Comédia cinco estrelas

Publicação: 2018-06-29 00:00:00 | Comentários: 0
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Tádzio França
Repórter

Os palcos nacionais dos anos 90 foram abalados por uma combinação explosiva de humor e talento: o espetáculo “5 x Comédia” marcou época, fez sucesso, e influenciou muita gente. Após quase 20 anos fora de cena, o projeto foi retomado em 2016, com nova direção, novo elenco e a mesma proposta. Diretor da trupe e da peça, Hamilton Vaz Pereira comanda a quarta versão do espetáculo, ao lado de Monique Gardenberg, agora apresentando uma nova geração de talentos da dramaturgia e comédia. A nova montagem chega a Natal em duas sessões, sábado e domingo, no Teatro Riachuelo.

Na esquete “Regras de Convivência”, contribuição de Gregorio Duvivier, Lúcio Mauro Filho dirige uma noite de sexo grupal
Na esquete “Regras de Convivência”, contribuição de Gregorio Duvivier, Lúcio Mauro Filho dirige uma noite de sexo grupal

 “5 x” reúne cinco monólogos curtos, cada um com uma abordagem e ator diferente. Os textos são assinados por Antonio Prata, Julia Spadaccini e Gregório Duvivier, e interpretados por Bruno Mazzeo, Debora Lamm e Lúcio Mauro Filho, enquanto Heloisa Périssé e Luís Miranda apresentam monólogos escritos por eles mesmos. Os diretores já comentaram que não se trata de uma remontagem, mas de um espetáculo totalmente novo, apenas com o mesmo nome e histórico.

Texto a texto
Os cinco esquetes trazem o humor do antigo espetáculo para o século XXI, debatendo algumas questões atuais com humor ácido e afiado. Em “Tiadoro Show”, Heloisa Périssé dá vida a Dorotéia, uma mulher que tinha tudo para dar errado na vida, mas a partir de estudos e crenças que desenvolveu, criou uma técnica especial para driblar a pressão do dia a dia e o baixo astral. Depois de dar a volta por cima, acredita que se tornou uma espécie de “Oprah Winfrey brasileira”.

Em “Branca de Neve”, a personagem vivida por Debora Lamm luta para se desapegar da vida de princesa: “Dizem que o mundo mudou, que eu não me adequo mais, que sou antiquada, careta, casada. Mas gente, ser casada agora é um problema? Queriam o quê? Uma princesa divorciada? Vivendo pela Lei do Concubinato? Solteira aos 40 fazendo fertilização in vitro, barriga de aluguel, colhendo sêmen em banco de esperma alemão?”

Como “Branca de Neve”, personagem de Debora Lamm luta para se desapegar da vida de princesa
Como “Branca de Neve”, personagem de Debora Lamm luta para se desapegar da vida de princesa

“Queixada”, escrito e encenado por Luis Miranda, é um flanelinha  que deveria estar cuidando dos carros do lado de fora do teatro, mas se anima com um jogo do Brasil na Copa do Mundo, bebe um pouco além da conta e acaba invadindo o palco.  Diante da plateia, ele revela situações pitorescas do seu cotidiano e avalia a performance dos jogadores do Brasil enquanto segue bebendo a sua cervejinha.

Já “Nana, Nenê” retrata o desespero do clarinetista Rodrigo (Bruno Mazzeo), um pai enlouquecido entre escolas de mamada e de métodos para fazer o bebê dormir: “Vocês acreditam nisso? Acreditam que não tem Alô Bebê 24 horas?! Se existe alguma coisa que funciona 24 horas neste mundo é um bebê! Nada é mais 24 horas que um bebê! E não tem nenhuma Alô, Bebê 24 horas!”. Pais de crianças novinhas vão se identificar.

“Regras de Convivência”, contribuição de Gregorio Duvivier, conduz a um ensaio frustrado de sexo grupal protagonizado por Lúcio Mauro Filho: “Posso só pedir uma coisa? Gostaria que os cônjuges se mantivessem fora do campo visual do seu respectivo cônjuge. Não, Heitor, se você quiser o seu marido pode ficar no seu campo visual. Olha, eu tô falando mais especificamente da Márcia. Seria legal se a Marcia ficasse fora do meu campo visual. Pode ser, Marcia?”. É possível um administrador de surubas?

Em “Tiadoro Show”, Heloisa Périssé é Dorotéia, uma senhora que criou uma técnica especial para driblar a pressão do dia a dia
Em “Tiadoro Show”, Heloisa Périssé é Dorotéia, uma senhora que criou uma técnica especial para driblar a pressão do dia a dia

O “rodízio” de atores e escritores sempre fez parte da dinâmica do “5 x Comédia”. A turma inicial teve nomes hoje clássicos, como Andrea Beltrão, Denise Fraga, Diogo Vilela, Pedro Cardoso e Luiz Fernando Guimarães, entre outros. Um dos representantes da “nova geração”, o jovem veterano Lúcio Mauro Filho, afirma que os novos textos se comunicam pela contemporaneidade. “Falamos de todos os assuntos que incomodam, mas sem levantar bandeiras”, afirmou ao FDS. O ator falou brevemente sobre humor atual e seu esquete na peça. Acompanhe:

Vinte anos separam o novo espetáculo de sua primeira versão. O que foi modificado de lá para cá? Muita coisa mudou no Brasil e no mundo durante esse tempo...
Lúcio Mauro Filho: O mundo ficou mais careta, menos lúdico. As pessoas têm cada vez menos tempo em suas vidas e por isso mesmo, têm uma certa preguiça de refletir de forma mais profunda. Mesmo a comédia, ficou com menos nuances. É o fast-food, fast-Comédia, fast-tudo!

As cinco esquetes se comunicam de alguma forma? Como?
Na verdade elas se comunicam na contemporaneidade. Todos os nossos temos são muito atuais.

A comédia sempre serviu para discutir questões sérias em meio às risadas. O que pode ser lido nas entrelinhas de "5 X"?
Falamos de todos os assuntos que incomodam. O excesso de tecnologia, o feminismo, o machismo, as posições reacionárias, a pressa da urbanidade. Mas tudo de maneira leve e sem levantar bandeiras.

Fale um pouco sobre a sua esquete, em especial.
Na minha cena, temos um personagem que tenta relativizar o que acontece durante a festa que sua mulher propõe para a trupe de teatro da qual faz parte. Durante a noite sua hipocrisia é colocada à prova e seu confidente, um vizinho de varanda, lhe ajuda a vencer os preconceitos e curtir a festa.

O que a "5 X" dos anos 90 deixou de influência para a comédia contemporânea?
Eu sou totalmente influenciado por aqueles comediantes e acabei inclusive me tornando parceiro de muitos deles como Pedro Cardoso, Evandro Mesquita e Diogo Vilela.

A discussão sobre os limites do humor virou pauta contemporânea no Brasil. O novo "5 x" sentiu isso de alguma forma?
Não. Nosso limite é o do bom gosto.

Com tanta informação atual, humoristas youtubers, reavaliações, discussões, etc., o que faz as pessoas rirem hoje em dia?
Uma boa piada. Não tem jeito.

Serviço:
5 x Comédia. Sábado às 21h, e  domingo às 20h, no Teatro Riachuelo. Entrada: R$40 (balcão), R$70 (frisas), R$80 (camarotes/plateia B), e R$120 (plateia A).


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