave e as crianças todas (aquelas que já são adolescentes hoje), ao PIÁ, ao vocacional (a prática e pensamento sobre cidade que esses projetos me trouxeram).

Vencedores do 32º. Prêmio Shell
Iluminação: Beto Bruel, por “Lazarus”

Figurino: Simone Mina, por “Insônia – Titus Macbaeth”

Música: Dani Nega, Eugênio Lima e Roberta Estrela D´Alva por “Terror e Misérie no Terceiro Milênio: Improvisando Utopias”

Cenário: Carlos Calvo, por “Cais Oeste”

Inovação: Estopô Balaio, por “Cidade dos Rios Insíveis”

Dramaturgia: Janaina Leite, por “Stabat Mater”

Direção: Daniela Thomas, por “Mãe Coragem”

Ator: Luis Miranda, por “O Mistério de Irmã Vap”

Atriz: Tania Bondezan, por “A Golondrina”











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