Coligações acabam mas alianças espúrias continuaram na política

Publicação: 2020-04-08 00:00:00
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Cassiano Arruda Câmara

Ainda ouvindo o ressoar de “nova política”, o Brasil viveu, no fim de semana, a primeira aplicação de uma nova legislação (aliás como tem acontecido de dois em dois anos em cada eleição, nos últimos 30 anos) que tinha como alvo principal o fim das coligações nas eleições proporcionais, e que comprovou a enorme distância entre o objetivo anunciado e a prática de políticos idosos ou novos formados nos antigos hábitos.

É difícil imaginar a adesão a novas práticas, por quem exerce mandato conquistado com aquele tipo de comportamento que se pretende extirpar da vida pública. E o que se observou foi uma adaptação do antigo jeito de fazer política dentro das novas regras.

Em matéria de desprezo ao fortalecimento dos partidos, as casas legislativas testemunharam o máximo de conchavos, quebra de palavra, e completa ausência de preocupação com os chamados compromissos programáticos ou ideológicos. Prevaleceu o clima do “salve-se quem puder” na grande maioria dos casos. 

NADAR, NADAR... 
No nosso Rio Grande do Norte, o político de maior expressão que participou do troca-troca (ou do pula-pula), foi o deputado (de terceiro mandato) Hermano Morais, então no MDB,  pré candidato a Prefeito de Natal, que resolveu trocar porque o partido não lhe garantiu a legenda e terminou o liberando para procurar outra sigla.

Hermano, 60 anos, foi eleito numa coligação bastante eclética: MDB, PDT, PP, PODE e DEM, mas não foi para nenhum desses. Depois de muitas conversas terminou no PSB (grande adversário naquela campanha), que no Estado cresceu com Wilma e hoje tem o comando do deputado Rafael Motta.

Na fase final do troca-troca, a impressão que ficou é da candidatura de Hermano  a  Prefeito ter morrido na praia. Ele já disputou o cargo numa bela campanha, mas a única responsabilidade que teve nela foi emprestar seu nome e fazer o discurso. Do resto, a estrutura partidária do PMDB se encarregou. Agora ele deu demonstração de pouca força. Não conseguiu, nem mesmo, influir na formação da nominata partidária para disputar um lugar na Câmara de Vereadores. Pelo menos dois nomes considerados fortes, não foram aceitos pelo comando do PSB, mesmo com seu aval. Como imaginar o poder que terá numa campanha majoritária?

PESO DA NOMINATA
A medida em que se aproximava a data fatal (4 de Abril, sábado) em todas as casas legislativa, a palavra mais repetida era NOMINATA. Mas, o que danado é nominata?

No dicionário: “Listagem de nomes ou palavras: nominata dos membros do partido. [Por Extensão] Lista de nomes, geralmente de quem esteve num evento.[Linguística] Lista dos verbetes, das palavras de um dicionário, enciclopédia, glossário etc.; nomenclatura.”

No caso aqui apresentado, nominata é a lista de candidatos a Vereador que cada partido vai apresentar nas próximas eleições.

Mas a lógica de formulação das nominatas não é dos nomes mais qualificados para o cargo ou mesmo de maior potencial de votos. Muitos sofreram, justamente, por ter um potencial alto de votos, o que poderia desarrumar a os grupos formados  por vereadores para garantir a reeleição dos seus integrantes.

LÓGICA ILÓGICA
Na Câmara de Natal, na reta final,  foram formados dois grupos de Vereadores, que desaguaram no PDT e no PSDB, ambos formados à luz dos interesses dos seus integrantes para se reelegerem.

Paulinho Freire, Vice-prefeito de Micarla de Souza, Presidente da Câmara e Presidente do PSDB municipal, foi para o PDT, levando Felipe Alves (MDB), Ney Júnior (PSD), Robson Carvalho (PMB), Dickson Junior (PSDB), Dinarte Torres (PMB), Nina Souza (PEN) e Ary Gomes (PDT), O objetivo do grupo é eleger, no mínimo, oito vereadores; eles próprios. Para Prefeito o novo PDT inclina-se pela reeleição Álvaro Dias.

O PSDB, o partido da Assembleia,  que já havia conquistado o prefeito Álvaro Dias, agora recebeu Luiz Almir (MDB), Dagô Andrade (DEM), Kleber Fernandes (PDT), Chagas Catarino (PDT) e manteve Aroldo Alves.

Os dois blocos somam 13 Vereadores num universo de 29. Mas tem o caso de vereadores postos para fora e os que não aceitaram adesões. Júlia Arruda foi “expulsa” do PDT, porque ela ficando, o grupo dos oito não entraria no partido. Júlia soube do cartão vermelho só na sexta-feira. Primeira mulher eleita Vereadora em Natal Júlia tem três mandatos, todos conquistados com mais de 5 mil votos. Ela ficando na nominata, seis dos oito neo pedetistas se sentiram ameaçados. 

SEM COLIGAÇÃO
Se a coligação nas eleições proporcionais é tida como uma deturpação do sistema eleitoral brasileiro, não bastou o seu fim para – pelo menos até aqui – contribuir para o fortalecimento dos partidos.

Sem coligação, quase metade dos Vereadores da Câmara de Natal criaram uma forma de desvio que incorpora o pior que caracterizava as coligações, que juntava políticos sem nenhuma identidade. Essa tática dos “chapões” se repetiu em várias cidades, começando por Mossoró.

Até aqui ficou patente que os partidos continuam servindo, apenas, para dar legalidade a candidatos, onde as candidaturas avulsas não são permitidas; chegou a vez de privatizar os partidos. No meio de uma crise desse tamanho vai ser difícil justificar o fundo partidário para custear essa farra com  dinheiro, público que está faltando no custeio do estado.