Com avanço do coronavírus, psicóloga dá dicas aos pais de como teletrabalhar e cuidar dos filhos, ao mesmo tempo

Publicação: 2020-03-22 00:00:00
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Mariana Ceci
Repórter

A rotina e a realidade de milhares de brasileiros foram transformadas desde a chegada da pandemia do Coronavírus. Nas escolas da rede pública e privada, aulas foram canceladas e, em muitas empresas, férias coletivas e regimes de teletrabalho, o “home office”, foram adotadas para tentar conter a disseminação do vírus. Estar em casa e optar pelo auto-isolamento preventivo, no entanto, nem sempre é fácil, seja para aqueles que precisam conciliar o trabalho dentro de casa com os filhos fora da escola, seja para àqueles que se veem fragilizados emocionalmente diante da crise mundial. A TRIBUNA DO NORTE conversou com a psicóloga Normanda Morais sobre o assunto. Confira as orientações da especialista.
Créditos: Ares SoaresPsicóloga alerta que, nesse momento, os pais precisam criar uma agenda para os filhos, dentro de casa, ter disponibilidade afetiva e tempoPsicóloga alerta que, nesse momento, os pais precisam criar uma agenda para os filhos, dentro de casa, ter disponibilidade afetiva e tempo

Saúde mental em tempos de isolamento social

A primeira coisa que precisamos considerar é que essa é uma situação totalmente atípica, que não foi escolhida por nenhum de nós. Situações assim, que não são esperadas e, para as quais, não temos tempo de nos preparar com antecedência tendem a ser grandes geradoras de estresse em nossas vidas. A primeira coisa que precisamos fazer é saber que essa situação foi gerada por algo que não depende de nós, mas que temos que lidar com ela da melhor maneira possível, pois ela está posta. Saber separar bem o que depende de nós e o que não está ao nosso alcance é um passo importante para reduzir a sensação de impotência e ansiedade nesse período. Ter em mente que há coisas que podem ser feitas, como seguir os cuidados de higiene que estão amplamente divulgados, e também a própria adesão ao isolamento social, que já é em si uma atitude para tentar conter a doença. Pensando em termos do que é possível fazer para favorecer a saúde mental, é importante considerar algumas coisas: apesar de estarmos em isolamento, não necessariamente estamos sozinhos em casa. Muitas vezes estamos com companheiros, companheiras, familiares... nós precisamos investir em fortalecer os vínculos afetivos, em expressões de cuidado, de afeto, investir no diálogo aberto sobre o que cada um está sentindo diante disso tudo. Não é tempo de negar o medo, de negar a ansiedade, de negar o tédio, e sim tempo de tentar construir coletivamente essas estratégias de superação. Dentro dessas estratégias, algumas coisas têm sido muito faladas e muito recomendadas. Por exemplo: eu preciso fazer atividades que sejam relaxantes, coisas que, às vezes, na rotina tão corrida, não sobra tempo para fazer, como uma leitura por lazer, assistir uma série, um filme. É importante tentar fazer uma lista de atividades que inclua não apenas as atividades de trabalho, pois sabemos que muitos estão trabalhando remotamente, mas também algo para a saúde, para o nosso bem-estar. Investir em buscar informações confiáveis, em um espaço de tempo determinado, também pode ser algo positivo. Cuidado com rotina de sono e alimentação também são fundamentais.

Atitudes prejudiciais

O que não devemos fazer é, principalmente, se deixar levar por um pensamento catastrófico, consumindo excesso de informações. Restringir a nossa vida somente a escutar, ler notícias e refletir sobre o coronavírus. Não podemos deixar que isso aconteça. Nós precisamos reservar o tempo que vamos dedicar às informações, às atualizações e tentar manter também fluxos de informações sobre outros assuntos em meio a isso. Uma coisa que temos que deixar de fazer, definitivamente, é acreditar em tudo que lemos na internet... não devemos virar aquela pessoa que compartilha tudo que lê sem refletir um pouco, sem verificar se aquelas fontes de informação são verdadeiras ou não, pois, ao fazer isso, estamos contribuindo para o aumento da nossa ansiedade e dos outros ao nosso redor.

Crianças em casa e tempo livre

Os pais precisam entender que esse com certeza é um tempo que vai exigir muito deles. Sobretudo, é preciso disponibilidade afetiva, além de tempo, para estar junto. Eu tenho escutado muitos relatos de pessoas que, mesmo fazendo home office colocam a mesa do filho ou da filha do lado, enfim... a ideia é que, assim como você tem uma rotina de trabalho, essa criança possa também ter uma rotina. A diferença é que o tempo de concentração dessa criança provavelmente será muito menor, então você vai precisar pensar em mais atividades, que durem menos tempo, e tentar dosar essas atividades entre coisas mais lúdicas, artísticas, acadêmicas... tudo vai depender muito da idade da criança, e terá de ser adaptado a cada faixa-etária, mas eu diria que cada mãe, pai ou cuidador, deve ficar muito atento a isso. É preciso tomar a iniciativa de fazer essa agenda, e se esforçar para fazer essa criança se engajar nessas atividades. É importante que as tarefas sejam o mais diversificadas possíveis. Uma coisa importante é que muitas escolas têm orientado atividades, seja por e-mail, pela agenda eletrônica ou pelas redes sociais. Também tem acontecido um movimento muito forte na internet de artistas contadores de história que se revezam ao longo do dia oferecendo a contação de histórias, então você pode fazer um bom uso das redes sociais para se informar que artistas são esses, que horário vai ter uma contação de história legal, e envolver seu filho ou sua filha nessa atividade. O que é essencial nisso tudo é que todas essas tarefas sejam permeadas por muita atenção do adulto e muitas expressões de afeto. Essas crianças vão crescer e lembrar que passaram por esse momento muito difícil, no qual elas foram cerceadas de seu direito de ir às praças, escolas, clubes, mas que também puderam ser geradas boas memórias com os pais, apesar dos tempos difíceis.

Depressão ou ansiedade

Tudo que já foi dito se encaixa para alguém que não tem diagnóstico de ansiedade e depressão, mas se encaixa também para as pessoas que possuem algum desses diagnósticos. Os vínculos afetivos, as práticas relaxantes e de auto-cuidado, tanto na alimentação como no sono, são fundamentais. Entretanto, essas pessoas demandam uma atenção a mais, principalmente em termos de monitoramento maior dos familiares. O familiar precisa estar mais atento a essa pessoa nessa época, seja para ver se a pessoa está tomando a medicação corretamente, monitorando para ver se tem algum agravamento dessa situação ou novo sintoma sendo desenvolvido. O que eu diria que é essencial é que essas pessoas continuem seguindo seu tratamento, no caso das que já o fazem. Seja o tratamento medicamentoso, se o fazem, e o acompanhamento psicológico ou psiquiátrico. Tem muita gente fazendo o acompanhamento psicológico online, então essas pessoas precisam pactuar com seus psiquiatras ou psicólogos uma forma de continuarem sendo cuidadas. Essa responsabilidade não deve ser delegada somente a ela, mas também aos familiares que devem fazer esse monitoramento. Antes, o psicólogo tinha que solicitar uma autorização, o que demanda tempo, mas nesse período de crise que estamos vivendo, o que o Conselho Federal de Psicologia fez foi dispensar essa liberação prévia, ou seja, os psicólogos estão autorizados a oferecer terapia online.

Como lidar com os vizinhos

As regras e as normas de boas convivência continuam a valer. É um cuidado adicional nosso continuar prezando por essas regras e boas normas de convivência. No entanto, eu tendo a ver essa situação como um momento muito propício para o surgimento de gestos de solidariedade e cuidado entre as pessoas. Esse exercício de tolerância, que nós temos que ter internamente para dar conta das demandas da nossa casa e de quem dela mora, nós também precisamos ter com o outro, o nosso vizinho. Nós temos visto na mídia alguns gestos e expressões de solidariedade, então eu prefiro apostar nisso. Nesse momento de dificuldade, é preciso também estar disposto a acolher o outro, às vezes no adiantarmos no cuidado com esse outro, sobretudo tendo em vista que eu preciso seguir cumprindo essas regras e normas da boa convivência. Nós somos seres gregários, a nossa espécie só é o que é hoje porque somos seres em relação e nos constituímos como indivíduos na coletividade. Essa pandemia, mais do que tudo, é um momento de refletirmos sobre isso: eu estou cuidando de mim, da minha família, mas também preciso cuidar do outro. Essa questão do individual e do coletivo, nesse momento de pandemia, em uma forma especial, nos conclama a diminuir um pouco essas fronteiras. Está tendo um movimento bacana de se empenhar nesse cuidado, embora tenha muito a ser feito.

Home office x concentração

O ambiente doméstico pode ser muito distrator da sua atenção. Um filho que chora, um parente que chama... a gente precisa saber que isso vai acontecer. No entanto, da mesma forma que eu falei que para as crianças é importante criar uma rotina, os adultos que vão fazer home office também precisam criar uma rotina. Como vai ser minha jornada de trabalho? Quantas horas ela vai ter? Que metas eu tenho para cumprir hoje? O que eu preciso deixar pronto hoje, nessas tantas horas de trabalho que eu tenho a fazer? É preciso ter tudo isso muito claro. Busque um ambiente que seja o mais tranquilo e confortável possível para você trabalhar. É muito importante que você não fique de pijama, que você se coloque em uma posição que retrate essa disponibilidade para o trabalho. Muita gente vai fazer videoconferências, skype... é importante estar apresentável para isso. Fora isso, também é importante criar espaços de descompressão, como a gente chama, ir tomar uma água, um café, se levantar, sempre com a consciência de que você vai precisar voltar ao que estava fazendo.

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